Diferentemente dos relatórios baseados em planilhas financeiras, as imagens anexadas ao inquérito e à decisão judicial que determinou a prisão de 29 pessoas durante a Operação Ifrit, nesta quarta-feira (4), mostram encontros, momentos de descontração e situações que, segundo a Polícia Federal (PF), indicam a proximidade entre integrantes do Clã Haidar e policiais civis de Mato Grosso do Sul.
Deflagrada pela Polícia Federal e pela Receita Federal em sete estados, a operação mobilizou mais de 450 agentes para cumprir 76 mandados de busca e apreensão e 26 mandados de prisão. A investigação apura um esquema de tráfico internacional de drogas e armas e corrupção policial que, segundo a PF, movimentou mais de R$ 500 milhões em dois anos.
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De selfie na delegacia à karaokê: ligação entre traficantes e policiais.
Com atuação na região fronteiriça entre Ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, o grupo é descrito pela PF como uma organização criminosa de estrutura familiar e perfil ultraviolento. A liderança era formada por três irmãos e seus filhos, que, segundo a investigação, mantinham ligação com facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Primeiro Grupo Catarinense (PGC).
O grupo operava rotas de entrada de cocaína e armas da Bolívia, do Peru e do Paraguai. As cargas abasteciam mercados das regiões Sudeste e Sul do Brasil e também eram enviadas a portos com destino à Europa.
Karaokê com chefia da organização criminosa
Da esquerda para direita, Adel Hassan e delegado Hoffman.
Em uma das imagens, o delegado Hoffman D’Ávila aparece sentado à mesa com Adel Hassan Haidar, um dos três irmãos apontados como líderes da organização criminosa. Segundo o relatório judicial, os dois aparecem em um momento de descontração, cantando em um aparelho de karaokê.
Para a PF, a imagem reforça a suspeita de proximidade pessoal e convivência social entre o delegado e Adel, apontado como financiador do tráfico internacional de drogas e armas.
🔎Hoffman - delegado de classe especial e ex-titular da Denar e do Garras. É apontado pela PF por viabilizar o desvio de duas toneladas de cocaína do cofre da polícia, substituindo a droga por amido para abastecer a facção e lucrar R$ 15 milhões.
🔎Adel - Um dos chefes supremos do clã familiar na fronteira, responsável pelo comando e financiamento do tráfico de drogas e armas. Aparece em imagens confraternizando com o delegado Hoffman ao som de karaokê, em abraço de despedida e em teste de tiro.
Selfie dentro de delegacia
Adule Vasques e Vitor da Silva dentro da Denar.
Conforme relatório da PF, imagens registradas no interior da Denar em 16 de dezembro de 2025 mostram Adule Vasques Haidar e o comparsa operacional Vitor da Silva transitando à noite nas dependências da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar).
Em uma das fotos, Adule posa e aponta para uma porta com a inscrição "ARQUIVO INVESTIGAÇÃO" e o brasão da Denar. Em outro registro, ele e Vitor aparecem novamente com o símbolo da unidade policial ao fundo.
🔎Aduele - Filho de Adel e apontado como principal operador logístico e financeiro do grupo. Coordenava a contabilidade e o pagamento de propinas aos policiais, além de ser fotografado no interior da Denar e ao lado da viatura oficial do Garras.
🔎 Vitor - Alvo de prisão preventiva da Operação Ifrit, apontado pela investigação como integrante operacional do grupo. Foi flagrado em registros fotográficos noturnos dentro da sede da Denar ao lado de Adule, posando em frente à sala do arquivo de investigações.
Teste de pontaria e despedida com abraço
Imagem aérea mostra o delegado Hoffman abraçando Adel Hassan Haidar na saída de residência.
Outra imagem anexada ao inquérito mostra Adel ao lado do delegado Hoffman D’Ávila, segurando uma arma longa durante um teste de mira.
Para a PF, o registro reforça a suspeita de proximidade entre o delegado e uma das lideranças da organização criminosa, que aparece manuseando a arma ao lado dele.
Adel Hassan Haidar (de branco) e delegado Hoffman (de azul) testando a mira de uma arma.
A PF também monitorou o encontro entre Adel Hassan Haidar e o delegado Hoffman D’Ávila, inclusive com o uso de drones.
Ao fim do encontro, os agentes registraram o momento em que Adel e Hoffman se despedem com um abraço. Em seguida, o delegado entrou em um carro cuja placa não constava nos cadastros policiais consultados e seguiu para a sede do Garras, onde chefiava a unidade.
Viatura oficial e selfie
Adule Vasques e Vitor da Silva (dentro da viatura do Garras).
A imagem foi feita por Adule Vasques Haidar, filho de Adel e apontado pela PF como operador logístico do grupo. Do interior do próprio carro, ele fotografou uma viatura oficial do Garras que estava emparelhada ao veículo em uma via pública.
Segundo a PF, os ocupantes da viatura eram os investigadores da Polícia Civil Andrey Elesbão Silva e Douglas Tobias.
