A história ganha destaque com a proximidade do Dia Mundial da Psoríase , celebrado em 29 de outubro . A data chama a atenção para uma doença crônica e não contagiosa que ainda provoca dúvidas e discriminação.
Mais do que apresentar informações sobre a condição, Moreira deseja alcançar pessoas que, assim como ele, deixaram de viver plenamente por medo do julgamento alheio.
Dez anos de isolamento e o medo de perder o emprego
Antes de se tornar um defensor da conscientização sobre a psoríase, Moreira enfrentou uma década de insegurança. As marcas da doença em diferentes partes do corpo fizeram com que ele mudasse completamente sua rotina.
“Tenho psoríase em várias partes do corpo há 24 anos. Nos dez primeiros, deixei de praticar esporte, de me socializar e só usava roupa que escondia a doença”, relembra o autor, em entrevista exclusiva ao Tribuna de Jundiaí.
O receio não se limitava à aparência. Na época, a falta de informação sobre a psoríase também provocava medo de perder o emprego. Durante anos, ele evitou situações que pudessem expor sua pele. Entretanto, depois de uma década, decidiu mudar sua relação com a doença e com as pessoas ao redor.
“A partir do décimo primeiro ano, mudei totalmente de postura, assumi que tinha e comecei a fazer trabalhos de conscientização, até mesmo para portadores, pois muitos nem imaginam que existe uma boa parte da população que tem a doença. Acham que são únicos, se escondem, e isso não é bom”, relata.
A mudança marcou o início de uma trajetória dedicada a combater o desconhecimento. Para Moreira, falar abertamente sobre a condição é uma maneira de evitar que outras pessoas enfrentem o mesmo isolamento.
Livro sobre psoríase nasceu do desejo de conscientizar adolescentes
Em 2023 , Moreira decidiu ampliar seu trabalho de conscientização por meio da literatura. Assim nasceu Psoríase – A História da Jovem Sória , que acompanha uma personagem adolescente com a doença. A escolha do público jovem não aconteceu por acaso. O autor acredita que a escola tem papel fundamental na formação de uma sociedade mais respeitosa.
Para construir a narrativa, Moreira precisou mergulhar no universo dos adolescentes. Ele pesquisou comportamentos, expressões e situações comuns à rotina escolar.
“Me colocar em um ambiente educacional de adolescente nos dias de hoje, com brincadeiras, ‘fofocas’, paqueras, inclusive estudando algumas gírias deles hoje, foi prazeroso. Gostei muito disso”, conta.
A obra aborda como o desconhecimento sobre doenças de pele pode gerar situações de bullying, afastamento e sofrimento emocional. Segundo Moreira, o objetivo é mostrar que ninguém deve ser excluído por apresentar uma condição que altera a aparência da pele.
Ele também destaca que as características físicas não definem quem uma pessoa é.
“É somente uma pele que, dependendo do grau da psoríase, não é tão bonita quanto a de outras pessoas. Mas quem está ali, lidando com isso, também deseja ser feliz”, afirma.
Para o escritor, reconhecer a própria condição e encontrar apoio pode ajudar a recuperar a confiança e a participação na vida social.
Psoríase não é contagiosa, mas o preconceito ainda afasta pessoas
Uma das principais mensagens do livro é combater a falsa ideia de que a psoríase pode ser transmitida pelo contato.
De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) , a psoríase é uma doença inflamatória, crônica e não contagiosa. Ela pode provocar lesões avermelhadas, descamação e outros sintomas que variam conforme cada paciente.
Apesar disso, Moreira afirma que muitas pessoas ainda confundem a doença com outras condições de pele e acabam se afastando.
“O desconhecimento da doença causa o medo de quem vê a pele de quem tem, pois logo pensa na hanseníase, lepra para os mais antigos. Aí se afasta, fica longe, não contrata, demite…”, lamenta.
Na avaliação dele, essas atitudes podem provocar consequências profundas na vida de quem enfrenta o preconceito. “Está cometendo um ato social triste, que pode mudar, e muito, a vida daquele portador”, ressalta.
Conscientização precisa começar nas escolas
Ao pesquisar sobre o assunto para escrever o livro, Moreira encontrou dados que reforçaram sua preocupação com crianças e adolescentes. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, cerca de 15% dos casos de psoríase surgem ainda na infância .
Para ele, o dado demonstra a importância de apresentar o tema aos estudantes, especialmente durante a adolescência.
“Esses dados demonstram a importância de se levar o tema das doenças de pele não contagiosas para dentro das escolas, principalmente aquelas que educam adolescentes e jovens do ensino médio”, destaca.
O autor acredita que a informação pode ajudar a evitar brincadeiras ofensivas, exclusão e atitudes discriminatórias. Além disso, a conscientização pode incentivar jovens que convivem com essas condições a procurar apoio e conversar sobre suas dificuldades.
Jundiaí tem lei de conscientização sobre a psoríase desde 2018
A mobilização de Moreira também está ligada a uma conquista municipal. Segundo o autor, ele participou dos esforços para instituir uma data de conscientização em Jundiaí.
“No início de 2018, conseguimos aprovação na Câmara Municipal do Dia da Conscientização da Psoríase e Outras Doenças de Pele Não Contagiosas . Escolhemos também 29 de outubro para coincidir com o mundial”, recorda.
A iniciativa resultou na Lei Municipal nº 8.910, de 1º de março de 2018 . A legislação incluiu o Dia da Conscientização da Psoríase e Outras Doenças de Pele Não Contagiosas no calendário oficial de Jundiaí.
Assim, o município passou a contar com uma data anual dedicada à informação e ao combate ao preconceito. Para Moreira, porém, o assunto precisa receber atenção durante todo o ano, e não apenas em campanhas pontuais.
“Conscientizar sobre o tema vai trazer uma sociedade mais humana, respeitosa. A psoríase não escolhe idade, família e nem classe social para aparecer”, afirma.
Ele lembra que outras condições também possuem datas de conscientização, como o Dia Mundial do Lúpus, em 10 de maio , e o Dia Mundial do Vitiligo, em 25 de junho .
“Não desista da sua felicidade”: a mensagem de Moreira para quem tem psoríase
Depois de enfrentar anos de vergonha e insegurança, Moreira deseja que seu livro ajude outras pessoas a encontrar acolhimento.
Ele reconhece que conviver com uma doença crônica pode ser desafiador, especialmente quando há preconceito. Contudo, acredita que o apoio, a informação e o tratamento adequado podem transformar a qualidade de vida.
“Não desista de sua felicidade. Você não é o único no sistema solar com psoríase”, diz.
O escritor lembra que milhões de pessoas convivem com a condição em diferentes partes do mundo.
“Existem milhões de pessoas por esse mundo afora com isso, e a maioria delas encontrou um tratamento para ter uma vida normal. Você também vai encontrar o seu”, incentiva. “Assuma que tem, não se esconda, converse com as pessoas sobre o tema, tome sol, use bermuda, camiseta. Não se preocupe com o que os outros vão dizer sobre o seu corpo”
Para finalizar, o autor deixa uma mensagem que resume a proposta de sua obra e seus anos de trabalho pela conscientização:
“Isso [psoríase] é só o lado de fora de quem você é, e você sabe muito bem que o mais importante de tudo é o que somos por dentro. É estar bem consigo mesmo e ser feliz!”
Quem deseja conhecer mais sobre o trabalho de Moreira e os conteúdos relacionados ao livro pode acessar o perfil @psoriase.livro no Instagram.

