Marlei, Franciele, Daina e Luciana não se conheciam, mas foram vítimas do mesmo crime. Em menos de uma semana, as quatro mulheres foram vítimas de feminicídio em Santa Catarina. Os crimes ocorreram entre 20 e 26 de outubro.

Em todos os casos, os autores do crime eram ex-companheiros das vítimas. Daiana Gisele Müller, de 38 anos, por exemplo, tinha uma medida protetiva de urgência vigente contra o suspeito.

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Em todo o ano, entre 1º de janeiro e 27 de outubro de 2026, o estado registrou 46 assassinatos de mulheres por razões de gênero. O total representa uma alta de 21% na comparação com o mesmo período do ano anterior, quando foram contabilizados 38 casos.

Ao g1, a advogada Tammy Fortunato, especialista em questões de gênero, apontou medidas necessárias para garantir a segurança das mulheres no estado. Entre as ações, ela destaca a criação de delegacias especializadas com funcionamento 24 horas e uma maior integração entre os serviços de segurança pública, saúde, assistência social e educação (veja mais abaixo).

Aumento de feminicídios em SC em 2026

Quatro mulheres mortas em menos de uma semana em SC

O primeiro caso foi registrado na terça-feira (20), em Ipira, no Oeste de Santa Catarina. Lorival Mendes, de 38 anos, é suspeito de assassinar a ex-companheira, Daiana Gisele Müller, da mesma idade.

Produtora rural e mãe de dois filhos, Daiana tinha uma medida protetiva de urgência contra o suspeito, solicitada 12 dias antes do assassinato.

Ela morreu menos de uma hora depois de acionar o botão do pânico, ferramenta da Polícia Militar instalada no celular de vítimas de violência doméstica para alertar as forças de segurança sobre o descumprimento de medidas protetivas.

O segundo caso ocorreu na quinta-feira (22), em Faxinal dos Guedes, também no Oeste. Juvir Antonio Rebelatto, de 50 anos, é o principal suspeito de assassinar a professora Luciana Menta, de 54 anos.

A família acionou a Polícia Militar após perceber o desaparecimento da professora. Luciana não havia ido ao trabalho nem buscado a filha na escola.

Imagens de câmeras de segurança mostraram o suspeito saindo do condomínio com uma sacola volumosa, onde estaria o corpo da vítima. Em seguida, ele colocou o volume dentro de um carro.

Com base nas gravações, os policiais localizaram o homem em casa. Ao ser questionado, ele confessou que segurou a professora pelo pescoço até asfixiá-la.

O terceiro caso foi registrado em Cocal do Sul, no Sul de Santa Catarina. Marlei Nunes foi baleada na sexta-feira (23) enquanto segurava um bebê nos braços. Ela morreu no domingo (25).

Segundo a delegada Tainá Greselle Carlesso, a criança era neta da vítima e não ficou ferida. Até terça-feira (27), o suspeito do crime ainda não havia sido localizado pela polícia.

O último caso ocorreu em Vargem, no Oeste. Franciele Aparecida de Lima, de 34 anos, foi morta a tiros na frente dos cinco filhos menores de idade.

O principal suspeito é o ex-companheiro da vítima. Ele fugiu após o crime e foi encontrado morto nesta terça-feira (27).

Falta de delegacias 24 horas dificulta proteção às mulheres em SC, diz especialista

A falta de delegacias especializadas no atendimento a mulheres que funcionem 24 horas por dia é um dos pontos que Santa Catarina precisa avançar para melhorar a proteção de vítimas de violência doméstica, segundo a advogada Tammy Fortunato, especialista em questões de gênero.

Embora o estado tenha ampliado políticas públicas voltadas à proteção das mulheres, ainda há falhas na integração entre os serviços de segurança pública, saúde, assistência social e educação, avalia a especialista.

“Não basta que essa mulher consiga registrar um boletim de ocorrência ou solicitar uma medida protetiva. Ela precisa ter, por parte do Estado, uma estrutura de fato capaz de acompanhar a situação dela, avaliar esses riscos de forma mais contínua e agir rapidamente a partir do momento em que visualiza a possibilidade de violência”, afirma.

Tammy também aponta dificuldades no uso dos serviços digitais para denunciar casos de violência. Apesar da possibilidade de registrar boletins de ocorrência e solicitar medidas protetivas pela internet, o sistema pode ser complicado para quem não está familiarizado com a ferramenta.

“É muito complicado. O sistema ainda é complicado para você registrar um boletim de ocorrência on-line para uma pessoa leiga, principalmente aquela que está em situação de violência, que já está nervosa”, diz.

Para a advogada, a existência de canais digitais não substitui a necessidade de atendimento presencial em tempo integral. Ela defende que o estado avance na implementação de delegacias abertas 24 horas para receber mulheres em situação de violência.

Prevenção também precisa avançar

Além do atendimento às vítimas, Tammy destaca a necessidade de investir na prevenção da violência contra as mulheres.

Para ela, o trabalho deve começar antes que as agressões aconteçam, com ações educativas em escolas, universidades, empresas privadas e instituições públicas.

“Precisamos trabalhar a prevenção para que nós não tenhamos mais casos de violência. É um número inadmissível para o estado de Santa Catarina. [...] Nós não podemos admitir um número tão alto de feminicídios”, declara.

A especialista ressalta ainda a importância de acompanhar os dados de feminicídios tentados, além dos assassinatos consumados. Para ela, os registros ajudam a compreender a dimensão da violência e a avaliar se as tentativas de feminicídios contra mulheres estão sendo interrompidas antes que resultem em mortes.

Veja onde e como denunciar casos de violência doméstica em SC

Polícia Militar (PM) - 190

Disque-denúncia - 180

Polícia Civil - 181 ou 48 98844-0083

Defensoria Pública de SC - 47 99191-6843

Ouvidoria da Mulher - 127

Formulário de denúncia do MPSC - mpsc.mp.br/ouvidoria/mulher

DefenDelas da Defensoria Pública de SC

Ouvidoria Pública da Mulher - tjsc.jus.br/web/ouvidoria-da-mulher

Programa “PC por Elas”, da Polícia Civil - pcporelas.pc.sc.gov.br

Boletim de ocorrência online - delegaciavirtual.sc.gov.br

Qualquer delegacia da Polícia Civil

Hospitais e postos de saúde

Câmaras Municipais (Procuradoria especial da mulher)

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