Associado ao New Queer Cinema dos anos 1990, movimento independente que abriu espaço para narrativas LGBTQIA+ e fora das convenções de Hollywood, Araki já explorou as nuances da sexualidade em filmes como Mistérios da Carne (2004) e Geração Maldita (1995). Agora, o cineasta retorna às telonas após 12 anos de hiato com uma completa provocação ao espectador.

Estrelado por Olivia Wilde ( O Convite ) e Cooper Hoffman ( Licorice Pizza ), o thriller erótico chega aos cinemas brasileiros em 22 de outubro, com distribuição da O2 Play . Com um olhar bem-humorado, Araki troca a melancolia de trabalhos anteriores por uma comédia satírica, sem qualquer interesse de se levar a sério.

I Want Your Sex acompanha de perto a relação de Elliot ( Hoffman ), um jovem ingênuo, com sua chefe, a renomada artista Erika Tracy ( Wilde ). Mas o que começa como a realização de todas as fantasias do garoto rapidamente se transforma em algo muito mais imprevisível.

A narrativa apresenta saltos temporais: no presente, Elliot precisa responder a perguntas da polícia após um crime não desvendado; no passado, os acontecimentos que levaram àquela situação são reconstruídos. Esse recurso acrescenta um suspense à trama, embora a resolução do mistério não seja tão criativa quanto outros momentos do longa.

Em entrevista ao The Guardian , Araki revelou que desejava criar um filme completamente desinibido na abordagem da intimidade. O roteiro de I Want Your Sex , escrito por ele em parceria com Karley Sciortino , foi influenciado por um estudo de 2022 que apontou para o fenômeno da “recessão sexual” entre os jovens da Geração Z — a redução da frequência com que jovens tem relações sexuais, em comparação com gerações anteriores.

“É como se tivessem medo de errar, de se sentirem desconfortáveis ou de passar por uma experiência que não seja maravilhosa. Muitas dessas experiências não são maravilhosas!”, refletiu Araki .

I Want Your Sex apresenta uma protagonista que desafia as expectativas e assume total controle de seus desejos, e a inversão dos papéis (com uma mulher dominante e um homem submisso) a torna ainda mais interessante.

O desafio às convenções sociais, característico de trabalhos anteriores de Araki , segue fortemente presente no novo longa, de maneira mais brincalhona e exagerada. O filme não moraliza e nem mesmo romantiza o sexo, mas o trata como parte central da experiência humana — com suas contradições, frustrações e, também, um quê de ridículo.

“Acho que é literalmente o punk rock dentro de mim”, ele afirmou em entrevista ao Los Angeles Times ao relembrar a importância do New Queer Cinema . “Não consigo nem descrever o quanto aquele movimento foi importante para mim como jovem artista, alguém que ainda estava se desenvolvendo e, literalmente, se assumindo em relação à própria sexualidade.”

Nos últimos anos, discursos de que cenas de sexo não acrescentam nada aos filmes e são narrativamente desnecessárias ganharam espaço na cultura pop. Araki transforma I Want Your Sex em um contraponto refrescante à tendência de evitar a exposição dos corpos nas telas. Ele mergulha fundo nos fetiches ousados dos personagens, satirizando tanto a relação entre eles quanto os choques geracionais.

Além de Wilde e Hoffman , o elenco de I Want Your Sex reúne Mason Gooding , Chase Sui Wonders , Johnny Knoxville , Margaret Cho , Roxane Mesquida , Daveed Diggs e a cantora Charli XCX . Os destaques vão para Wonders ( Morte Morte Morte ), que interpreta Apple , amiga que divide a casa com Elliot e cujo relacionamento também revela tensões; e Gooding ( Pânico ) no papel de Zap , colega de trabalho do protagonista.

Mas é Olivia Wilde , é claro, quem rouba a cena. Após estrelar e dirig ir O Convite , a atriz volta a explorar as complexidades do sexo com uma autoconfiança que combina perfeitamente com o universo de Araki . Sua Erika Tracy é provocadora, teatral e bastante desagradável, abraçando a caricatura com maestria.

Em entrevista à Reuters , Wilde celebrou a oportunidade de dar vida à personagem: “Adorei poder ser porta-voz de Gregg e Karley , porque essa personagem tem muito deles. Ela é realmente uma expressão dos dois, e eu pude dar vida a isso”.

Não há absolutamente nada de Hollywood em Gregg.

O camp no cinema

Um dos grandes triunfos do filme está na maneira como a linguagem visual acompanha a proposta da narrativa. Com direção de arte de Mike Conte e design de produção de Angelique Clark , I Want Your Sex mescla elementos de ilustração e cores vibrantes, quase se assemelhando, em alguns momentos, a uma esquete de comédia.

O filme abraça o cinema camp , estilo estético e artístico marcado pela teatralidade e pela artificialidade. A trama, por sua vez, é cheia de humor ácido, situações imprevisíveis e reviravoltas dramáticas que beiram o absurdo.

Apesar de brincar sobre a maneira como os jovens vivem (ou deixam de viver) experiências de intimidade, I Want Your Sex ri ainda mais de si mesmo. Com plena consciência dos próprios excessos, Araki prova que a “superficialidade” — frequentemente associada à forma como o sexo é retratado nas telas — está longe de ser um defeito.

Apesar do suspense bastante clichê, o prazer do cinema também está, às vezes, em assistir algo que não tem medo de soar ridículo. E, em tempos em que o desejo parece precisar de justificativa, talvez o que mais precisemos seja de um pouco de superficialidade para aprender a não reprimi-lo.

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