Pegando emprestada uma página do manual do presidente Donald Trump, o bloco de Netanyahu está alegando, sem apresentar fundamentos, que eleitores árabes roubaram a eleição. Alguns dos aliados de Netanyahu exigem a realização de um novo pleito.
O esforço coordenado para lançar dúvidas sobre a legitimidade da eleição pode beneficiar Netanyahu, ao tornar mais difícil que seus adversários dependam do apoio de partidos árabes ou ao justificar um atraso na formação de uma nova coalizão de governo.
O primeiro-ministro e seus aliados vêm destacando duas investigações sobre supostas irregularidades eleitorais. “Até que a investigação seja concluída, uma nuvem escura paira sobre os resultados eleitorais em Israel”, escreveu Netanyahu nas redes sociais na segunda-feira.
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O rival de Netanyahu, o ex-chefe militar Gadi Eisenkot, afirmou que a iniciativa do primeiro-ministro é um ato de desespero.
“O Likud e Netanyahu sabem que estamos determinados”, disse ele em uma mensagem de vídeo na noite de terça-feira. “É por isso que continuam lançando dúvidas e tentando minar os verdadeiros resultados da eleição. Este é o último refúgio deles.”
A oposição conquistou 67 cadeiras no Parlamento, sendo 19 delas asseguradas por dois partidos árabes, cujos líderes estão determinados a remover Netanyahu do poder. Ainda não está claro qual será, em última instância, o papel desses partidos enquanto Eisenkot tenta montar uma coalizão capaz de comandar o Parlamento de 120 assentos.
Nos próximos dias, é provável que o presidente de Israel, Isaac Herzog, dê a Eisenkot a primeira oportunidade de formar uma coalizão de governo. Mas Netanyahu aproveitou as duas investigações para alimentar preocupações sobre a alta participação eleitoral entre cidadãos árabes de Israel.
O primeiro caso envolve o que a polícia israelense classificou como “tentativa de suborno eleitoral”. Mas os três homens detidos foram liberados, e pelo menos dois juízes criticaram a falta de evidências apresentadas pelos investigadores.
A agência de inteligência israelense Shin Bet conduz uma segunda investigação sobre uma possível tentativa de agentes estrangeiros de influenciar indevidamente a eleição. Mas Noam Sohlberg, juiz conservador da Suprema Corte que supervisionou a votação, afirmou que, embora as alegações de irregularidades estejam sendo investigadas, elas não terão impacto sobre o resultado eleitoral.
“Nada nessas alegações coloca em dúvida os votos dados por cidadãos árabes”, disse Sohlberg em um vídeo no domingo, no qual apareceu ao lado de altas autoridades da Justiça e da inteligência, incluindo o diretor do Shin Bet.
Quando o comitê eleitoral central de Israel votou, na quarta-feira, sobre a certificação dos resultados, representantes do bloco de Netanyahu se recusaram a aprová-los, abstendo-se ou votando contra. Ainda assim, o comitê teve votos suficientes para validar o resultado.
O bloco de Netanyahu pode agir para atrasar a posse de um novo Parlamento, no qual seus adversários terão maioria, ou tentar impedir a eleição de um novo presidente da Casa, que poderia permitir ao bloco de Eisenkot começar a aprovar legislação. Especialistas alertaram que, se Netanyahu mobilizasse sua base política para apoiar essas medidas sob o argumento de que a eleição foi ilegítima, Israel poderia entrar em território desconhecido.
“Estamos potencialmente à beira do nosso próprio momento de 6 de janeiro”, disse Reuven Hazan, professor de ciência política da Universidade Hebraica de Jerusalém. “A situação é delicada, porque eles podem transformar isso em uma questão social, e não apenas institucional. Podem convocar as pessoas para as ruas.”
Os esforços de Netanyahu para deslegitimar o voto árabe começaram muito antes da eleição de 27 de outubro. Durante a campanha, ele alertou que os partidos árabes seriam o verdadeiro poder em um governo liderado por Eisenkot, e seus aliados anunciaram planos de enviar milhares de observadores a seções eleitorais árabes para prevenir fraudes.
