Poucas horas depois da confirmação da vitória democrata, a deputada Zoe Lofgren, da Califórnia, anunciou sua candidatura à presidência do Comitê de Ciência da Câmara dos Representantes. Atualmente, ela ocupa o posto de principal representante do Partido Democrata no colegiado, comandado pelos republicanos.

O Partido Democrata venceu as eleições de meio de mandato nos EUA. – Crédito: Imagem gerada por IA

Em comunicado , Lofgren repudiou a atuação do governo de Donald Trump na área da ciência e prometeu intensificar a fiscalização das políticas federais para o setor. “Acima de tudo, como presidente do comitê, trabalharei para pôr fim à politização da ciência promovida por Trump. Responsabilizaremos este governo pelos danos que causou à comunidade científica dos Estados Unidos”.

Novo Congresso deve rever cortes em missões espaciais

Embora não tenha citado diretamente a NASA, a deputada poderá influenciar discussões relacionadas ao setor espacial civil. O Comitê de Ciência também acompanha as atividades do Escritório de Comércio Espacial (OSC), ligado ao Departamento de Comércio, e do Escritório de Transporte Espacial Comercial (AST), que faz parte da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA).

A mudança no comando do Congresso também poderá intensificar a fiscalização dos programas da NASA e de sua relação com empresas privadas. “É provável que o Congresso se concentre nas divergências orçamentárias, nas prioridades científicas, nos cronogramas e na SpaceX”, afirmou Clayton Swope, vice-diretor do Projeto de Segurança Aeroespacial do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, segundo o SpaceNews .

Um dos principais pontos de discussão será a diferença entre os recursos solicitados pelo governo Trump e os valores que os parlamentares consideram necessários para manter os projetos da agência. Entre as propostas anteriores estavam cortes expressivos no financiamento da pesquisa científica e o cancelamento de missões, como a de Retorno de Amostras de Marte (MSR), que prevê trazer material do planeta vermelho para a Terra.

Swope também avalia que os congressistas deverão investigar por que a NASA recebe propostas orçamentárias incompatíveis com a dimensão de seus objetivos. A SpaceX poderá enfrentar questionamentos, especialmente sobre o desenvolvimento da Starship, veículo que deverá funcionar como módulo de pouso lunar no programa Artemis. Os planos da empresa de reduzir gradualmente o uso das cápsulas Crew Dragon e dos foguetes Falcon 9 também poderão entrar em discussão.

Vitória democrata no Congresso reacende debates sobre orçamento da NASA, missões científicas, Artemis e pressões sobre a SpaceX. – Crédito: Imagem gerada por IA

Impacto dos cortes de Trump ameaça pesquisas com vacinas e tratamentos de câncer

Os efeitos dos cortes federais, no entanto, não se restringem à exploração espacial. Marcelo Zurita , presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON) e colunista do Olhar Digital , chama atenção para os prejuízos causados à pesquisa científica em diferentes áreas.

Entre os exemplos citados por ele estão os cortes nos recursos destinados a pesquisas com vacinas à base de RNA mensageiro, tecnologia importante no combate à Covid-19 e que também apresenta perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos contra o câncer.

Em relação à NASA, Zurita aponta qual decisão de Trump considera mais prejudicial para os avanços científicos. “Na NASA, um dos cortes mais sentidos foi o cancelamento da Missão de Retorno de Amostras de Marte. As evidências da possível existência de vida no Planeta Vermelho foram coletadas pelo Perseverance, mas não poderão ser analisadas aqui na Terra se essa missão não sair do papel. Sabemos que não será tão simples para o novo congresso americano, conseguir recursos para retomar todos os investimentos em todos os projetos da NASA ‘esquecidos’ na gestão Trump. Mas se existe um que atrai mais a atenção da comunidade científica, certamente é a MSR”.

Representação artística da missão Mars Sample Return, um projeto conjunto entre a NASA e a ESA para trazer amostras de Marte à Terra que foi alvo dos cortes orçamentários de Donald Trump. – Crédito: NASA/JPL-Caltech

Consenso político surge como oportunidade para recuperar projetos da NASA

Apesar das possíveis cobranças, o apoio bipartidário à exploração espacial pode favorecer a continuidade dos principais programas da NASA e dificultar a aprovação de cortes ou cancelamentos. Durante um seminário realizado na quarta-feira (4), Jack Kiraly, chefe de defesa da Planetary Society, destacou que tanto as missões tripuladas à Lua e a Marte quanto as pesquisas científicas espaciais contam com forte apoio público.

Na avaliação de Kiraly, esse interesse compartilhado pode ajudar a preservar os programas da agência, independentemente das disputas partidárias. A mudança na composição do Congresso também representa uma oportunidade para deixar de apenas defender projetos ameaçados por cortes e começar a discutir a recuperação de iniciativas científicas. Com isso, o debate sobre o financiamento da exploração espacial poderá avançar.

O dirigente da Planetary Society também espera que Elon Musk seja alvo de investigações por sua atuação à frente do Departamento de Eficiência Governamental no início do ano anterior. No entanto, não acredita que essas apurações se estendam à SpaceX. “As atividades políticas pessoais certamente serão tema de muita conversa e, potencialmente, de fiscalização. Minha esperança é que essas coisas possam permanecer separadas. Acho que, dentro do setor espacial, somos capazes de separá-las”.

Vitória democrata no Congresso pode intensificar a fiscalização sobre projetos, contratos e prazos da SpaceX. – Crédito: Imagem gerada por IA

O calendário legislativo é apertado – a sessão atual terá apenas 20 dias de trabalho após o início do período de transição, previsto para segunda-feira (9). Nesse intervalo, os congressistas deverão priorizar propostas consideradas essenciais, como a legislação agrícola e a Lei de Autorização de Defesa Nacional. Com isso, a aprovação de uma nova lei de autorização da NASA pode ficar para depois.

A maior probabilidade é que o Congresso encerre seus trabalhos sem aprovar essa legislação, como ocorreu em anos anteriores. Ainda assim, Kiraly espera que os parlamentares deem continuidade à elaboração de propostas já iniciadas.

Outra medida aguardada é a aprovação de uma resolução provisória, mecanismo que mantém o financiamento do governo enquanto não há acordo sobre o orçamento definitivo. A medida atual vence em 11 de dezembro, e uma nova resolução poderá estender os recursos até o ano seguinte.

O adiamento também poderá abrir espaço para conversas com os novos integrantes do Congresso e para a preparação do orçamento federal de 2027. A Planetary Society pretende aproveitar esse período para apresentar aos parlamentares a importância dos programas espaciais. Por isso, antecipou seu evento anual de mobilização, chamado Dia de Ação, para o início de fevereiro de 2027, no Capitólio.

Questionado sobre as prioridades do novo Congresso, Kiraly reconheceu que o setor espacial dificilmente ocupará o topo da agenda, mas defendeu que seus programas recebam atenção constante dos parlamentares.

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