Usamos um sinônimo quando queremos evitar a repetição de uma palavra. Para isso, recorremos a outra de mesmo significado ou próximo. Se precisarmos substituir o substantivo “rádio” por algum motivo, não é exagero dizer que podemos trocá-lo pelo nome de José Desidério e a associação estará feita.
Neste Dia do Radialista, comemorado em 7 de novembro, o g1 fala da trajetória de José Desidério, profissional de rádio que, aos 83 anos, com quase 65 de carreira e ainda na ativa, fez do meio de comunicação um sentido de vida.
“Eu almoço rádio, durmo rádio, rezo rádio, o rádio é tudo. É minha vida e razão de ser. E quero transmitir o fim do mundo também. É de rádio? Então, estou aí”, afirma.
Nascido em Conchas (SP), Desidério escolheu Sorocaba (SP) para morar, decisão tomada em função da paixão pelo rádio. O município, que era apenas uma parada da viagem que tinha São Paulo como destino final, deu a ele a primeira oportunidade profissional na comunicação em 1962.
“Meu pai me deu 6 mil cruzeiros, o que corresponderia hoje a uns R$ 600, para pagar uma pensão. E fui embora para São Paulo, com uma maleta e duas ou três roupas. Quando o trem parou em Sorocaba, desci para dormir na casa do cunhado do meu irmão, que me estimulou a visitar as três rádios da cidade, que ficavam na região central: Vanguarda, Cacique e Clube”.
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Depois de um teste, Desidério acabou contratado pela rádio Vanguarda e, dessa forma, o sonho de infância começou a ser realizado. Ele conta que era alucinado por rádio desde os 6 anos, quando ouvia os narradores de futebol e, depois, os imitava. Com 14 anos e leitor assíduo de “A Gazeta Esportiva”, ele enviou uma carta ao editor-chefe do jornal, Thomaz Mazzoni, com perguntas sobre futebol e que revelavam o interesse do menino pelo esporte e pela comunicação.
“Eles publicaram a carta no jornal ‘A Gazeta’, que não circulava no interior. O marido de uma professora viu, ela recortou, levou na escola e disse que eu tinha recebido um elogio impressionante. Na carta, o editor disse que gostaria de me conhecer e eu fui com o meu irmão mais velho, Lázaro. O Thomaz Mazzoni nos levou na redação, foi mostrando tudo, me presenteou com os livros dele. Quando eu voltei para a minha cidade, já não era mais o mesmo”, conta Desidério.
José Desidério: radialista de Sorocaba (SP) tem quase 65 anos dedicados ao rádio
Sonho de menino
A visita à redação de um jornal alimentou ainda mais o desejo do garoto de trabalhar como locutor esportivo em uma rádio, um sonho que orientou todos os passos de Desidério até a primeira oportunidade na Vanguarda.
“Cheguei lá e disse que sabia transmitir jogo, mas nunca tinha trabalhado em rádio. O Ferraz Filho era o diretor de esportes e o locutor titular da Vanguarda. Ele me colocou para acompanhar no estúdio como ele apresentava e fui orientado a procurar o Joaquim Loureiro para cobrir o treino do Estrada. No dia seguinte, eu levei as informações e, no ar, o Ferraz Filho me apresentou como novo contratado. Tudo porque eu ouvia rádio desde os 6 anos.”
O susto do anúncio da contratação ao vivo foi sucedido por outra situação inesperada. No segundo dia na rádio, Ferraz Filho não conseguiu chegar para os programas e coube ao iniciante apresentar os programas “São Bento em Marcha” e “Expressinho Tricolor”, sendo que este último passou a ser comandado por Desidério após esse “teste”.
A oportunidade para primeira transmissão esportiva também surgiu dessa forma. “O Salomão [Pavlovsky, fundador da rádio Vanguarda] chegou e disse que o Ferraz Filho não poderia transmitir o jogo do São Bento à noite, no Humberto Reale. Era um jogo amistoso e ele anunciou que eu iria fazer. Só que eu trabalhava na Companhia Nacional de Estamparia à noite, emprego que garantia o dinheiro para pagar a pensão onde eu fui morar. Fiz a transmissão e faltei na fábrica. Só não fui demitido porque disse a verdade para o gerente, que era torcedor roxo do São Bento e ouviu a transmissão”, detalha o radialista.
Essa situação, no entanto, fez Desidério tomar a decisão de sair da estamparia logo depois para se dedicar exclusivamente ao rádio, trabalho que ele desejou desde criança.
