Em entrevista à Wired , Fielder contou que não conversava com Holmes havia mais de seis meses e sequer sabia se ela ainda tinha condições de entrar em contato. A situação mudou quando percebeu duas chamadas perdidas de um número desconhecido. Na terceira tentativa, atendeu e descobriu que era a própria empresária.

“ Eu disse: ‘Oi, como vão as coisas?’. Ela perguntou como eu estava. Perguntei se tinha visto alguma coisa sobre o lançamento do filme e como se sentia em relação a tudo aquilo. Ela me contou que tinha visto algumas coisas, mas que não estava acompanhando a maior parte das notícias. Tinha ouvido comentários, mas não havia realmente lido nada “, recordou o cineasta.

O momento mais curioso da conversa, entretanto, aconteceu quando Holmes decidiu encerrar a ligação com uma declaração inesperada. “ No final, ela me disse: ‘Eu confio em você’. Eu respondi: ‘Certo, obrigado’ “, contou Fielder .

Os dois ainda conversaram sobre os filhos da empresária e outros assuntos pessoais, que o diretor preferiu não compartilhar publicamente. Antes de desligar, porém, Holmes voltou a repetir a mesma frase. “ Ela disse novamente, no final da ligação: ‘Eu confio em você’. E eu não sei o que ela quis dizer com isso “, admitiu.

A reaproximação acontece depois de um período conturbado na relação entre os envolvidos no documentário. Anteriormente, Fielder havia revelado que a comunicação com Holmes e seu companheiro, Billy Evans , havia sido interrompida após divergências durante a produção. Segundo o cineasta, Evans tentou exercer um controle cada vez maior sobre o projeto, dificultando o trabalho da equipe e provocando desconforto também na produtora A24.

“ Ele começou a tentar exercer um nível de controle sobre o processo que tornou muito difícil lidar com ele. Era desconfortável para nós e para a A24 “, explicou Fielder em uma entrevista anterior. A situação fez com que as conversas fossem interrompidas, deixando Holmes sem acesso ao filme completo antes de sua estreia.

Qual é a história real de Elizabeth Holmes?

Holmes fundou a Theranos em 2003, aos 19 anos, após abandonar seus estudos em Stanford. A ideia da empresária era criar uma máquina capaz de realizar dezenas de exames médicos utilizando apenas uma gota de sangue. A proposta atraiu inúmeros investidores de grande porte, e a empresa chegou a ser avaliada em mais de US$ 9 bilhões em seu auge.

Em 2015, entretanto, uma série de reportagens do The Wall Street Journal expôs que a tecnologia era uma farsa. Foi descoberto que o dispositivo idealizado por Holmes nunca funcionou de verdade: a Theranos usava máquinas comerciais tradicionais adulteradas para processar os testes, terceirizava parte dos exames para outras empresas e, em alguns casos, simplesmente dava resultados errados.

A empresa faliu em 2018 e Holmes foi condenada em 2022 a mais de 11 anos de prisão por fraude, iniciando o cumprimento da pena em 2023. S eu ex-namorado e ex-COO da Theranos, Ramesh “Sunny” Balwani , também foi condenado. Juntos, os dois precisariam pagar US$ 452 milhões (em torno de R$ 2,3 bilhões, na cotação atual do dólar) às vítimas da fraude.

Do que se trata You Can See Everything ?

Trinta e quatro dias antes de ser presa, em 2023, Holmes convidou uma equipe cinematográfica para dentro de sua casa “para documentar cada um de seus passos”, sob o pretexto de mostrar que nunca mentiu. “O que começa como um retrato íntimo de uma condenada enigmática transforma-se em uma jornada alucinante de três anos rumo ao abismo”, afirma a sinopse de You Can See Everything .

Filmado por David Bolen — diretor de fotografia de Thelma (2024) que também trabalhou em Primetime —, o filme tem 174 minutos de duração e foge do modelo tradicional de documentários sobre crimes reais. Ao invés de acompanhar a fraude cometida por Holmes ao longo dos anos, ele foca no comportamento da personagem, colocando em xeque o que é verdade e o que é mentira sobre o caso. Além disso, o cineasta Fielder interage com Holmes na frente das câmeras em diversos momentos.

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