Uma mudança na maneira de cuidar de idosos está provocando discussões na Holanda. Em vez de realizar automaticamente todas as tarefas pelos moradores, algumas instituições de longa permanência passaram a incentivar que eles continuem fazendo aquilo que ainda conseguem executar com segurança.
A proposta envolve atividades simples, como cortar alimentos, escolher roupas, vestir-se e caminhar por pequenos trajetos. O objetivo é preservar a independência dos residentes pelo maior tempo possível, mesmo quando precisam de assistência profissional.
Segundo reportagem do jornal holandês Brabants Dagblad , a nova abordagem também exige adaptação dos familiares, que nem sempre compreendem por que os cuidadores deixam determinadas tarefas nas mãos dos idosos.
Idosos são incentivados a fazer o que ainda conseguem
A principal mudança está na maneira como os profissionais avaliam as necessidades de cada residente.
No modelo tradicional de atendimento, tarefas cotidianas frequentemente passam a ser realizadas pela equipe, especialmente quando o idoso apresenta alguma limitação física.
A nova proposta procura identificar quais atividades a pessoa ainda consegue executar sem comprometer sua segurança.
Se um morador consegue vestir parte da roupa, por exemplo, o cuidador pode oferecer orientação e auxílio apenas nos movimentos mais difíceis.
A intenção não é retirar assistência, mas evitar que o idoso perca oportunidades de utilizar habilidades que ainda possui.
Até cortar o próprio pão pode fazer diferença
Uma das situações descritas na reportagem envolve uma idosa que tenta cortar o próprio pão durante uma refeição.
Em vez de assumir imediatamente a tarefa, os profissionais permitem que ela realize o movimento, desde que isso seja seguro.
Embora pareça um gesto pequeno, atividades semelhantes exigem coordenação, força nas mãos e capacidade de tomar decisões.
Quando uma pessoa deixa de realizar repetidamente tarefas que ainda consegue fazer, pode acabar utilizando menos determinadas habilidades.
Por isso, preservar ações cotidianas faz parte da estratégia de incentivar a autonomia.
Mudança causa estranhamento entre familiares
Para quem visita um parente em uma casa de repouso, encontrar o idoso tentando realizar uma tarefa sozinho pode provocar preocupação.
Algumas famílias associam a qualidade do atendimento à quantidade de atividades executadas pelos cuidadores.
Diante dessa expectativa, deixar um residente vestir-se ou preparar parte da própria refeição pode parecer falta de assistência.
Entretanto, os responsáveis pelo novo modelo explicam que a intervenção deve acontecer conforme a necessidade real de cada pessoa.
A comunicação com os familiares torna-se essencial para evitar que o estímulo à autonomia seja confundido com negligência.
Por que fazer tudo pelo idoso pode ser prejudicial?
Com o envelhecimento, algumas capacidades físicas e cognitivas podem sofrer alterações. Entretanto, isso não significa que todas as habilidades desapareçam ao mesmo tempo.
Uma pessoa pode precisar de ajuda para tomar banho, mas continuar conseguindo escolher roupas, alimentar-se ou organizar objetos pessoais.
Quando os cuidadores assumem todas essas atividades sem avaliar o que o residente ainda consegue realizar, podem reduzir suas oportunidades de movimentação e participação.
O estímulo adequado busca conservar habilidades e respeitar as escolhas individuais.
Isso não significa obrigar alguém a realizar uma tarefa difícil, dolorosa ou perigosa.
Cuidadores passam a atuar de outra maneira
A nova abordagem também modifica o papel dos profissionais que trabalham nas instituições.
Em vez de executar todas as tarefas imediatamente, eles precisam observar, orientar e avaliar quando a intervenção é necessária.
Essa mudança exige paciência, porque permitir que uma pessoa realize determinada atividade pode levar mais tempo do que simplesmente fazê-la em seu lugar.
Também é necessário considerar riscos de queda, fadiga e dificuldades de coordenação.
O objetivo é encontrar um equilíbrio entre oferecer suporte e preservar a participação do residente nas decisões sobre sua própria rotina.
Autonomia não significa deixar o idoso sem ajuda
Um dos pontos mais importantes da proposta holandesa é a distinção entre independência e abandono.
