Afinal, Mariano carrega um passado comprometedor, que coloca em discussão os limites entre sobrevivência, colaboração e culpa. É nessa ambiguidade, sem respostas fáceis ou julgamentos imediatos, que o longa encontra seus momentos mais interessantes. Bechis demonstra segurança na direção, especialmente ao estabelecer uma atmosfera sombria e melancólica, na qual o peso do passado parece impregnar cada ambiente e interação.
Há uma sensação constante de desconforto, alimentada tanto pelos reencontros entre sobreviventes quanto pela dificuldade de Mariano em lidar com aquilo que fez para continuar vivo. O cineasta compreende que as marcas da violência não desaparecem com o passar dos anos e que, mesmo diante da possibilidade de justiça, certas feridas permanecem abertas.
Para revelar as contradições de seu protagonista, Bechis recorre a flashbacks que, aos poucos, desvendam os acontecimentos que Mariano preferiria deixar enterrados. São momentos importantes para compreender a dimensão de seus traumas e, sobretudo, as decisões moralmente questionáveis que precisou tomar para sobreviver.
Entretanto, embora contribuam para aprofundar a complexidade do personagem, essas incursões ao passado nem sempre encontram o equilíbrio necessário. Algumas sequências, especialmente aquelas envolvendo sexo e tortura, soam excessivamente expositivas ou mesmo gratuitas, como se o cineasta precisasse recorrer ao choque para transmitir um horror que já se manifesta de maneira suficientemente perturbadora no imaginário coletivo.
Ainda assim, Retorno a Buenos Aires cumpre sua proposta ao abordar um período histórico brutal sem transformar seus sobreviventes em figuras idealizadas. Mais do que revisitar os horrores da ditadura, o longa encontra relevância ao questionar o que significa sobreviver a eles — e até que ponto alguém pode ser responsabilizado pelas decisões tomadas quando continuar vivo era a única prioridade.
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