Apesar da estabilidade mensal, a dívida bruta acumula alta de 4,3 pontos percentuais do PIB em 2026. Desde o início do 3º mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o indicador avançou 11,2 pontos percentuais.

Em dezembro de 2022, antes da posse do petista, a dívida bruta correspondia a 71,7% do PIB. O percentual atual é o maior desde março de 2021, quando o endividamento estava em 85,1% do PIB, diante dos efeitos da pandemia de covid-19 sobre as contas públicas.

A dívida bruta compreende o governo federal, o Instituto Nacional do Seguro Social e os governos estaduais e municipais. O indicador é acompanhado por investidores e economistas para avaliar a trajetória do endividamento e a capacidade do governo de honrar suas obrigações.

Segundo o BC, a alta da dívida em 2026 foi influenciada principalmente pela incorporação dos juros nominais, que acrescentaram 7,2 pontos percentuais à relação dívida/PIB (Produto Interno Bruto). As emissões líquidas de títulos contribuíram com mais 1,1 ponto percentual.

Em sentido contrário, o crescimento do PIB nominal reduziu a relação em 3,9 pontos percentuais, enquanto a valorização cambial contribuiu com redução de 0,2 ponto percentual.

Em setembro, os juros nominais acrescentaram 0,8 ponto percentual à dívida bruta, mas o efeito foi compensado pelos resgates líquidos de dívida e pelo crescimento do PIB nominal, que reduziram a relação em 0,4 ponto percentual cada.

JUROS: R$ 1,2 TRILHÃO

Os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 1,205 trilhão no acumulado de 12 meses até setembro, o equivalente a 8,99% do PIB.

O valor representa um aumento de R$ 220,2 bilhões em relação ao mesmo período de 2025, quando os juros alcançaram R$ 984,8 bilhões, ou 7,86% do PIB.

Só em setembro, os juros nominais somaram R$ 107,5 bilhões, ante R$ 84,7 bilhões no mesmo mês de 2025. O aumento foi de R$ 22,8 bilhões, ou 26,9%.

Segundo o BC, contribuíram para a elevação o resultado menos favorável das operações de swap cambial, o crescimento do estoque da dívida e a inflação medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).

As operações de swap cambial registraram ganho de R$ 2,8 bilhões em setembro de 2026, ante R$ 13,4 bilhões no mesmo mês do ano anterior.

A taxa básica de juros, a Selic, está em 13,75% ao ano. O patamar elevado encarece o financiamento da dívida pública e pressiona o resultado das contas do governo.

A Dívida Líquida do Setor Público alcançou 70% do PIB em setembro, equivalente a R$ 9,4 trilhões. O indicador subiu 0,7 ponto percentual em relação a agosto e atingiu o maior percentual da série histórica do Banco Central, iniciada em dezembro de 2001.

Diferentemente da dívida bruta, a dívida líquida considera os ativos financeiros do setor público, que são descontados de suas obrigações.

No acumulado de 2026, a dívida líquida avançou 4,7 pontos percentuais do PIB.

O crescimento foi influenciado principalmente pelos juros nominais, que acrescentaram 6,6 pontos percentuais à relação dívida líquida/PIB, e pelo deficit primário acumulado, com impacto de 0,7 ponto percentual.

A valorização cambial de 5,8% no ano também contribuiu para elevar a dívida líquida em 0,6 ponto percentual do PIB. Já o crescimento do PIB nominal reduziu a relação em 3,2 pontos percentuais.

O deficit nominal do setor público consolidado, que inclui o resultado primário e as despesas com juros, alcançou R$ 1,275 trilhão em 12 meses até setembro, equivalente a 9,51% do PIB.

O percentual subiu 0,04 ponto percentual em relação ao registrado até agosto.

Em setembro, o deficit nominal foi de R$ 113 bilhões. Desse total, R$ 107,5 bilhões corresponderam aos juros nominais e R$ 5,5 bilhões ao deficit primário.

Isso significa que os juros responderam por 95,1% do deficit nominal registrado no mês.

O resultado evidencia o peso dos juros sobre as contas públicas, mesmo com a melhora do resultado primário em relação ao ano anterior.

O setor público consolidado registrou deficit primário de R$ 5,5 bilhões em setembro, ante resultado negativo de R$ 17,5 bilhões no mesmo mês de 2025.

Houve uma melhora de R$ 12 bilhões na comparação anual.

O resultado foi composto por:

governo central – superavit de R$ 3,5 bilhões;

governos regionais – deficit de R$ 5,6 bilhões;

empresas estatais – deficit de R$ 3,4 bilhões.

No acumulado de 12 meses, o deficit primário atingiu R$ 70,1 bilhões, equivalente a 0,52% do PIB. O percentual ficou 0,09 ponto percentual abaixo do registrado até agosto.

O resultado primário considera as receitas e despesas do setor público, sem incluir os juros da dívida.

QUEDA DA SELIC

O Banco Central também divulgou estimativas sobre os efeitos de alterações nos juros, no câmbio e na inflação sobre o endividamento público.

Segundo simulação da autoridade monetária, uma redução de 1 ponto percentual na taxa Selic, mantida por 12 meses, teria impacto estimado de R$ 64,9 bilhões na redução da dívida bruta, equivalente a 0,48 ponto percentual do PIB.

Na dívida líquida, o impacto estimado seria de R$ 70,8 bilhões, ou 0,53 ponto percentual do PIB.

As simulações indicam ainda que:

câmbio – uma desvalorização de 1% do real elevaria a dívida bruta em R$ 9,7 bilhões, mas reduziria a dívida líquida em R$ 8,9 bilhões;

juros – uma redução de 1 ponto percentual na Selic diminuiria a dívida bruta em R$ 64,9 bilhões e a dívida líquida em R$ 70,8 bilhões;

inflação – uma redução de 1 ponto percentual nos índices de preços diminuiria a dívida bruta em R$ 20,6 bilhões e a dívida líquida em R$ 21 bilhões.

Os cálculos representam estimativas de sensibilidade da dívida a mudanças nas variáveis econômicas, e não projeções de que essas alterações efetivamente ocorrerão. Nas simulações referentes à Selic e aos índices de preços, as variações são mantidas por 12 meses.

Os dados mostram que, apesar da melhora do resultado primário em setembro, os juros continuam sendo o principal fator de pressão sobre o endividamento público brasileiro.