Pessoas com limitações severas, doenças avançadas ou dificuldades importantes de mobilidade continuam necessitando de cuidados específicos.
O atendimento deve ser ajustado conforme as condições clínicas, o nível de segurança e as preferências individuais.
Um residente que consegue alimentar-se sozinho pode precisar de supervisão, enquanto outro pode depender de assistência integral.
Por isso, aplicar o mesmo nível de exigência a todos os moradores seria inadequado.
A autonomia precisa ser estimulada de maneira individualizada, e não transformada em obrigação.
Casas de repouso também enfrentam falta de profissionais
A mudança acontece em um contexto de pressão sobre os serviços de assistência a idosos.
Equipes sobrecarregadas e dificuldades para organizar os cuidados diários fazem parte dos desafios enfrentados por instituições de longa permanência.
Ao incentivar atividades que os residentes podem executar, os profissionais podem concentrar mais atenção nas situações que exigem assistência especializada.
Entretanto, existe uma preocupação importante: a proposta não deve ser utilizada como justificativa para reduzir indevidamente o número de funcionários.
Estimular a autonomia também exige acompanhamento, avaliação e tempo disponível para observar cada pessoa.
A família também precisa mudar sua maneira de ajudar
A reportagem destaca que o sucesso da abordagem depende da participação dos parentes.
Em muitas famílias, demonstrar carinho significa antecipar todas as necessidades de uma pessoa idosa.
Entretanto, ajudar nem sempre exige assumir completamente uma tarefa.
Em algumas situações, oferecer tempo, adaptar um utensílio ou acompanhar a atividade pode ser mais adequado.
A participação dos familiares deve respeitar as capacidades e as preferências do idoso, sem transformar a independência em uma cobrança permanente.
O que acontece quando o idoso não consegue realizar uma atividade?
A dificuldade para executar uma tarefa precisa ser avaliada pela equipe responsável.
Se houver risco de queda, engasgo, lesão ou esforço excessivo, o cuidado deve ser adaptado imediatamente.
O mesmo vale para pessoas com alterações cognitivas que comprometam a compreensão da atividade ou a percepção do perigo.
Profissionais podem recorrer a utensílios adaptados, supervisão próxima ou assistência parcial, conforme a necessidade.
O importante é compreender que a capacidade funcional pode variar ao longo do tempo e precisa ser reavaliada.
Modelo holandês pode inspirar cuidados no Brasil
No Brasil, muitas famílias enfrentam desafios semelhantes ao cuidar de pais e avós que apresentam limitações relacionadas ao envelhecimento.
Parte dessa assistência acontece dentro de casa, enquanto outras pessoas recebem cuidados em instituições de longa permanência.
O princípio de preservar atividades que ainda podem ser realizadas com segurança também pode orientar a rotina doméstica.
Entretanto, cada situação exige avaliação individual, especialmente quando existem problemas de saúde ou risco de acidentes.
A experiência holandesa não deve ser interpretada como recomendação para retirar cuidados de idosos que precisam deles.
Pequenas escolhas ajudam a preservar a independência
A autonomia não está relacionada apenas à capacidade de caminhar ou de realizar atividades físicas.
Também envolve decidir o horário de determinadas tarefas, escolher roupas, participar das refeições e manter hábitos pessoais.
Essas decisões fazem parte da identidade de cada indivíduo e podem continuar importantes mesmo quando existe dependência para outras atividades.
Permitir que o idoso participe da própria rotina pode contribuir para preservar sua sensação de controle sobre a vida.
Isso exige que familiares e profissionais escutem suas preferências e respeitem seus limites.
Nova proposta muda o significado de cuidar
A experiência descrita na Holanda apresenta uma transformação importante na assistência a idosos.
O cuidado deixa de ser medido exclusivamente pela quantidade de tarefas realizadas pelos profissionais e passa a considerar também aquilo que o residente consegue continuar fazendo.
A proposta exige acompanhamento, diálogo com as famílias e atenção às necessidades individuais.
O detalhe mais surpreendente é que, em determinadas situações, cuidar melhor pode significar fazer menos pelo idoso e oferecer mais condições para que ele continue participando da própria rotina. A diferença entre estímulo e negligência, porém, está na segurança, na supervisão e no respeito aos limites de cada pessoa.