Trabalhar em rádio era o sonho de menino de José Desidério, que começou a carreira profissional em Sorocaba (SP)
De 1962 a 2026, Desidério acumulou experiência e exerceu muitas funções em rádio. Foi locutor esportivo, repórter, apresentou programas musicais, foi discotecário e diretor de jornalismo. Além da Vanguarda, trabalhou nas rádios Cacique, Clube/Boa Nova e Ipanema/Jovem Pan Sorocaba, onde atua até hoje; Gazeta (São Paulo); Cultura/CBN (Campinas), entre outras.
Em quase 65 anos de profissão, o radialista montou um acervo variado de registros, entrevistas e narrações. Entrevistou, por exemplo, mais de uma vez, o jogador Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Um dos momentos que mais emocionou Desidério aconteceu na final do Campeonato Paulista de 1973, em um jogo entre Santos e Portuguesa, na Vila Belmiro.
“Estava muito frio e já tinham tomado a camisa dele. Macedo, massagista do Santos, corria atrás do Pelé e jogou um agasalho nas costas dele. Quando o jogador estava entrando no vestiário, eu estava no final da transmissão e pedi uma palavrinha. O Pelé perguntou se eu estava com frio, eu disse que sim e ele me deu o agasalho”, relembra.
Desidério destaca, também, um autógrafo que ganhou de Pelé após uma entrevista do jogador para a TV Gazeta, da qual participou em 1979. “Ele chegou a dizer que era meu admirador, que gostava das minhas transmissões. Depois, o Pelé perguntou se eu tinha caneta e papel. Eu disse que não. Alguém deu uma caneta e eu puxei a minha carteira profissional. Ele me deu um autógrafo ali”.
Ainda no mundo esportivo, pela Gazeta, de São Paulo, o radialista participou da transmissão do jogo inaugural do Estádio Municipal Walter Ribeiro (CIC), entre São Bento e São Paulo, em 1978, quando o tricolor paulista venceu o Azulão por um a zero; e foi narrador de jogos da Copa do Mundo do mesmo ano, realizada na Argentina.
José Desidério entrevistando Pelé, em 1963; e um autógrafo do jogador dado na carteira de trabalho do radialista, em 1979
… e com as personalidades
Ao longo dos anos, Desidério também entrevistou artistas, personalidades, políticos e autoridades. Entre esses entrevistados, estiveram os cantores Sidney Magal, Fábio Jr., Alaíde Costa e Caetano Veloso; o arranjador norte-americano Ray Conniff; os atores Bete Mendes e Sérgio Mamberti; e o apresentador Silvio Santos.
A entrevista com Silvio Santos, aliás, foi inusitada. Em outubro de 1975, Desidério foi participar do programa do apresentador na TV Tupi. No caminho, ouviu em “A Voz do Brasil” que o governo havia dado a concessão do primeiro canal de televisão do comunicador. Só que, segundo o radialista, o próprio beneficiado ainda não sabia.
“O Silvio Santos entrou no palco e começou a cumprimentar os participantes. Eu disse que o governo tinha dado a ele um canal de televisão. Ele perguntou do que eu estava falando e saiu. Depois, voltou e perguntou como eu sabia. Perguntei se ele dava uma palavrinha para a Rádio Clube de Sorocaba e ele começou a falar”, relata o radialista, que, apesar da entrevista, nunca fez uma foto com o apresentador.
Além da atuação no jornalismo esportivo, José Desidério entrevistou inúmeras personalidades ao longo dos quase 65 anos de carreira
“Existo em função do rádio”
Preparado para a "transmissão do fim do mundo", como brinca, José Desidério segue em plena atividade e acredita na força e na relevância do rádio, um meio de comunicação que se tornou indissociável à vida dele a ponto de transformar substantivo e nome próprio em sinônimos.
“Essa foi minha vida de rádio. Eu existo em função do rádio, porque eu tenho certeza absoluta que, se não desse certo, Deus faria com que eu fosse uma válvula ou um transistor, mas dentro do rádio. Eu agradeço muito ao rádio, tudo o que ele me deu me fez feliz”, completa.
Trajetória do radialista José Desidério é marcada pela convicção de que o sonho seria realizado e pelas oportunidades aproveitadas
Com 14 anos, José Desidério enviou uma carta para o editor-chefe do jornal "A Gazeta Esportiva" e a teve publicada
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