Mas, em setembro de 2026, a rotina começou a mudar. Biscotte passou a se afastar da região onde vivia, e a coleira com GPS ficou vários dias sem transmitir sua localização. Quando o sinal voltou, revelou uma surpresa: a javali estava a mais de 30 quilômetros de seu território habitual, em outra região da França.

O deslocamento aconteceu em menos de três semanas e chamou a atenção da Federação de Caçadores de Aveyron, que acompanha o animal desde junho. Além de tentar entender o motivo da viagem, os responsáveis pelo projeto passaram a lidar com outra dúvida: os três filhotes que costumavam acompanhar Biscotte também fizeram o percurso?

Biscotte tinha uma rotina tão previsível que o GPS registrava até seus horários de descanso

A história começou em junho, quando a Federação de Caçadores de Aveyron conseguiu capturar Biscotte na região de Saint-Hippolyte, na França. A fêmea pesava aproximadamente 35 quilos e recebeu uma coleira com GPS para que seus deslocamentos fossem acompanhados.

A captura fazia parte de um trabalho para compreender como os javalis utilizam o território, onde procuram alimento, quais locais escolhem para descansar e até que distância costumam se deslocar.

Durante o verão europeu, Biscotte permaneceu principalmente em uma área de cerca de 100 hectares, formada por trechos de floresta, encostas e pequenos cursos de água. Ela demonstrava preferência por determinados locais de descanso e repetia trajetos com frequência.

Os registros mostravam que a javali costumava deixar seu abrigo a partir das 21h30. Pela manhã, geralmente retornava entre 6h e 6h30, embora em algumas ocasiões permanecesse ativa até as 7h.

Um dos detalhes mais curiosos apareceu quando Biscotte realizou uma incursão para o norte de sua região e depois voltou. O equipamento mostrou que ela utilizou praticamente o mesmo caminho na ida e na volta, atravessando cercas exatamente nos mesmos pontos.

Na atualização publicada em 24 de setembro, a federação ainda registrava a presença dos três filhotes ao lado da mãe. Pouco depois, porém, o acompanhamento revelaria um deslocamento de proporções bem diferentes.

O sinal do GPS desapareceu por mais de cinco dias e Biscotte surgiu em outra região

O monitoramento divulgado em outubro mostrou que Biscotte havia deixado seu território habitual e seguido em direção ao departamento de Cantal, uma divisão administrativa francesa vizinha de Aveyron.

A viagem, entretanto, não pôde ser reconstruída completamente. Durante parte do deslocamento, o equipamento deixou de enviar informações, criando lacunas nos registros e dificultando a identificação dos caminhos percorridos.

Os dados disponíveis indicam que Biscotte passou por áreas próximas a Ladinhac e Lafeuillade-en-Vézie, seguindo em direção ao vale do rio Goul. Em uma das etapas, teria permanecido alguns dias nas proximidades de Trémouline.

Depois de mais de cinco dias sem transmissão, o sinal voltou a indicar sua localização. Biscotte estava em Sansac-de-Marmiesse, nas proximidades de Aurillac, a mais de 30 quilômetros de sua região de origem.

A distância foi calculada em linha reta, o que significa que o trajeto realmente percorrido pode ter sido muito maior. Como a javali atravessou áreas de vegetação e terrenos irregulares, e houve interrupções no monitoramento, não é possível determinar a distância total.

A descoberta contrariou a rotina observada nos meses anteriores e levantou novas perguntas sobre os fatores que poderiam ter provocado uma mudança tão expressiva de comportamento.

E os três filhotes que acompanhavam Biscotte?

Uma das maiores incógnitas envolve os três filhotes que apareciam nos registros anteriores da federação.

Durante os primeiros meses de acompanhamento, Biscotte não circulava sozinha. Seus filhotes estavam presentes nas observações feitas pelos responsáveis pelo monitoramento, inclusive nos deslocamentos registrados em setembro.

Entretanto, não existe confirmação de que os três tenham acompanhado a mãe durante toda a viagem até Cantal .

A coleira permite acompanhar os movimentos de Biscotte, mas não determina automaticamente a localização dos animais que estão ao seu redor. Por isso, a identificação de seus filhotes depende de outras observações.

Também não há informação confirmada de que eles tenham sido abandonados, se separado da mãe ou sofrido algum acidente durante o percurso.

O que se sabe é que os filhotes não foram abatidos em uma caçada realizada perto da área de descanso da javali em 20 de setembro. A partir dos deslocamentos posteriores, porém, sua presença ao lado de Biscotte continua sem confirmação.

Uma caçada pode ter provocado a viagem inesperada?

A mudança de comportamento levou os responsáveis pelo monitoramento a considerar diferentes explicações.

Uma das hipóteses envolve a atividade de caça. Em 20 de setembro, caçadores de Saint-Hippolyte realizaram uma caçada coletiva nas proximidades de uma das áreas utilizadas por Biscotte para descansar.

A operação aconteceu pouco antes do período em que os registros passaram a indicar um deslocamento mais amplo. Entretanto, os participantes avaliaram que os cães empregados na caçada não chegaram a incomodar diretamente a fêmea.

Outra possibilidade é que Biscotte tenha encontrado novas caçadas durante sua passagem por Cantal, o que poderia ter contribuído para que continuasse se afastando.

Nenhuma dessas hipóteses, contudo, foi confirmada. As interrupções do GPS também impedem saber exatamente o que aconteceu em determinados momentos da viagem.

A situação chama a atenção porque a fêmea passou meses demonstrando preferência por uma área relativamente pequena, antes de aparecer em uma região muito mais distante.

O GPS também revelou que Biscotte atravessou estradas quase 40 vezes em uma semana

Antes mesmo da viagem, Biscotte já havia fornecido informações surpreendentes sobre o comportamento dos javalis.

Em um dos períodos de acompanhamento, a Federação de Caçadores de Aveyron identificou aproximadamente 40 travessias de estradas em apenas uma semana .

Embora as vias utilizadas pelo animal apresentassem pouco movimento de veículos, a frequência dos cruzamentos chamou a atenção para o risco de atropelamentos em regiões onde animais silvestres compartilham espaços com a circulação de automóveis.

O monitoramento também revelou a importância de áreas de mata fechada e cursos de água na rotina de Biscotte, especialmente durante os períodos mais quentes do verão europeu.

Esses registros ajudam a compreender como os javalis se movimentam, utilizam abrigos e podem mudar seus trajetos diante de diferentes condições do ambiente.

A viagem de Biscotte ainda tem perguntas sem resposta

O caso mostra como o comportamento de um animal pode mudar mesmo depois de meses de observações relativamente estáveis.

Biscotte, que antes concentrava seus movimentos em uma pequena área, passou a explorar um território muito mais amplo. Sua viagem deixou registros importantes, mas também evidenciou os limites do monitoramento por GPS.

Ainda não se sabe o que provocou o deslocamento, se os filhotes acompanharam toda a jornada ou qual será o próximo destino da fêmea.

Durante meses, os responsáveis pelo acompanhamento sabiam quais caminhos Biscotte costumava percorrer e até aproximadamente que horas retornava para descansar. Agora, a coleira permitiu encontrá-la novamente no mapa, mas as respostas sobre sua viagem e a presença dos três filhotes continuam fora do alcance do GPS.

*Imagem ilustrativa criada pelo Tribuna de Jundiaí com auxílio de inteligência artificial e direção criativa da equipe. Reprodução total ou parcial proibida sem autorização.