Depois da apresentação, Ciça recebeu a Rolling Stone Brasil no camarim, ainda sob o efeito da adrenalina. “Como eu vi pessoalmente agora pela primeira vez, me deu uma caída de ficha real, muito mais do que eu tava antes”, disse. O repertório foi montado com o pai, Slim Rimografia , em um processo que combinou cuidado e tensão: “A gente passou uns estresses, mas pensou com muito carinho. Um estresse de tipo assim, pensar na melhor forma de fazer. Artista, a gente pensa: não, tem que ser assim, tudo encaixando”.

Esse cuidado se traduziu em um espetáculo de estrutura teatral. “ Vadias no Comando ” abriu a apresentação com os dois pés no peito: a faixa começa com “essa porra é rap gangster, nunca foi feminino”, soletra o nome da artista no refrão e funciona como um manifesto de chegada — força que manteve ao vivo. Dançarinos acompanharam Ciça em parte do repertório, enquanto interlúdios — como uma encenação de coletiva de imprensa e o momento em que um disco de Amy Winehouse era colocado para tocar — separavam os blocos e davam unidade ao espetáculo, em uma elaboração pouco comum para a estreia de uma EP. Na lateral do palco, Slim Rimografia comandava os sets; a parceria profissional construída ao longo dos anos ficava evidente, sem precisar de explicação.

“ Ser a Ciça é Bom Demais ”, “ Biriri ” e “ Boombap Não Vende ” foram outros destaques da noite. A última ganhou uma camada extra de ironia ao vivo: ao questionar até quando é preciso ser bom para ser acolhido pela indústria, a faixa soou ainda mais incisiva diante de uma plateia que havia lotado a casa justamente para ouvir aquele som. “ tranquila & Calma ”, o maior sucesso de sua discografia, com mais de 2,3 milhões de reproduções, e “ Humor Negro ”, parceria com Froid , completaram um repertório que percorreu a EP e as principais faixas lançadas avulsamente.

A apresentação também evidenciou a qualidade vocal de Ciça para além das gravações. Com pouco uso de auto-tune e quase nenhum apoio de voz pré-gravada, a artista deu uma aula de flow, precisão e controle impressionantes para uma artista de 18 anos em sua primeira grande apresentação solo.

Foi no encerramento, porém, que a apresentação encontrou seu momento mais memorável. Em “ Não Fale de Amor Comigo ” — faixa que, antes do lançamento, Ciça havia dito que talvez não conseguisse cantar sem chorar —, a artista entrou com um pedestal coberto de flores e as arrancou, uma a uma, ao longo da música. A imagem sintetizou a proposta da EP: a intimidade como arma, o gesto pequeno amplificado pelo palco.

No camarim, Ciça resumiu o que a experiência lhe ensinou: “As visualizações e os comentários são pessoas. Tem gente que acompanha e tem gente que ama o meu corre”. Contou que observa os rostos na plateia, acena e reconhece quem está ali. Entre todas as dimensões de seu trabalho, é no palco que tudo converge: “Todo show me ensina que eu amo isso e que eu tenho certeza que é o meu caminho. Que eu quero morrer fazendo isso”.

Ao definir 2026, escolheu dois adjetivos: “Gratificante e evolutivo”. Entre festivais, parcerias, o lançamento de Nepobaby e uma Casa Natura lotada menos de um mês depois, o ano dá sentido à escolha. Ainda assim, Ciça não trata as conquistas como um ponto de chegada: “Eu ainda não acho que tô na minha melhor época, mas eu tô construindo um caminho”. Com 18 anos e uma noite assim, é difícil discordar — e fácil acreditar que ela está certa.

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