🔎Andrey - Investigador de Polícia Civil suspeito de atuar como braço de inteligência e contrainteligência do clã. Acessava sistemas policiais restritos para repassar dados de veículos, placas e desafetos, recebendo propinas e equipamentos táticos da quadrilha;
🔎Douglas - Policial civil investigado por prestar apoio operacional e blindar os carregamentos do grupo criminoso. Identificado como um dos agentes na viatura oficial emparelhada com o carro de Adule Haidar, figurava na contabilidade de propinas do clã.
Organização tinha ligação com o facções perigosas
Segundo as investigações da Polícia Federal, a principal área de atuação da organização criminosa era a região de fronteira entre Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai.
O grupo também mantinha atividades em outros estados e rotas internacionais de tráfico. As drogas eram obtidas na Bolívia, no Peru e no Paraguai e enviadas para diferentes cidades brasileiras e países da Europa, principalmente Espanha e Portugal. A organização teria ligação com o PCC e ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC).
A operação cumpriu mandados em sete estados: Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Rondônia.
As investigações apontam ainda que a organização utilizava armamento pesado e violência para controlar territórios. Entre os crimes atribuídos ao grupo estão sequestros, torturas, atentados e homicídios.
Ao todo, a operação cumpriu:
25 mandados de prisão preventiva;
1 mandado de prisão temporária;
3 medidas de monitoramento eletrônico;
afastamento de três policiais civis de Mato Grosso do Sul;
76 mandados de busca e apreensão.
Cocaína de baixa pureza era usada para substituir droga apreendida
Para evitar que os desvios fossem descobertos, o grupo teria desenvolvido um método para substituir a cocaína retirada por outra de qualidade muito inferior. A droga original, com alto grau de pureza, era trocada por uma mistura adulterada, com cerca de 10% ou menos de cocaína, segundo a PF.
Conforme a Polícia Federal, o delegado Hoffman teria facilitado a entrada de integrantes da organização criminosa na Denar e no depósito onde ficavam armazenadas drogas apreendidas por forças de segurança, como Polícia Militar, Polícia Civil e Polícia Rodoviária Federal.
A investigação aponta que, em diferentes ocasiões, a cocaína de maior qualidade era retirada do estoque e comercializada pelo grupo. Para que a diferença não fosse percebida, os criminosos colocavam no lugar uma versão adulterada.
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Segundo a PF, a mistura continha substâncias como amido de milho, aglutinantes e fermento. O grupo também teria reproduzido a identificação visual das embalagens originais e realizado testes para que a droga substituta apresentasse reação semelhante à cocaína em exames preliminares.
Com isso, a cocaína adulterada era colocada no lugar do entorpecente apreendido. Depois, o material substituído era encaminhado para destruição, conforme a investigação, pelo próprio delegado.
A PF afirma ter encontrado conversas, vídeos e imagens que mostram integrantes da organização manipulando a droga e entrando nas dependências da Denar.
A estratégia teria explorado uma falha no controle do estoque: segundo os investigadores, não havia fiscalização rigorosa sobre o grau de pureza da cocaína armazenada. A identificação feita pelos órgãos responsáveis verificava a presença da substância, mas não permitia acompanhar com precisão sua concentração.
A PF identificou a participação de policiais civis e militares de Mato Grosso do Sul e de um policial rodoviário federal de Mato Grosso. Segundo a investigação, os servidores recebiam dinheiro ou bens em troca de informações sigilosas sobre rivais da organização.
Os agentes também são suspeitos de ajudar o grupo a ter acesso a drogas apreendidas e armazenadas em unidades policiais. As informações repassadas de dentro das corporações eram usadas para acompanhar movimentos de pessoas, veículos e locais de interesse dos criminosos.
O que diz a defesa do delegado na íntegra.
“A Defesa Técnica do Delegado de Polícia Hoffman D’Ávila Cândido e Sousa informa que tomou conhecimento do cumprimento de novo mandado de prisão preventiva e de medidas de busca e apreensão no âmbito da denominada Operação Ifrit. Até o presente momento, a Defesa ainda não teve acesso integral aos autos, à decisão que fundamentou a nova custódia nem aos elementos probatórios que embasaram as medidas. Diante disso, qualquer manifestação sobre o mérito seria prematura. Assim que houver acesso completo ao procedimento, a Defesa realizará a análise técnica do caso e adotará todas as medidas processuais cabíveis, assegurando o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa.”
Além do delegado, outros 28 investigados também foram alvos da operação nesta quarta-feira (4). Veja a lista com todos os nomes aqui. Entre eles está o policial civil Douglas Tobias, que, assim como Hoffman, também foi preso em setembro.
A defesa dele informou que acompanhou o cumprimento do mandado de busca e apreensão, mas ainda não teve acesso à decisão judicial nem ao conteúdo do inquérito.
Em nota, o advogado Luiz Renê afirmou que Douglas está à disposição para prestar esclarecimentos.
"De todo modo, Douglas Tobias mais uma vez demonstrou se tratar de pessoa idônea, profissional exemplar e nada tem a esconder, estando à disposição para prestar esclarecimentos e esperando que se faça justiça", declarou.
O g1 ainda não conseguiu contato com as defesas dos demais investigados. O espaço segue aberto.

