Os democratas conquistaram a maioria na Câmara e no Senado dos Estados Unidos. No Planalto, o resultado é visto como um risco de abertura de processo de impeachment contra Trump. Auxiliares de Lula também avaliam que o novo Congresso pode frear ações do republicano na região e favorecer o Brasil em temas como regulação das big techs e meio ambiente.
O Planalto também avalia que a articulação internacional do bolsonarismo sai enfraquecida. Republicanos próximos a Eduardo Bolsonaro (PL), como a deputada Maria Elvira Salazar, devem enfrentar mais dificuldades para avançar propostas contra integrantes do Judiciário brasileiro. O cenário também reduz o espaço para pautas de interesse da direita brasileira no Congresso dos EUA.
Aliados de Lula trataram o resultado norte-americano como vitória política. O deputado André Janones (Rede-MG), coordenador do canal “Exército do Lula” na campanha, disse ver influência do cenário brasileiro no pleito dos EUA. A deputada Duda Salabert (PDT-MG) destacou a mudança na correlação de forças e a reação eleitoral à direita radical.
Na visão do governo, a relação com os EUA tem 2 capítulos: a eleição daqui e a de lá.
A tese é que agora o Brasil está em posição de força em relação aos EUA. O governo avalia que não precisa defender o resultado da eleição, já reconhecido por partidos, pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) , pela OEA (Organização dos Estados Americanos) e pelo Centro Carter .
27 partidos reconheceram a vitória de Lula, incluindo o PL (Partido Liberal), de Flávio Bolsonaro . Entre eles estão União Brasil, Republicanos e Podemos, que haviam declarado apoio ao senador no 2º turno.
As missões da OEA e do Centro Carter avaliaram que a votação e a apuração do 2º turno transcorreram com normalidade. A OEA divulgou relatório preliminar em 27 de outubro.
Isso deixou os EUA espremidos, sem apoio para contestá-lo. O Planalto avalia que Flávio esvaziou seu capital político. Daí vem a ambiguidade de Washington, que tenta acolher aliados, mas não pode, ao mesmo tempo, passar ao ridículo ao contestar um resultado amplamente reconhecido.
A orientação é não entrar na polêmica , vista no governo como instrumento de autocombustão. O Planalto não quer levar o tema ao campo diplomático e prefere deixá-lo com a Justiça.
Tarifaço segue parado
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, disse ao Poder360 , na 3ª feira (3.nov.2026), que o resultado das “ midterms” não muda “absolutamente nada” nas negociações com os EUA. Opositores de Trump, os democratas tendem a barrar novos atos hostis do republicano, como a alta de tarifas.
A tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros foi anunciada pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) em julho. O Brasil questiona a base legal da medida e levou a discussão à OMC (Organização Mundial do Comércio), sem desdobramentos até agora.
A disputa tarifária começou em 2025, quando Trump anunciou tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros, com início em 1º de agosto. Em fevereiro de 2026, as tarifas americanas baseadas na lei IEEPA foram invalidadas e os EUA tiveram que mudar a base legal do tarifaço.
Tarifas com outras bases legais, como a Seção 301, não foram afetadas. Foi por essa via que o USTR concluiu a investigação sobre o Brasil, que apontou como irrazoáveis práticas brasileiras em comércio digital e pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. Carne e café ficaram de fora, numa lista com 864 exceções.
Brasil e EUA retomaram as negociações formais em 31 de agosto. Nada andou desde a última reunião, no fim de setembro. O USTR ficou de enviar uma proposta de termos e não enviou.
A leitura do governo era que nada avançaria antes da eleição americana, com o chefe do USTR, Jamieson Greer, em campanha.
O tema também ganhou contornos políticos. O secretário de Estado, Marco Rubio, disse que o Brasi l “não negociou de boa-fé” . Para o Planalto, a tarifa deixou de ser só econômica e passou a integrar a disputa política e eleitoral.
Lula viaja à Turquia (11 e 12 de novembro) e às Filipinas, e volta em 16 de novembro. Depois vêm a cúpula do Mercosul, em Montevidéu, e o G20, nos EUA – onde pode encontrar Trump .
Lula retoma viagens internacionais e deve encontrar Trump no G20

