A alta salinidade da Lagoa de Araruama ajudou a realizar o sonho de um homem que vive sem enxergar há mais de três décadas: nadar em águas abertas. Aos 65 anos, João Carlos Alcântara Queiroz encontrou na Praia de São Bento, em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio, o cenário ideal para superar um dos maiores desafios de sua vida.
Classificada como a maior laguna hipersalina permanente do mundo, a Lagoa de Araruama e o Canal do Itajuru, que a conecta com o mar, e onde está localizada a Praia de São Bento, oferecem condições que favorecem a flutuação, facilitando a prática da natação. Segundo o biólogo Eduardo Pimenta: "quanto mais sal, mais se flutua".
"A Lagoa foi a principal responsável para eu poder enfrentar um dos maiores desafios da minha vida. Lá me sinto leve. A Lagoa me dá mais resistência, força e velocidade. E eu me sinto, principalmente, livre!", contou João.
A hipersalinidade da Lagoa de Araruama ajuda homem, cego há 30 anos, a vencer o desafio de aprender a nadar em águas abertas.
João Carlos perdeu a visão em decorrência de uma doença que afetou a retina. Na época, trabalhava no Ministério da Fazenda e cursava Direito, mas precisou se aposentar por invalidez e interromper a graduação.
Em busca de mais autonomia, João decidiu aprender a nadar. Segundo ele, a prática da natação por pessoas cegas ainda era vista como um tabu, especialmente para quem precisava começar do zero.
Ainda na piscina, recebeu orientações sobre como se deslocar na água e identificar a proximidade da borda sem bater a cabeça. A experiência, no entanto, despertou o desejo de ir além e explorar novos ambientes para a prática esportiva.
“Aprendi a nadar sem enxergar, mas a minha vontade era de ir pro mar”, contou.
João compartilhou esse desejo com o professor que já o acompanhava nas atividades de musculação. Com o apoio dele, passou a praticar natação em águas abertas e encontrou na Praia de São Bento um ambiente onde se sentiu seguro e confortável.
'A minha experiência era na piscina. Eu sabia que tinha uma raia e tinha uma técnica de contagem de braçadas para chegar na outra borda. Já na Lagoa é bem diferente e, no início, eu me senti um pouco deslocado. Hoje eu vejo que a Lagoa de Araruama faz todo o sentido para a minha natação", explicou.
Saneamento e recuperação da laguna
O Canal do Itajuru é margeado por condomínios e residências o que, segundo o biólogo Eduardo Pimenta, favoreceu despejo de esgoto na década de 1990.
A praia onde João treina fica no Canal do Itajuru, que conecta a Lagoa de Araruama ao Oceano Atlântico. Por causa dessa ligação permanente com o mar, o ambiente é tecnicamente classificado como uma laguna, embora seja popularmente conhecido como lagoa.
Ao longo do canal, há condomínios e residências que, segundo o biólogo Eduardo Pimenta, despejavam esgoto sem tratamento na água até o fim da década de 1990.
A prática, em um ambiente hipersalino e com circulação restrita de água, favorecia um processo classificado como eutrofização. O despejo de esgoto estimulava o crescimento excessivo de algas e, segundo o biólogo Eduardo Pimenta, a água doce presente nesses resíduos tende a permanecer na superfície quando lançada em um corpo d'água com alta salinidade. Isso cria uma espécie de barreira que dificulta a oxigenação das camadas mais profundas da laguna.
“Reduzindo a disponibilidade de oxigênio acaba afetando a vida aquática, o que também compromete significativamente a balneabilidade”, explica.
Eduardo Pimenta afirma que, em meados de 1990, as condições da água da laguna foram significativamente prejudicadas, o que mobilizou a sociedade a cobrar medidas de recuperação ambiental. Segundo o biólogo, a melhora da balneabilidade observada ao longo dos anos está diretamente ligada aos investimentos em redes coletoras e estações de tratamento de esgoto.
Na avaliação de Pimenta, atualmente entre 80% e 85% do corpo hídrico da Laguna de Araruama apresenta condições boas ou ótimas para banho. Ele destaca que os avanços no saneamento contribuíram não apenas para a recuperação ambiental do ecossistema, mas também para o fortalecimento de atividades praticadas na laguna, como natação, canoagem e pesca.
“Não há nada que seja estanque. Isso tudo está interligado”, afirma.
A Lagoa de Araruama hoje é considerada uma área de lazer e algumas praias receberam inclusive o selo internacional Bandeira Azul de qualidade da água. Segundo João Carlos, os cuidados com saneamento trouxeram a segurança que faltava para se aventurar no canal.
"Eu sinto que a água é limpa, é quase como se eu estivesse no mar aberto, só que com menos ondas. Com o avanço dos meus treinos estou tomando coragem de ir mais fundo e acredito que, futuramente, vou quebrar mais um obstáculo na minha vida e nadar em praias oceânicas", disse.
João Carlos decidiu aprender a nadar aos 65 anos e enfrentou as barreiras da cegueira no esporte.
O relato de João ajuda a mostrar como a experiência de quem utiliza a laguna está diretamente ligada a um trabalho que acontece longe dos treinos: a coleta e o tratamento do esgoto gerado no entorno. Segundo a Prolagos, o sistema de Captação em Tempo Seco (CTS) em tempo seco no Canal do Itajuru funciona desde 2004.
“A adoção deste sistema contribuiu diretamente para acelerar a redução do lançamento de esgoto na lagoa, especialmente em áreas onde a implantação imediata de redes convencionais não era possível. O CTS é uma barreira que intercepta o esgoto que chega às galerias de drenagem durante períodos sem chuva, direcionando esse material para o sistema de coleta e, posteriormente, para as estações de tratamento". explicou Ricardo Crescencio, Gerente de Serviços da Prolagos.
A concessionária informou que mantém um cinturão coletor e estações elevatórias ao longo do Canal do Itajuru. Uma das principais estruturas desse sistema é a Estação Elevatória de Esgoto São Bento, instalada às margens do canal.
Segundo a Prolagos, técnicos acompanham o funcionamento dos sistemas de água e esgoto, 24 horas por dia, de forma remota.
“O sistema conta com sensores que permitem monitorar, em tempo real, os níveis dos poços de bombeamento, a pressão e o funcionamento das bombas. Essas informações são disponibilizadas em telas para os operadores que, quando necessário, podem realizar acionamentos e ajustes à distância. Esse monitoramento contínuo permite antecipar problemas e direcionar as equipes de manutenção com mais agilidade”, finalizou Crescencio.

