Globo/ Manoella Mello
Os candidatos à Presidência da República Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) mudaram de posição sobre temas que vão de programas sociais à segurança pública. As mudanças de discurso e posicionamento podem ser identificadas em entrevistas, debates, publicações nas redes sociais e decisões tomadas ao longo de suas trajetórias políticas, inclusive durante a campanha eleitoral de 2026.
Entre os exemplos estão as críticas de Flávio ao Bolsa Família em publicações apagadas do X. Na campanha deste ano, o senador passou a defender o programa. Lula, por sua vez, criticou em 2015 a possibilidade de adolescentes serem presos. No segundo turno de 2026, passou a defender a redução da maioridade penal para crimes hediondos.
As mudanças também incluem o apoio de Flávio ao fim da escala 6x1 durante a campanha e a posição do governo Lula sobre a chamada "taxa das blusinhas", adotada em 2024 e alvo de uma iniciativa para revogá-la em 2026.
Em alguns casos, os próprios presidenciáveis reconheceram que mudaram de opinião. Em outros, as diferenças aparecem na comparação entre declarações antigas e recentes ou entre decisões adotadas em momentos diferentes.
Veja a seguir o que cada um disse e como suas posições mudaram:
Flávio Bolsonaro: Bolsa Família
O senador brasileiro e candidato à presidência Flávio Bolsonaro e Maria do Carmo, candidata ao governo do Amazonas pelo Partido Liberal (PL), participam de um comício antes do segundo turno das eleições presidenciais, em Manaus, Brasil, em 19 de outubro de 2026
O senador Flávio Bolsonaro criticava o Bolsa Família em publicações apagadas do X (antigo Twitter) feitas entre 2011 e 2013. Nos posts, associava o programa a práticas de clientelismo eleitoral, à dependência dos beneficiários e a estratégias de manutenção do apoio ao PT.
Em agosto de 2011, ao comentar um reajuste do Bolsa Família, escreveu: "Financiamento púb de campanha do pt!". Em junho de 2013, afirmou que "o PT perpetua a pobreza com o bolsa-farelo".
Em outra publicação, de 2014, ironizou os beneficiários do programa ao escrever:
"#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família".
Na campanha presidencial de 2026, Flávio passou a defender a manutenção do Bolsa Família e afirmou que, se eleito, manterá o benefício pago a famílias de baixa renda.
Flávio Bolsonaro diz que Bolsa Família é 'direito adquirido': 'Ninguém tem direito de tocar nesse programa'
Em discurso durante o Fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja em junho, em São Paulo, Flávio classificou o Bolsa Família como um direito adquirido e defendeu a manutenção do benefício.
"Esse programa virou um direito adquirido do povo brasileiro. Ninguém tem o direito de tocar ou de acabar com esse programa. Qualquer país do mundo tem um programa para pessoas de baixa renda que têm dificuldade alimentar", afirmou o senador, em 15 de junho de 2026, durante o Fórum Rumos do Brasil, promovido pela revista Veja, em São Paulo.
O assunto voltou ao centro da campanha depois que a equipe econômica de Flávio apresentou uma proposta para ampliar a regra de transição do programa, permitindo que beneficiários continuem recebendo parte do auxílio depois de conseguir emprego formal ou abrir um negócio.
Bolsa Família vai ter regra de transição de dois anos, diz coordenadora de campanha de Flávio Bolsonaro
Em vídeo publicado nas redes sociais na segunda-feira (19), Flávio negou que pretenda acabar ou reduzir o Bolsa Família e afirmou que o benefício está garantido.
"É óbvio que isso não vai acontecer. É óbvio que isso é mentira. Você que recebe o Bolsa Família fica tranquilo, o seu benefício está garantido, porque eu vou cuidar de você", afirmou.
O senador explicou que pretende permitir que beneficiários continuem recebendo o auxílio por até dois anos após conseguirem um emprego formal ou abrirem uma empresa.
Lula: Maioridade penal
O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) à reeleição, discursa durante um comício de campanha antes do segundo turno das eleições presidenciais, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 19 de outubro de 2026
O presidente Lula (PT) mudou uma posição histórica sobre a redução da maioridade penal, passando a defender a responsabilização criminal a partir dos 16 anos em casos de crimes hediondos.
Durante anos, o petista se manifestou contra propostas para reduzir a idade de responsabilização penal no Brasil, atualmente fixada em 18 anos.
Em fevereiro de 2007, depois do assassinato do menino João Hélio, no Rio de Janeiro, Lula se posicionou contra a medida e afirmou que diminuir a maioridade penal não resolveria o problema da violência.
"Isso não resolve o problema", declarou, durante evento em Salvador.
Oito anos depois, em maio de 2015, durante ato da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em São Paulo, voltou a criticar propostas de redução.
"Parte da elite conservadora acha que vai resolver o problema colocando moleque de 15 anos na cadeia", afirmou.
