O apoio formal à recondução de Motta é um dos temas da reunião da bancada desta 4ª feira (21.out.2026). Sobre o Senado, afirmou que espera que os senadores do partido apoiem a reeleição de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), embora avalie que o atual presidente enfrenta dificuldades diante da disputa com Rogério Marinho (PL-RN) e Tereza Cristina (PP-MS).

Donizette também comentou o futuro político de João Campos , presidente nacional do PSB, depois da derrota na disputa pelo governo de Pernambuco. Para o deputado, Campos poderá ocupar um cargo em um eventual novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como um ministério. Ele atribuiu o resultado eleitoral à vantagem da governadora Raquel Lyra (PSD), que disputou a reeleição no exercício do mandato.

LEIA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA:

Poder360: O partido vai apoiar a reeleição de Hugo Motta para a presidência da Câmara? E como o senhor avalia a disputa no Senado?

Jonas Donizette — Vamos decidir hoje. Da minha parte, existe uma simpatia grande para o partido apoiar Motta. Hoje vejo Hugo Motta como favorito à reeleição. A situação na Câmara está mais encaminhada, e não vejo um adversário consolidado.

No Senado, Davi Alcolumbre terá mais dificuldades. Rogério Marinho, do PL, e Tereza Cristina, da federação União Progressista, são nomes colocados na disputa. Alcolumbre não é uma carta fora do baralho, já presidiu a Casa, mas a situação é mais complicada, principalmente depois dos movimentos pró-Lula, como pautar o fim da escala 6 X 1.

Alcolumbre é muito experiente para fazer um cálculo sem considerar os riscos. Pode estar contando com os votos do PT e de outros grupos. Mas o que eu vejo é a situação da Câmara mais uníssona do que no Senado.

Qual é o balanço do 1º turno e quais são as expectativas para a disputa presidencial?

Foi uma eleição atípica por várias razões, principalmente pela atuação dos influenciadores. Eles tiveram efeitos diferentes em cada região e em cada Estado. Já existe uma movimentação política para discutir um novo modelo eleitoral e uma possível reforma política, mas ainda está na fase de conversas.

Minha avaliação é que houve fortalecimento da direita e perda de espaço do centro. Muitos partidos esperavam eleger bancadas maiores, mas mantiveram seus números ou até diminuíram. Ainda assim, o centro continua tendo força.

Para o PSB, fomos de 14 para 15 deputados, superamos a cláusula de barreira e ampliamos a participação feminina: um terço da nossa bancada é formado por mulheres.

Em que estágio estão as negociações para uma federação entre PSB e PDT?

O partido que está mais próximo é o PDT. Quem está se dedicando mais ao processo é o presidente do PSB, João Campos.

A federação nos interessaria muito porque ampliaria a bancada e fortaleceria o partido nacionalmente. Passaríamos de 15 para 21 deputados. O PDT tem força em Estados como o Rio Grande do Sul e em outras regiões, o que daria mais capilaridade à união.

Os 2 partidos já estiveram perto de se juntar no passado, mas a negociação não avançou por detalhes. Agora, a conversa pode ser mais simples porque o PDT não atingiu a cláusula de barreira.

Como o senhor avalia a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro no 2º turno?

É uma eleição indefinida. Os números mostram que a diferença está diminuindo. Ainda pode existir um voto emocional no Lula, mas também há uma demanda por mudança. É como estar em um relacionamento em que você já conhece os problemas e decidir entrar em outro, no qual certamente haverá dificuldades que ainda não conhece.

Existiu uma acomodação muito grande na campanha do presidente Lula, que achou que iria vencer no 1º turno. Mas a parte boa é que teve uma reação. Se ele tivesse passado na frente no 1º turno, essa reação não seria tão forte. Talvez isso tenha sido o ponto positivo.

A única questão que é certa é que será por uma margem muito pequena de votos.

João Campos foi derrotado no 1º turno. Quais fatores explicam o resultado e quais são as perspectivas políticas dele?

Existem diversos fatores. Ele concorreu contra a máquina, o que é sempre muito difícil. João renunciou à prefeitura em abril e ficou sem uma função política, enquanto a adversária continuou no cargo. Quem está no cargo consegue fazer campanha sem fazer campanha, inaugurando obras e entregando realizações. Ela abriu vantagem nesse período, mas depois João equilibrou o jogo.

Perder uma eleição é perfeitamente normal na vida pública, ainda mais na idade dele. Essa avaliação foi unânime no partido. A própria trajetória do pai e do avô mostra que derrotas eleitorais não impedem uma carreira política.

