A imensa usina nuclear já se encontrava em plena fase de construção no momento em que a jovem monarca assumiu o trono britânico, em 1953, simbolizando a grande virada científica do pós-guerra no país.
A central nuclear de Calder Hall, primeira usina nuclear comercial do mundo. – Crédito: Wikimedia / Domínio Público
Usina nuclear aliou geração de energia elétrica a fins militares
A inovadora instalação britânica operava com o reator do tipo Magnox, um equipamento resfriado a gás e abastecido com urânio metálico natural. Com capacidade geradora de 60 megawatts, a usina não servia apenas para fornecer eletricidade às cidades, mas também produzia plutônio voltado ao programa de defesa nacional do Reino Unido.
Em entrevista ao Olhar Digital , o professor Thiago Maia, físico, engenheiro nuclear, pesquisador e criador do canal Ciência Sem Fronteiras no YouTube, detalhou esse duplo funcionamento. “A Calder Hall foi a primeira usina nuclear a produzir eletricidade em escala comercial, mas também tinha finalidade militar. Seus reatores produziam plutônio-239, material utilizado na fabricação de armas nucleares britânicas durante a Guerra Fria.”
O especialista ressalta que, enquanto o calor da fissão gerava eletricidade, o plutônio formado no combustível podia ser posteriormente separado para uso militar, de modo que Calder Hall representava simultaneamente um avanço na geração de energia e um instrumento estratégico do programa nuclear britânico.
De acordo com a Sociedade Nuclear Americana (ANS), o interesse da família real pelas profundas inovações científicas permaneceu vivo nos anos seguintes. Em 1957, Elizabeth II e o príncipe Philip visitaram o Centro de Pesquisa em Harwell para conhecer a ZETA, uma máquina de fusão atômica cujos manipuladores remotos e robóticos roubaram a cena durante as demonstrações ao vivo.
Sala de controle do Calder Hall durante os anos de operação da instalação. – Crédito: Sellafield Ltd e Autoridade Britânica de Descomissionamento Nuclear
Décadas mais tarde, em abril de 1984, a rainha voltou a ser destaque no cenário científico ao inaugurar o Toro Europeu Conjunto (JET), o maior projeto de fusão nuclear do mundo, em Culham. A cerimônia, que contou com o presidente francês François Mitterrand, ficou registrada em vídeos embalados pelas marcantes trilhas sonoras de sintetizador da época.
Diante dos ilustres convidados internacionais, Elizabeth II destacou que a fusão nuclear representava um passo decisivo em direção a uma fonte de energia limpa e inesgotável. Ela elogiou a dedicação dos pesquisadores envolvidos e reconheceu os gigantescos desafios técnicos e ambientais que a humanidade ainda precisaria superar no futuro.
Instalação histórica fechou as portas em 2003
A pioneira usina de Calder Hall encerrou em definitivo suas atividades operacionais no ano de 2003, após quase meio século de funcionamento ininterrupto. Tempos depois, em dezembro de 2015, o governo britânico desativou o último reator do tipo Magnox, encerrando o ciclo daquela primeira geração de reatores atômicos no país.
Atualmente, o Reino Unido conta com nove reatores comerciais em operação, além de duas novas unidades em construção. A estratégia britânica busca modernizar o sistema elétrico para garantir energia limpa e segura, atendendo às exigências ambientais das próximas décadas em toda a região.
No campo da pesquisa avançada, o histórico projeto JET manteve-se por décadas como a principal máquina de fusão em atividade no planeta. Ele abriu caminho para a fase atual, representada pelo programa STEP (sigla para Tokamak Esférico para Produção de Energia), que visa construir até a década de 2040 um protótipo de usina de fusão comercial para liderar a transição energética global.
Demolição das torres de resfriamento do Calder Hall, em 2007. – Crédito: Sellafield Ltd e Autoridade Britânica de Descomissionamento Nuclear
Especialista projeta energia de fusão comercial após 2040
No entanto, o caminho para que essa tecnologia chegue às residências envolve obstáculos técnicos complexos. Segundo Maia, o principal desafio da física moderna já não é realizar a reação em si, mas transformá-la em uma fonte de eletricidade contínua, segura e economicamente viável.
O físico enfatiza que ainda é preciso dominar o controle de plasmas extremamente quentes, desenvolver materiais capazes de suportar condições extremas, assegurar o fornecimento contínuo de combustível e alcançar um saldo energético positivo – produzindo mais energia do que a própria instalação consome.
“Algumas empresas pretendem demonstrar a geração elétrica por fusão na década de 2030, mas essas metas ainda são incertas. Uma utilização comercial mais ampla poderá ocorrer entre 2040 e 2050, ou posteriormente. A fusão nuclear é cientificamente possível, mas sua viabilidade comercial ainda precisa ser demonstrada”, avalia o pesquisador.
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