Pelo menos cinco mulheres procuraram a polícia para denunciar Fernando Vasco Fernandes, de 38 anos, de Sertãozinho (SP), por suspeita de estelionato. Segundo elas, ele iniciava relacionamentos por aplicativos de namoro, passava a pedir dinheiro e não devolvia os valores.
Em dois dos casos, as vítimas relataram prejuízos de R$ 26 mil e R$ 30 mil. À EPTV, afiliada da TV Globo, elas explicaram que os relacionamentos começaram com demonstrações de carinho, elogios e planos de casamento e de ter filhos e depois vinham pedidos de dinheiro, promessas de pagamento e ameaças durante as cobranças.
Para a psicóloga Dariene Castellucci, esse tipo de golpe explora necessidades comuns a qualquer pessoa, como o desejo de ser amada, reconhecida e de construir uma relação de confiança.
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De acordo com a especialista, a situação não está relacionada à inteligência ou ao grau de instrução das vítimas.
"Esses golpistas se valem de necessidades legítimas humanas, como ser amado, pertencer, ser reconhecido e construir relações de confiança. Eles fazem esse mapeamento e entendem aquilo que faz sentido para cada mulher."
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Na legislação brasileira, o chamado estelionato sentimental não é um crime específico, mas a conduta pode ser enquadrada como estelionato, dependendo das provas reunidas. A pena prevista é de um a cinco anos de prisão e multa. (entenda abaixo).
Fernando não foi localizado para comentar as acusações. A EPTV, afiliada da TV Globo, esteve em um endereço ligado a ele em Sertãozinho, mas não o encontrou. Nenhum advogado que o represente foi localizado até a última atualização desta reportagem.
Fernando Vasco Fernandes, de Sertãozinho (SP), denunciado por suposto golpe contra mulheres
Afeto como instrumento de controle
Segundo Dariene, quem aplica esse tipo de golpe observa os desejos, as fragilidades e as expectativas de cada pessoa antes de construir uma relação aparentemente próxima.
A psicóloga afirma que o afeto passa a ser utilizado como instrumento de manipulação: a vítima acredita que está ajudando alguém com quem mantém uma relação e que o dinheiro será devolvido.
"Isso não está vinculado à capacidade de pensar, de raciocinar ou ao nível de instrução. Todos nós temos essas necessidades e o desejo de sermos amados. Eles se valem do sentimento para manipular e controlar essas mulheres."
Uma das denunciantes, moradora de Ribeirão Preto (SP), afirmou que sentia vergonha de contar à família o que havia acontecido. Ela diz ter transferido cerca de R$ 13 mil por Pix e comprado um iPhone de aproximadamente R$ 13 mil, parcelado em 20 vezes, depois que Fernando se comprometeu a pagar as prestações.
Com dívidas, a mulher disse que recorreu a agiotas e chegou a tentar tirar a própria vida. Depois de receber ajuda de uma amiga, procurou a polícia.
Dariene reforça que esse tipo de manipulação pode atingir qualquer pessoa e não deve ser atribuído à falta de inteligência da vítima.
"Isso vale para qualquer pessoa, para mim, para você, para essas mulheres. Não está vinculado à capacidade de pensar, de raciocinar ou ao nível de instrução."
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Quais são os sinais de alerta?
Demonstrações exageradas de carinho logo no início da relação, intimidade construída rapidamente e planos para casamento ou filhos estão entre os comportamentos que exigem atenção, segundo a psicóloga.
"Constrói-se uma intimidade muito rápida e, principalmente, planos de um futuro junto. Intimidade e confiança, não apenas nas relações amorosas, são construídas a longo prazo. Tudo aquilo que é muito intenso de imediato já é um sinal de alerta."
Nos relatos apresentados à polícia, as mulheres afirmam que Fernando se apresentava como engenheiro agrônomo e fazendeiro. Ele alegava problemas como roubo, bloqueio de contas bancárias e falta de dinheiro para liberar produtos.
Uma das denunciantes guardou áudios em que ele a chamava de "amor" enquanto pedia valores entre R$ 250 e R$ 2 mil. Segundo ela, os pedidos eram acompanhados da promessa de que o dinheiro seria devolvido.
Dariene afirma que uma relação saudável precisa permitir recusas sem pressão, ameaças ou mudanças de comportamento.