A posição mudou durante a campanha presidencial de 2026.
Em 15 de outubro, durante sabatina no Jornal Nacional, da TV Globo, Lula passou a defender a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos.
"Todo e qualquer crime hediondo, eu sou favorável a diminuir a maioridade", declarou.
Quatro dias depois, em 19 de outubro, Lula reconheceu que mudou de opinião durante entrevista ao SBT.
"Temos que ter a capacidade de mudar de opinião quando nós somos convencidos de que é importante", afirmou.
A defesa de Lula da redução da maioridade penal, no entanto, se limita aos casos de crimes hediondos, sem incluir os demais delitos cometidos por adolescentes.
Flávio Bolsonaro: Fim da escala 6x1
Flávio Bolsonaro mudou sua posição sobre o fim da escala de trabalho 6x1, na qual o trabalhador tem seis dias de expediente para um de descanso.
Durante a campanha presidencial, o senador defendeu uma proposta alternativa à redução da jornada sem diminuição de salário. O modelo defendido por ele previa maior flexibilidade nos contratos, inclusive com a possibilidade de pagamento por hora trabalhada.
Em entrevista ao Domingo Espetacular, da Record, em 30 de agosto de 2026, afirmou:
"A gente vai defender a liberdade de você, trabalhador, escolher qual é a sua escala de trabalho".
Na ocasião, evitou dizer se votaria favoravelmente ao projeto defendido pelo governo Lula.
Em setembro, voltou a defender a votação de sua proposta alternativa antes de uma decisão sobre o fim da escala 6x1.
A posição mudou na reta final da campanha. Em outubro, Flávio decidiu votar favoravelmente à proposta que acabava com a jornada de seis dias de trabalho para um de descanso.
Durante o debate presidencial da Band, realizado em 18 de outubro, o candidato reconheceu que havia mudado de opinião.
"Eu sou uma pessoa que sei ouvir, eu sei escutar, eu sou uma pessoa que se for convencida posso melhorar a minha opinião, se isso for melhor também para os cidadãos brasileiros", afirmou.
Flávio também disse que decidiu apoiar a proposta depois de ouvir trabalhadores durante a campanha.
"Eu rodei esse Brasil inteiro, eu ouvi você, trabalhador, eu ouvi de você que queria ter esse direito a mais um dia de folga, por isso eu votei a favor", declarou.
Lula: Taxa das blusinhas
O governo Lula mudou sua posição sobre a cobrança de impostos federais em compras internacionais de até US$ 50, conhecida como "taxa das blusinhas".
Em 2023, o governo defendia a tributação de produtos importados como forma de proteger o comércio e a indústria nacional da concorrência considerada desleal.
Em entrevista ao Brasil 247, em 21 de março daquele ano, Lula criticou o crescimento da importação de produtos que não pagavam impostos no Brasil.
"Assim não dá para viver", afirmou o presidente, ao argumentar que a ausência de tributação sobre mercadorias estrangeiras prejudicava a economia brasileira.
Em 2024, o governo sancionou a legislação que instituiu a cobrança federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.
O posicionamento mudou em 2026, quando Lula passou a defender o fim da cobrança. Em 14 de abril, durante entrevista aos sites Brasil 247, Revista Fórum e Diário do Centro do Mundo (DCM), o presidente afirmou que considerava a medida desnecessária.
"Eu achava desnecessária a taxa das blusinhas. São compras muito pequenas, as pessoas de baixo poder aquisitivo é que compravam aquilo. Sei do prejuízo que isso trouxe para nós", declarou.
Em 12 de maio, Lula editou uma medida provisória para zerar o imposto federal nessa faixa de valor.
Durante entrevista ao Domingo Espetacular, da Record, exibida em 23 de agosto, Lula voltou a defender o fim da cobrança e afirmou que a medida seria "para o bem das pessoas que gostam de comprar coisinha pouca por US$ 50".
Três dias depois, durante negociação com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), Lula voltou a justificar a revogação do imposto.
"Porque é uma questão de justiça", afirmou, em 26 de agosto.
Em 10 de setembro, o presidente sancionou a lei que extinguiu definitivamente a cobrança federal sobre compras internacionais de até US$ 50.
A mudança também ocorreu em meio ao desgaste político provocado pelo imposto. Pesquisa AtlasIntel divulgada em março de 2026 mostrou que 62% dos entrevistados consideravam a criação da taxa o maior erro do governo Lula.
O argumento de Lula para justificar o fim da cobrança passou a enfatizar os consumidores de menor renda, em contraste com a posição anteriormente defendida pelo governo, que associava a tributação à proteção da indústria nacional.
A mudança, entretanto, envolve tanto o discurso presidencial quanto uma decisão do governo. A declaração de Lula em 2023 tratava da tributação de importados em geral, enquanto a medida revogada em 2026 dizia respeito especificamente às compras internacionais de até US$ 50..

