Aos 14 anos, enquanto escrevia em um caderno em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, a rapper Ajulliacosta não imaginava que, aos 28, estaria subindo pela segunda vez no palco do Afropunk Brasil. O evento é considerado o maior festival de cultura negra do mundo e acontece nos dias 7 e 8 de novembro, no Parque de Exposições Salvador.
A volta da cantora ao festival, três anos após sua primeira apresentação, acontece em um momento de maior amadurecimento. "Eu volto com mais maturidade, eu volto até com uma certa gratidão pelo festival, porque, a partir dele, me abriu muitas portas", disse em entrevista ao g1.
A preparação envolve diferentes elementos da apresentação, como balé, figurinos, estrutura de palco e participações especiais. A artista preferiu não revelar detalhes sobre as surpresas previstas para o show, mas afirmou que trabalha para transformar a apresentação em uma experiência especial tanto para o público quanto para a própria trajetória.
Ajulliacosta celebra raízes no rap, destaca força do AFROPUNK Brasil e se prepara para o Grammy Latino
A relação com o festival, no entanto, vai além da oportunidade de cantar em um grande evento. Para a rapper, o Afropunk tem um papel importante ao criar um ambiente em que artistas negros podem ser reconhecidos a partir de referências culturais e de uma sensibilidade que nem sempre encontram em outros espaços.
"Só a gente para olhar para a gente com tanta sensibilidade".
Para Aju, como é carinhosamente chamada pelos fãs, a identificação entre artistas e público é uma das características centrais do festival, que celebra seus corpos, suas estéticas e suas referências sem precisar se adaptar a padrões externos. A rapper ainda destaca que a moda, a música e as diferentes expressões individuais se encontram e formam um movimento coletivo de pertencimento.
"É um momento onde a gente se sente à vontade, onde a gente pode ser livre com o nosso corpo, com a nossa estética. É onde a moda tá muito presente também e cada um vai trazendo a sua referência, sabe? E ali cria um grande movimento", explicou.
Outro ponto destacado pela paulista foi o fato dos palcos serem lado a lado. "[Em 2023] Eu cantei em um palco que era igual ao de Alcione, que ficava ao lado do de Alcione. Não tem esse lugar de diminuir o artista. [A organização] Coloca a gente em uma régua de igualdade só por tá fomentando e continuando aquilo que os outros fizeram", enfatizou.
Do caderno aos palcos
Ajulliacosta concorre ao Grammy Latino com o álbum “Novo Testamento”
A música sempre esteve presente na vida de Ajulliacosta, mas foi a partir da escrita que a artista descobriu o próprio espaço no rap. Ainda adolescente, ela costumava registrar ideias em um caderno, sem imaginar que aquelas palavras poderiam ultrapassar o papel e ganhar o mundo.
Na época, com apenas 14 anos, a cantora acreditava que escrever era algo comum, sem perceber que aquela capacidade poderia ser um diferencial. Foi o contato com outros artistas e o reconhecimento de pessoas próximas que a ajudaram a entender que havia espaço para sua voz na música.
"Eu não só escrevo, eu também sou boa no que eu escrevo".
A trajetória construída desde então ganhou novos capítulos com o retorno ao Afropunk Brasil e a indicação ao Grammy Latino. Para a cantora, os dois acontecimentos representam oportunidades de ampliar o alcance do próprio trabalho, mas também de reafirmar os valores que orientam sua relação com o rap.
Aju no Grammy Latino
Ajulliacosta foi indicada ao Grammy Latino
Poucos dias depois do festival, Ajulliacosta tem outro compromisso importante: participar do Grammy Latino. A indicação foi recebida com surpresa pela artista, que concorre com o "Novo Testamento" (2025) na categoria Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa. "Foi uma delícia ser indicada ao Grammy, foi bom demais", contou.
A expectativa de conquistar o troféu existe, claro, mas ela também considera importante aproveitar o processo como parte de sua formação e de sua trajetória profissional.
"É lógico que a gente quer trazer o Grammy para casa. Está todo mundo tipo: 'Vamos trazer, vamos buscar'. Mas, de qualquer forma, eu vou viver esse momento".
A indicação representa mais um marco para a carreira da jovem. Da cena de rap de Mogi das Cruzes a uma premiação internacional, o percurso da cantora passou pelo reconhecimento de seu trabalho, pela ocupação de novos espaços e pela preservação de uma identidade artística ligada ao rap.
Entre a música e o empreendedorismo
Ajulliacosta revela desafios da carreira de cantora e empresária
Além da carreira musical, Ajulliacosta também administra a AjcShop, uma marca de roupas autoral conectada à cultura hip-hop, à estética preta e à valorização de diferentes corpos e identidades.
Conciliar as duas atividades tem exigido mudanças na maneira como ela trabalha, sobretudo por precisar dividir responsabilidades e confiar processos a outras pessoas.
Durante muito tempo, a artista procurou acompanhar de perto todas as etapas dos projetos:
no negócio, participava de tarefas como costura e atendimento às clientes;
na música, também gostava de estar envolvida diretamente em tudo o que acontecia.
Com o crescimento das atividades, porém, ela percebeu que não seria possível manter o mesmo nível de participação em cada detalhe.
"Para mim, o aprendizado mais difícil é que não ia dar para dar conta de tudo".
O desafio, segundo a cantora, está relacionado ao apego aos próprios processos e à dificuldade de delegar tarefas quando se tem uma visão específica de como algo deve ser feito. Ao mesmo tempo, ela passou a reconhecer que outras pessoas podem contribuir com soluções diferentes e igualmente boas.
A experiência de liderança, dessa forma, também se tornou um processo de aprendizado, já que dividir responsabilidades não significa abandonar o controle sobre a própria trajetória, mas criar condições para que os projetos continuem crescendo sem depender exclusivamente de uma pessoa.
'O que a Julia quer? O que a Julia vai ser?'
Ajulliacosta fala sobre legado no rap
Quando pensa na maneira como gostaria de ser lembrada, Ajulliacosta destaca aquilo que pretende construir para a música brasileira. A cantora deseja ser reconhecida como uma artista que ocupou os espaços que considerava possíveis e necessários, sem se limitar às barreiras impostas ao longo do caminho.
Um dos pontos centrais dessa visão é a relação com o rap. Para ela, o crescimento profissional não deve significar o afastamento das referências que ajudaram a formar sua identidade.
"Eu acho que o rap me formou como ser humano, então ele tem que estar nas minhas atitudes também, nas coisas que eu vou trazer para o mundo".
A preocupação da artista vai além da continuidade de um gênero musical em seu repertório. O maior desejo dela é colaborar para que o rap continue em transformação e mantenha sua força.
Ao olhar para a própria história, Ajulliacosta reúne diferentes dimensões da experiência artística: a escrita que começou em um caderno, o apoio de quem reconheceu seu talento, a construção de uma carreira, os desafios do empreendedorismo e a chegada a palcos de projeção internacional.
O que conecta esses momentos é justamente a intenção de crescer sem romper com as próprias origens. Para a cantora, ocupar novos espaços não precisa significar deixar para trás aquilo que a formou, pelo contrário: é a partir dessa identidade que ela pretende seguir construindo seu lugar na música brasileira.
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