"Responsabilizar-se financeiramente por alguém não é uma demonstração de afeto. Uma relação saudável se estabelece com limites, com espaço para dizer não e, principalmente, com a nossa autonomia preservada."
Fernando Vasco Fernandes, de Sertãozinho (SP), denunciado por suposto golpe contra mulheres
O que diz a lei?
O estelionato sentimental não aparece com esse nome no Código Penal. Segundo o advogado criminalista Leonardo Pontes, estes casos podem ser enquadrados no artigo 171, quando há obtenção de vantagem ilícita, prejuízo à vítima e uso de fraude para induzi-la ou mantê-la em erro.
"Não temos na legislação brasileira um tipo penal específico denominado estelionato sentimental. O enquadramento pode ocorrer no artigo 171 do Código Penal quando alguém obtém vantagem ilícita em prejuízo da vítima por meio de uma relação amorosa ou de confiança."
A pena prevista para o estelionato é de um a cinco anos de prisão e multa. Na fraude eletrônica, ela varia de quatro a oito anos, também com multa.
O enquadramento na modalidade eletrônica depende da maneira como o crime foi praticado. O simples fato de duas pessoas terem se conhecido por um aplicativo de namoro não define automaticamente a fraude eletrônica.
O Código Penal prevê essa modalidade quando informações da vítima ou de terceiros são obtidas por meio de redes sociais, ligações, e-mails, aplicativos ou outros meios fraudulentos semelhantes.
A pena ainda pode ser aumentada se o criminoso utilizar servidor mantido fora do Brasil ou se a vítima for idosa ou considerada vulnerável.
Desde maio de 2026, também não é mais necessária uma manifestação formal da vítima para que o Ministério Público possa apresentar denúncia por estelionato. A mudança ocorreu depois que a Lei 15.397 revogou o trecho do Código Penal que condicionava o processo à representação.
"Antes de maio, a vítima precisava representar contra quem praticou o estelionato. Com a mudança na lei, essa representação deixou de ser necessária, e o Ministério Público pode denunciar se entender que existem elementos", afirma o advogado.
Transferência voluntária não afasta fraude
Em uma decisão na esfera cível, de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) entendeu que o fato de a vítima entregar o dinheiro voluntariamente não afasta a ilicitude quando a transferência é resultado de uma fraude.
Naquele caso, um homem havia simulado um relacionamento amoroso e convencido uma mulher a contrair empréstimos em benefício dele. Segundo o tribunal, a ilusão criada foi determinante para que ela entregasse o dinheiro.
"A essência do golpe está justamente na ilusão criada. A vítima paga voluntariamente porque foi enganada. Dizer que ela transferiu ou entregou o dinheiro porque quis não afasta, por si só, a fraude", explica Pontes.
A decisão também diferencia os gastos comuns de um relacionamento das despesas provocadas pela fraude. Presentes, jantares e viagens, por exemplo, não geram automaticamente direito à devolução.
Já empréstimos, dívidas, compras e outras despesas extraordinárias feitas em benefício exclusivo da outra pessoa podem resultar em indenização por danos materiais e morais, desde que a fraude seja comprovada.
Como guardar provas
Além da investigação criminal, a vítima pode recorrer à Justiça na tentativa de recuperar o dinheiro e pedir indenização.
Para isso, Leonardo Pontes diz que é importante preservar os registros da relação e das movimentações financeiras.
"Conversas de WhatsApp, transferências bancárias e mensagens por outros aplicativos são muito importantes para que a ação tenha uma sustentação sólida e possa viabilizar o ressarcimento", afirma o criminalista.
Entre as provas que podem ser apresentadas estão:
Conversas e áudios enviados por aplicativos;
Comprovantes de transferências e pagamentos;
Faturas de cartão e contratos de empréstimos;
Fotografias e informações dos perfis utilizados;
Mensagens com promessas de pagamento; e
Registros de cobranças e eventuais ameaças.
Segundo as denunciantes, Fernando mudava de comportamento quando era cobrado. Uma mulher afirma que ele passou a ser grosseiro e fez menção a um suposto policial para intimidá-la.
Outra apresentou um áudio em que o homem diz que não seria preso por ter formação superior e que não devolveria o dinheiro. O g1 não conseguiu confirmar de forma independente que a voz na gravação é de Fernando.
Os relatos e os materiais reunidos pelas mulheres foram encaminhados à Polícia Civil. As circunstâncias de cada caso ainda são apuradas.
*Sob a supervisão de Flávia Santucci
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