Na reta final da campanha, Vance mudou de estratégia: passou a mencionar menos Trump e a concentrar seus discursos em temas associados à sua própria identidade política, como nacionalismo econômico, segurança pública e uma atuação mais moderada dos Estados Unidos no exterior.
A mudança foi identificada pela Reuters em uma análise de seis discursos realizados desde a convenção republicana, em setembro. Nesse período, o vice-presidente evitou dar destaque a políticas emblemáticas de Trump, incluindo a guerra contra o Irã e as deportações.
O movimento ocorreu enquanto pesquisas apontavam que a queda na popularidade do presidente prejudicava os candidatos republicanos.
Segundo duas pessoas familiarizadas com a estratégia, a mudança foi deliberada. Vance e seus assessores consideravam que os temas defendidos pelo vice-presidente tinham apelo eleitoral e permitiam que ele se apresentasse como uma voz de referência dentro do movimento conservador.
A estratégia ganhou relevância após os democratas conquistarem o controle da Câmara e do Senado nas eleições de terça-feira (3) .
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Vance culpa guerra com Irã por derrota republicana
Na quarta-feira (4), um dia após as eleições, Vance deu um passo mais explícito para marcar suas posições políticas.
Em uma publicação nas redes sociais, atribuiu à guerra contra o Irã parte central da responsabilidade pela derrota republicana e apresentou propostas para a recuperação do partido.
O vice-presidente defendeu o encerramento imediato do conflito e pediu que os republicanos priorizassem a redução do custo de vida, reavaliassem a política externa e reformulassem o relacionamento dos Estados Unidos com Israel.
As declarações contrastaram com a postura de Trump, que classificou as preocupações dos americanos com o custo de vida como uma “farsa” dos democratas e continua defendendo a guerra iniciada após pressões do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.
Trump reconheceu que o conflito contribuiu para a derrota republicana, principalmente devido ao aumento dos preços da gasolina, mas manteve sua defesa da operação militar.
“Eu não teria feito nada diferente”, disse o presidente a jornalistas na quarta-feira.
A manifestação de Vance marcou a primeira vez em que o vice-presidente se posicionou publicamente a favor do encerramento da guerra.
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Mudança de discurso não representa rompimento com Trump
Apesar das diferenças de posicionamento, integrantes do governo afirmam que Vance não está rompendo politicamente com Trump .
Três pessoas familiarizadas com as comunicações da Casa Branca e do vice-presidente disseram à Reuters que a então chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, havia sido informada antecipadamente sobre a publicação.
A agência não conseguiu determinar se Trump também tinha conhecimento prévio do conteúdo.
Na sexta-feira (6), o presidente reorganizou a cúpula da Casa Branca, substituindo Wiles por Stephen Miller, em uma mudança que sinaliza a intenção de reforçar políticas mais rígidas de seu governo.
As declarações de Vance também receberam apoio público de Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente, e de outros aliados conservadores.
Representantes do vice-presidente se recusaram a comentar o assunto. Já a Casa Branca remeteu a Reuters às declarações de Trump na quarta-feira, quando afirmou compreender a avaliação de Vance sobre os resultados eleitorais.
Vice-presidente busca construir identidade própria para 2028
A mudança de estratégia oferece uma indicação de como Vance, de 42 anos, poderá se apresentar politicamente à medida que os republicanos começam a discutir o futuro do partido após Trump.
Embora ainda não tenha anunciado se disputará a Presidência em 2028, o vice-presidente é considerado um dos nomes potenciais para a sucessão republicana.
O desafio, segundo integrantes do partido, será preservar o apoio de boa parte da coalizão eleitoral construída por Trump e, ao mesmo tempo, estabelecer diferenças em relação às políticas que provocaram desgaste entre os eleitores.
O próprio presidente já havia alimentado especulações sobre uma eventual disputa entre JD Vance e Marco Rubio pela sucessão republicana em 2028 , embora não tenha declarado apoio formal a nenhum candidato.
A construção de uma identidade própria também ocorre diante de um cenário político mais desafiador para os republicanos, após a perda do controle das duas Casas do Congresso.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada antes das eleições havia mostrado a aprovação de Trump próxima do mínimo histórico, com parte expressiva do eleitorado encarando a votação legislativa como uma oportunidade de se manifestar contra o presidente.
Para Vance, a derrota abre espaço para defender uma mudança de prioridades dentro do partido, mas também o coloca diante do desafio de se diferenciar de um governo do qual continua sendo uma das principais figuras.
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