O que são as eleições de meio de mandato:

Termômetro da gestão: Ocorrem na metade do mandato presidencial de quatro anos e funcionam como uma avaliação popular da administração em exercício.

Composição do Congresso: Renovam todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e um terço das 100 cadeiras do Senado americano.

Disputas nos estados: Também incluem eleições para governadores e outros cargos estaduais em diferentes partes do país.

Margem de governabilidade: O resultado influencia a capacidade do presidente de aprovar leis e orçamentos e de conduzir sua agenda legislativa.

As Midterms (Eleições de Meio de Mandato) reconfiguram as cadeiras do Congresso e governos estaduais, testando a força da Casa Branca para a segunda metade do mandato. – Crédito: Imagem gerada por IA

Elaborada por parlamentares republicanos e democratas, a Lei Bipartidária Americana de Acessibilidade Econômica e Empregos ( BAAJA , na sigla em inglês) pretende modificar procedimentos de avaliação ambiental e autorização de grandes empreendimentos. A iniciativa reúne mudanças em diferentes legislações e procura reduzir o tempo necessário para tirar projetos de infraestrutura do papel.

O texto é resultado de negociações entre quatro senadores que ocupam posições de liderança nas comissões de Meio Ambiente e Obras Públicas e de Energia e Recursos Naturais: Shelley Moore Capito e Mike Lee, republicanos, além de Sheldon Whitehouse e Martin Heinrich, democratas.

O que muda com a proposta de reforma

Um dos principais objetivos do BAAJA é estabelecer prazos para as avaliações ambientais federais. Pelo texto, análises de grandes projetos deverão ser concluídas, em geral, dentro de um a dois anos. A proposta também prevê maior coordenação entre órgãos governamentais, limita determinadas possibilidades de contestação judicial e estabelece condições para dar mais segurança às licenças concedidas.

O projeto altera dispositivos de três leis ambientais federais: a Lei Nacional de Política Ambiental (NEPA), que orienta a avaliação dos impactos de obras e empreendimentos; a Lei da Água Limpa, que protege os recursos hídricos; e a Lei de Espécies Ameaçadas, voltada à conservação de animais e plantas sob risco de extinção.

Segundo análise , a reforma pode alterar a maneira como projetos que afetam áreas naturais, cursos d’água e habitats de animais são analisados. O objetivo declarado pelos defensores é evitar que sucessivas etapas administrativas e disputas judiciais prolonguem indefinidamente a autorização de obras. Organizações ambientais, entretanto, questionam se a redução dessas etapas não diminuirá as oportunidades de participação pública e fiscalização.

Infográfico mostra como eleições americanas podem influenciar obras de energia e expansão da inteligência artificial. – Crédito: Imagem gerada por IA

A proposta também trata da transmissão de eletricidade. O BAAJA prevê mudanças na atuação da Comissão Federal Reguladora de Energia (FERC), ampliando sua possibilidade de autorizar determinadas linhas interestaduais quando os processos estaduais não avançarem. A iniciativa também modifica os critérios para esses empreendimentos e busca facilitar a conexão entre regiões produtoras e consumidoras.

Esse aspecto é especialmente relevante porque a expansão da geração elétrica não resolve, sozinha, os problemas de abastecimento. A energia produzida em uma usina precisa chegar aos consumidores por meio de uma rede capaz de transportar grandes volumes a longas distâncias. Quando faltam linhas de transmissão, novos projetos de geração podem enfrentar dificuldades para se conectar ao sistema, mesmo quando existe capacidade de produção disponível.

Para Thiago Maia, físico, com mestrado e doutorado em Física Nuclear, engenheiro de petróleo e com MBA em Gestão de Projetos, a simplificação do licenciamento pode contribuir para superar parte desses obstáculos. Em entrevista ao Olhar Digital, ele explicou que a construção de usinas, subestações e linhas de transmissão pode ganhar agilidade com a redução dos prazos de aprovação.

“O BAAJA poderá acelerar a construção de usinas, subestações e linhas de transmissão ao simplificar processos de licenciamento e reduzir prazos de aprovação. Isso facilitará o fornecimento de eletricidade aos data centers, que exigem grandes quantidades de energia de forma contínua”, afirma o especialista.

Maia ressalta, porém, que a mudança nas regras não garante, por si só, a ampliação da capacidade elétrica. A execução dos projetos também depende de investimentos, disponibilidade de equipamentos e planejamento da rede, fatores necessários para que a energia chegue efetivamente aos novos consumidores.

Inteligência artificial aumenta a pressão sobre a rede

A necessidade de ampliar e modernizar essa infraestrutura está relacionada ao crescimento do consumo de eletricidade nos Estados Unidos. Durante anos, a demanda nacional permaneceu relativamente estável, mas a expansão de atividades industriais, a eletrificação e, principalmente, a construção de centros de processamento de dados mudaram essa trajetória.

Um relatório da Agência Internacional de Energia (IEA), publicado em 2026, estima que o consumo americano aumentará mais de 420 terawatts-hora entre 2025 e 2030. Os data centers deverão responder por aproximadamente metade desse crescimento, impulsionados pela expansão da inteligência artificial e dos serviços de computação em nuvem.

A Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA) também projeta recordes de consumo. Em sua previsão de setembro , a agência estimou vendas de eletricidade de 4.135 bilhões de quilowatts-hora em 2026 e 4.211 bilhões em 2027. A expansão dos centros de dados e das atividades industriais está entre os principais fatores por trás desses números.

Infográfico mostra como a expansão da inteligência artificial impulsiona o consumo de eletricidade nos EUA. – Crédito: Imagem gerada por IA

O crescimento, porém, traz uma questão econômica: quem deverá pagar pela infraestrutura necessária para atender aos novos consumidores? A conexão de instalações de grande porte pode exigir transformadores, subestações e linhas de transmissão adicionais. Se esses investimentos forem distribuídos entre todos os usuários, famílias e pequenas empresas poderão acabar arcando com parte dos custos gerados por grandes companhias de tecnologia.

O próprio BAAJA busca enfrentar essa questão ao prever que os data centers arquem com os custos de transmissão de energia necessários ao funcionamento de suas instalações. Em junho , a FERC também determinou que os seis operadores regionais de rede sob sua jurisdição justificassem ou revisassem as tarifas aplicadas a grandes consumidores, entre eles os centros de processamento de dados.

A disputa por eletricidade também pode aumentar a desigualdade tecnológica entre países. Na avaliação de Maia, nações com maior disponibilidade de energia, redes modernas e capacidade financeira terão melhores condições para desenvolver tecnologias próprias e atrair investimentos em IA. “Países com energia abundante, infraestrutura moderna e maior capacidade financeira terão vantagens no desenvolvimento da inteligência artificial. Já países com eletricidade cara ou redes deficientes poderão depender de tecnologias estrangeiras, ampliando as desigualdades econômicas e tecnológicas”.

Nesse contexto, a infraestrutura energética passa a influenciar também a competitividade internacional. Países que não conseguirem acompanhar o crescimento do consumo poderão enfrentar dificuldades para desenvolver seus próprios centros de processamento de dados e depender mais de serviços oferecidos por empresas estrangeiras.

Eleições podem mudar o futuro da proposta

A nova composição do Congresso poderá influenciar diretamente a tramitação do BAAJA. O resultado determinará qual partido controlará as duas Casas durante os últimos dois anos do mandato de Donald Trump.

Essa composição interfere na presidência das comissões, na definição das pautas e na capacidade de aprovar projetos. Caso os democratas conquistem uma das Casas, poderão ampliar a fiscalização das decisões do governo e exigir mudanças na proposta. Se os republicanos mantiverem o controle, terão maior margem para conduzir a agenda legislativa da administração.

As possíveis consequências também ultrapassam as fronteiras americanas. Maia avalia que mudanças nas regras de licenciamento dos Estados Unidos podem servir de referência para outros governos interessados em acelerar obras de infraestrutura energética.

Nos EUA, eleições de meio de mandato renovam o Congresso e testam a popularidade presidencial. – Crédito: Rob Crandall/Shutterstock

Entretanto, a redução de exigências ou etapas de avaliação pode gerar preocupações sobre a preservação ambiental e a participação das comunidades afetadas. “O principal desafio será conciliar agilidade nos investimentos com fiscalização e proteção ambiental. As mudanças poderão servir de referência para outros governos que buscam acelerar obras de infraestrutura energética”, afirma Maia.

Segundo a Reuters , a intenção dos negociadores é colocar a proposta entre as primeiras matérias analisadas quando os trabalhos forem retomados após as eleições. A Câmara ainda não aprovou o projeto, portanto sua transformação em lei dependerá de novas negociações e da tramitação nas duas Casas.

Outro ponto envolve as fontes de energia que serão utilizadas para atender ao crescimento da demanda. Como os data centers precisam de eletricidade continuamente, a insuficiência de outras fontes pode levar países a ampliar o uso de combustíveis fósseis, principalmente gás natural e carvão, para evitar interrupções no fornecimento.

Maia considera que esse risco é maior no curto prazo, quando a infraestrutura disponível não consegue acompanhar o aumento do consumo. Ao mesmo tempo, a expansão da IA também pode estimular investimentos em fontes alternativas e sistemas de armazenamento.

“Como os data centers precisam de eletricidade continuamente, países poderão ampliar o uso de gás natural e carvão quando não houver infraestrutura suficiente para atender à demanda com outras fontes. Entretanto, a expansão da inteligência artificial também poderá impulsionar investimentos em energia solar, eólica, nuclear e armazenamento”, explica.

O resultado das urnas não determinará, por si só, o futuro da infraestrutura energética dos Estados Unidos. No entanto, definirá a correlação de forças responsável por discutir os limites da reforma, fiscalizar sua aplicação e decidir quais projetos terão prioridade. As decisões do Congresso terão consequências não apenas para a expansão da rede elétrica, mas também para a proteção ambiental, a matriz energética e a distribuição dos custos entre empresas e consumidores.

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