Trocar a letra "F" pelo "V" na escrita ou ter dificuldade para ler são alguns dos comportamentos que acendem o alerta entre pais e educadores. Quando persistentes mesmo diante de um ensino adequado, esses sinais indicam a presença da dislexia, um transtorno do neurodesenvolvimento que atinge a capacidade de processamento da linguagem escrita.
Apesar de não ter relação com o nível de inteligência ou falta de estímulo, a condição exige um olhar atento e acompanhamento especializado para evitar prejuízos pedagógicos e emocionais.
]Em entrevista ao g1, a fonoaudióloga Marília Seno, profissional de Marília (SP), explicou que identificar os sinais logo nos primeiros anos escolares é fundamental para garantir o suporte adequado e o desenvolvimento pleno da criança.
Fonoaudióloga de Marília (SP) explica os sinais da dislexia em crianças e quando buscar ajuda
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A fonoaudióloga detalha que os sinais podem aparecer antes mesmo do início formal da alfabetização. Na educação infantil, por exemplo, a criança pode apresentar dificuldades para aprender rimas e identificar palavras que começam com o mesmo som.
Já durante a alfabetização, o transtorno torna mais evidente a dificuldade para associar letras aos seus respectivos sons, ler sílabas e palavras, realizar uma leitura fluente e escrever corretamente. Porém, a especialista destaca que a troca de letras isoladamente não significa ter dislexia.
“Um ponto importante é que trocar letras isoladamente não significa ter dislexia. O que chama a atenção é a persistência e o conjunto das dificuldades, independentemente de um ensino de qualidade, apresentando desempenho abaixo do esperado”, explica Marília.
Marília Seno, Fonoaudióloga de Marília (SP) explica os sinais da dislexia em crianças e a importância do diagnóstico precoce
No caso de crianças mais velhas e adolescentes, a leitura pode ser estabelecida, mas permanecer lenta e pouco automática. Também podem persistir dificuldades ortográficas, além de barreiras para compreender e produzir textos mais extensos.
A fonoaudióloga ressalta que o diagnóstico deve ser realizado por uma equipe multidisciplinar com profissionais de diversas áreas, como neuropsicólogo, psicopedagogo e neuropediatra, além do acompanhamento com fonoaudiólogo.
A Dislexia é um transtorno do neurodesenvolvimento que atinge a capacidade de processamento da linguagem escrita.
Marília explica que são investigadas habilidades que vão além da leitura e da escrita, como a consciência fonológica, e que o histórico familiar também é peça importante na avaliação.
“São investigadas não apenas a leitura e a escrita, mas também habilidades que dão suporte à aprendizagem, como consciência fonológica, memória, atenção, linguagem oral, processamento auditivo e visual, entre outras. O atraso na aquisição da fala, trocas persistentes na fala durante a infância e histórico familiar de dificuldades semelhantes podem ser importantes sinais de risco para dislexia”, esclarece a fonoaudióloga.
Dificuldade na escola
Meyme Vasconcelos é mãe da Helena Vasconcelos, de 14 anos, que é paciente da fonoaudióloga. Ela relata que o diagnóstico da filha veio entre os 9 e 10 anos, no fim da fase de alfabetização. A família percebeu que a garota tinha um bom reconhecimento de vocabulário, mas enfrentava barreiras gramaticais.
“Existia uma grande dificuldade na troca do F pelo V, do G pelo J, entre outras, mesmo com fluência de leitura e conhecimento de vocabulário. A Helena relatava um sofrimento para acompanhar a turma e, mesmo se esforçando, chegou a não querer ir para a escola”, conta Meyme.
Helena Vasconcelos, de 14 anos, é paciente da fonoaudióloga Marília Seno e relata os avanços com o acompanhamento
Para o diagnóstico precoce, a escola exerce um papel fundamental ao notar o desvio de aprendizagem em relação à média esperada para a faixa etária. Meyme lembra que a instituição de ensino ofereceu o suporte inicial e as orientações para o início da investigação.
Marília reforça que a identificação antecipada colabora diretamente para a evolução e aprendizagem do paciente.
“Quanto mais cedo os sinais forem identificados e a intervenção adequada for iniciada, menores tendem a ser os impactos das dificuldades sobre a aprendizagem, o desempenho escolar e a autoestima da criança”, destaca a profissional.
Sobre a intervenção, a fonoaudióloga reforça que a dislexia não é uma doença e, portanto, não se fala em cura. O tratamento é direcionado às dificuldades específicas identificadas na avaliação de cada paciente.
O objetivo do acompanhamento é desenvolver as habilidades prejudicadas e oferecer estratégias para que o aluno aprenda com maior eficiência. As sessões devem ser individualizadas e voltadas à consciência fonológica, relação entre letras e sons, decodificação, fluência, compreensão de leitura, ortografia e produção escrita.
A fonoaudióloga aponta ainda que, além das barreiras pedagógicas, a dislexia pode interferir na autoestima e provocar comportamentos de fuga e recusa à leitura. Diante disso, a escola deve adotar estratégias e adaptações que garantam ao aluno o acesso ao conteúdo e condições adequadas para demonstrar o que aprendeu.
Atendida desde o diagnóstico pela fonoaudióloga, a estudante Helena conta que hoje não enfrenta tantas dificuldades e ressalta a importância do apoio escolar.
“A única diferença que vejo dentro da escola é que faço a prova em uma sala separada e tenho um leitor para mim. Minha prova é adaptada no sentido de ter mais questões de alternativa, o que facilita o entendimento do assunto e evita erros gramaticais”, conclui a adolescente.
Helena Vasconcelos, de 14 anos, é paciente da fonoaudióloga Marília Seno e relata os avanços com o acompanhamento
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