João é uma pessoa articulada e tem um horizonte aberto pela frente. Se Lula vencer, vejo a possibilidade de ele ser aproveitado no governo. Se isso não acontecer, continuará na presidência de um partido importante e poderá permanecer ativo na vida pública.

João Campos pode assumir um ministério em um eventual novo governo Lula?

Acho que existe uma grande chance. Mas não é o momento de discutir isso.

Quando você anuncia uma indicação antecipadamente, qualquer declaração da pessoa pode comprometer a campanha. Foi o que aconteceu com a discussão sobre a gratuidade do SUS envolvendo o nome indicado por Flávio para o Ministério da Saúde.

Lula já está no governo e não precisa antecipar essas escolhas. Mas, se vencer, acredito que vai querer compor a equipe com pessoas de uma nova geração.

Como o PSB atuaria no Congresso em um eventual governo Flávio Bolsonaro?

Vamos discutir isso com a bancada eleita. Da minha parte, defendo que mantenhamos nossos princípios e analisemos cada matéria.

Em um 1º momento, possivelmente o partido ficará no campo da oposição, mas não será uma oposição ferrenha. Se houver uma proposta boa, vamos votar a favor. Não faz sentido ser contra tudo apenas porque se está na oposição.

A decisão de não votar a PEC da Segurança Pública foi favorável ao governo Lula? Como o senhor avalia o impasse sobre a maioridade penal?

Acho que a emenda apresentada pelo senador Camilo Santana (PT-CE), para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, foi favorável ao governo.

O Brasil sempre teve uma filosofia de proteção à criança e ao adolescente. A proposta de reduzir esse limite para 16 anos em crimes hediondos dialoga mais com a sociedade.

A proposta do PL, que estabelece a redução para 14 anos, pode abrir espaço para uma discussão ainda mais ampla. É preciso dar às pessoas a oportunidade de recuperação.

Quem tem um filho adolescente em casa, com pai, mãe e uma estrutura familiar, sabe como essa fase já é difícil. Imagine um adolescente que cresce em um lar desestruturado.

Defendo a redução para 16 anos em crimes hediondos, especialmente os crimes contra a vida. Um dos argumentos é que, aos 16 anos, o jovem já pode votar.

A campanha de Lula demorou a perceber que o eleitorado brasileiro é conservador?

Há coisas que são inexoráveis. O PT é um partido difícil de administrar, com várias correntes. Muitas vezes, os ataques se dirigem mais ao partido do que ao próprio Lula. Acho que, dentro do que poderia ser feito, ele fez o que era possível.

Também não adianta dar um cavalo de pau e mudar toda a personalidade para tentar agradar alguém. Acho que Flávio tem feito isso. Em algum momento, ele terá de decepcionar alguém: ou quem espera um governo mais austero ou quem acredita nas vantagens que ele prometeu.

Quais serão as prioridades do PSB no Congresso no próximo ano?

Uma das prioridades é o projeto que criminaliza a misoginia, relatado pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP). O relatório dela já está pronto, e Hugo Motta indicou a possibilidade de colocar a proposta em votação depois da eleição. Acho que ainda pode ser votada neste ano. Outras prioridades dependem do resultado da eleição.

Como o senhor avalia o avanço da direita na composição do Congresso?

É um resultado que ainda precisa ser estudado. Os evangélicos, que apoiaram muito Flávio Bolsonaro, perderam representantes no Congresso. Não vejo o resultado apenas como uma vitória do bolsonarismo, mas também de uma nova geração que aderiu à internet.

Muitos influenciadores, tanto de direita quanto de esquerda, tiveram votações expressivas. Precisamos entender o papel das redes sociais no processo eleitoral. Não podemos negar que existe uma nova realidade, mas também não podemos deixar a política refém das redes, porque elas não resolvem os problemas concretos das pessoas.

Em São Paulo, por exemplo, candidatos com grande alcance nas redes tiveram votações expressivas. Mas, quando uma cidade precisar de recursos ou de uma solução para um problema, será necessário ter capacidade política para atender à demanda.

O eleitor terá de decidir se continuará votando em quem briga e busca repercussão nas redes ou se vai procurar algum equilíbrio nessa situação.

O senhor considera disputar uma vaga no Senado na próxima eleição?

Quem está na vida pública sempre tem essa aspiração. Eu fui vereador, deputado estadual, deputado federal e prefeito. É natural pensar em dar um passo adiante.

Quando saí da Prefeitura de Campinas, considerei essa possibilidade, mas decidi disputar uma vaga na Câmara. Nesta eleição, também analisei as circunstâncias.

A ambição de avançar na carreira política é legítima, mas é preciso fazer uma avaliação fria das condições e das chances de cada candidatura.