No dia da eleição, Netanyahu conduziu uma campanha com forte apelo racial nas redes sociais, incluindo imagens de mulheres com véu, avisos de que as eleições “estão sendo roubadas de nós” e apelos para que eleitores de direita evitassem “o fim de Israel como o conhecemos”.
Os dois casos criminais deram a Netanyahu e seus aliados mais munição.
No caso inicial, segundo uma autoridade policial e outra pessoa informada sobre o assunto, que insistiram no anonimato por não terem autorização para falar publicamente, a polícia agiu com base em uma denúncia telefônica feita por Ido Norden, chefe de gabinete de Netanyahu, na noite anterior à eleição.
Em nota, o gabinete de Netanyahu negou essa versão. A polícia israelense se recusou a comentar uma investigação em andamento.
Na manhã seguinte, antes da abertura das urnas, policiais invadiram as casas de três cidadãos árabes sob suspeita de adulteração eleitoral.
A polícia invadiu duas das residências sem obter previamente um mandado, reconheceram posteriormente autoridades policiais perante o tribunal. Na terceira residência, os agentes também não apresentaram mandado, embora não estivesse claro se haviam obtido um.
Horas depois, a polícia anunciou que os homens haviam sido detidos sob suspeita de “tentativa de suborno eleitoral” e que milhares de dólares em dinheiro haviam sido apreendidos, supostamente destinados a serem distribuídos como propina em troca de votos na Lista Árabe Unida, ou Ra’am. Autoridades do partido negaram a acusação.
Netanyahu aproveitou o anúncio, publicando sobre o caso nas redes sociais, exigindo uma investigação e incentivando israelenses de direita a votar. Seus aliados na mídia israelense repercutiram a história durante todo o dia.
Ninguém foi formalmente acusado em conexão com o caso. Desde então, os três detidos foram liberados.
Um juiz que ordenou a libertação de um deles afirmou que a polícia apresentou poucas provas além do apoio do homem ao Ra’am. Outro juiz, ao liberar um segundo homem, declarou que os agentes “tiveram dificuldade em demonstrar uma base probatória”.
O segundo caso se baseia em informações fornecidas por David Zini, diretor do Shin Bet. Sohlberg, o juiz da Suprema Corte, afirmou que a inteligência sigilosa sugeria que agentes estrangeiros poderiam ter tentado influenciar a eleição, segundo carta do magistrado datada de 28 de outubro.
Zini declarou que aceitou o cargo de liderança do Shin Bet devido à sua capacidade de ser “leal à liderança eleita”.
Sohlberg escreveu que deu a Zini uma semana para confirmar ou refutar as suspeitas. Separadamente, Sohlberg classificou as alegações como graves, mas afirmou que, mesmo se confirmadas, elas não comprometeriam a integridade da eleição.
Segundo duas autoridades israelenses de segurança pública informadas sobre as discussões, Zini tentou interrogar quatro políticos árabes de destaque em conexão com o caso, incluindo o líder do Ra’am, Mansour Abbas. Eles falaram sob condição de anonimato, pois não estavam autorizados a comentar publicamente. O Shin Bet não respondeu a um pedido de comentário.
A procuradora-geral de Israel, Gali Baharav-Miara, recusou-se a autorizar os interrogatórios, afirmando que o Shin Bet não apresentou evidências que justificassem questioná-los, disseram as duas autoridades.
“Qualquer pessoa que precise ser investigada será investigada, mas ninguém será investigado sem uma base probatória”, afirmou o gabinete de Baharav-Miara.
Apoio da mídia
As falhas dos dois casos não impediram aliados de Netanyahu na mídia israelense de alegar que ele poderia ter tido uma chance melhor de formar uma coalizão majoritária não fosse pelas ações de operadores árabes.
O Canal 14, que reproduz assiduamente os argumentos de Netanyahu, acusou cidadãos árabes de praticar “terrorismo nas urnas”.
Os assessores políticos de Netanyahu continuam afirmando que a votação deveria ser anulada.
“Metade do país não acredita nos resultados eleitorais”, disse Guy Levy, porta-voz do Likud, em entrevista.
Autoridades eleitorais afirmaram na quarta-feira que analisaram milhares de reclamações e não encontraram “nenhuma evidência de irregularidades que comprometesse a integridade da eleição ou afetasse seus resultados”.
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times.
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