Uma comerciante que passava pela Avenida Eduardo Andrea Matarazzo (Via Norte), em Ribeirão Preto (SP), vivenciou momentos de pânico durante uma abordagem da Polícia Militar com tiros que resultou na morte de dois suspeitos de integrar uma facção criminosa na tarde desta quarta-feira (21).
Marina Bononi relata que havia acabado de sair de um supermercado atacadista nas proximidades quando foi surpreendida pelo fluxo de veículos e pedestres fugindo.
“A hora que a gente entrou no retorno, nós fomos o quarto carro a parar no retorno. O retorno já estava bem cheio e a gente achou que era por conta do semáforo, né, por ser um retorno semaforizado”, afirmou a testemunha.
Segundo ela, a percepção de que havia algo estranho acontecendo ocorreu quando a fila de veículos aumentou e os motoristas passaram a fazer manobras para tentar ir embora do local.
“Quando a gente viu que a fila estava bem grande na Via Norte, o pessoal começou a voltar na contramão e no desespero mesmo. A gente até achou que seria algum assalto, alguma coisa, porque o pessoal voltou no desespero. Assim, arrepia só de lembrar da cena. Aí o pessoal começou a vir correndo, e carro na contramão, moto na contramão”, completou a motorista.
Trecho da Via Norte, interditado após operação com mortes de suspeitos em Ribeirão Preto (SP).
O pânico se generalizou no trecho próximo ao cruzamento com a Avenida Thomaz Alberto Whatelly. A motorista descreveu a dificuldade para deixar a área enquanto ocupantes de outros veículos alertavam sobre os disparos.
“A nossa sorte é que nosso carro era o último ali do retorno, então a gente conseguiu começar a dar ré, mas estava quase impossível, porque o pessoal começou a vir na contramão, carro na contramão, moto e gritando 'tiroteio, tiroteio, volta'. Assim, foi desesperador. A sorte é que a gente conseguiu sair dali, mas estava até difícil fazer o retorno”, relatou.
A ocorrência mobilizou equipes da Polícia Militar, que relataram ter reagido a uma abordagem a um veículo suspeito. De outro lado, familiares de um dos mortos cobram apuração.
A circulação de avisos de toque de recolher gerou apreensão em bairros da Zona Norte, levando órgãos de segurança, trânsito e educação a emitirem posicionamentos oficiais.
Operação com mortes na Via Norte
Os tiros foram dados na pista da Via Norte em direção aos bairros da Zona Norte de Ribeirão Preto. De acordo com a nota oficial da Polícia Militar, agentes do 11º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP) realizavam patrulhamento quando receberam a informação de que um carro transportava armas de fogo.
A corporação alega que, ao tentar realizar a abordagem ao automóvel, os ocupantes sacaram armas de fogo, o que motivou a reação dos policiais de forma proporcional.
No interior do veículo, a PM informou que apreendeu quatro armas de fogo, sendo duas pistolas e duas submetralhadoras.
A área foi isolada para o trabalho da Polícia Científica. A perícia criminal recolheu ao menos 19 cápsulas deflagradas espalhadas pelo asfalto.
Indicações das cápsulas de arma de fogo usadas em operação que resultou na morte de suspeitos de integrar facção em Ribeirão Preto (SP).
Por conta dos trabalhos periciais e do bloqueio viário, o trânsito no sentido bairro foi interditado, enquanto o sentido Centro apresentou lentidão devido à presença de pedestres e motoristas acompanhando a movimentação policial.
Os baleados foram identificados como Vinicius de Jesus, de 32 anos, e Alexsandro Calisto Gomes, de 40 anos. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou a ser acionado.
Uma advogada que esteve no local em defesa das famílias dos suspeitos informou que vai acompanhar o caso, mas que ainda não tnha tido acesso às informações oficiais.
Irmã de Vinicius, a auxiliar de limpeza Vitoria Cristina de Jesus contestou as circunstâncias da abordagem. Ela afirmou que soube do ocorrido pela televisão e por uma ligação do outro irmão.
“Foi uma troca de tiro, assim eles disseram, mas a gente quer que a justiça seja feita, a gente quer câmera, a gente quer as provas, a gente quer tudo, porque ele não é indigente, ele tem família”, disse Vitoria Cristina.
Vinicius de Jesus, de 32 anos, e Alexsandro Calisto Gomes, de 40 anos, mortos a tiros durante abordagem da PM por suspeita de estar com armas no carro em Ribeirão Preto (SP).
A irmã disse que o irmão morava ao lado de sua casa no bairro Adelino Simioni, era casado, criava duas enteadas e estava retornando para casa.
Ela explicou que o veículo utilizado por ele era alugado há cerca de duas semanas, pois o carro próprio estava no conserto. Vitoria confirmou que Vinicius tinha passagens anteriores pela polícia, mas que ele já havia cumprido penas e não tinha pendências com a Justiça.
“Ele tem passagem sim, mas já foi paga, não deve mais nada, nada”, declarou a irmã, criticando também a falta de informações repassadas aos familiares no local do isolamento.
Suspeitos de integrar facção são mortos a tiros pela PM em Ribeirão Preto; moradores relatam toque de recolher
Ameaças de 'toque de recolher'
Após a confirmação das mortes, moradores e comerciantes dos bairros Adelino Simioni e Quintino Facci, na Zona Norte, relataram que receberam mensagens com ameaças e avisos de toque de recolher atribuídos a represálias pelas mortes.
Diante dos alertas nas redes sociais, estabelecimentos comerciais e supermercados da região encerraram o atendimento mais cedo.
Viaturas da PM na Via Norte, onde suspeitos foram mortos durante abordagem policial em Ribeirão Preto (SP).
Por precaução, algumas unidades escolares da região chegaram a orientar famílias a buscarem os alunos mais cedo, segundo apuração da reportagem.
A Secretaria Municipal de Educação, por sua vez, informou que nenhuma unidade escolar teve as atividades suspensas. A pasta solicitou apoio à Guarda Civil Metropolitana (GCM) para reforçar o patrulhamento e o acompanhamento no horário de saída dos estudantes.
A Secretaria de Estado da Educação (Seduc-SP) informou que não partiu da Diretoria de Ensino nenhuma orientação para encerramento antecipado das aulas. A pasta destacou que os pais ou responsáveis que optassem por retirar os filhos das escolas tinham a liberação garantida.
O Consórcio PróUrbano e a Empresa de Trânsito e Transporte Urbano de Ribeirão Preto (RP Mobi) informaram que não houve redução na frota de ônibus urbanos operante e que eventuais desvios de itinerários seriam adotados pontualmente, conforme a necessidade do trânsito na área.
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