Foi a Copa com mais viradas da história, e a eleição segue o mesmo roteiro. Três dias antes do primeiro turno, o Datafolha dava Lula com 45% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro com 40%. Nas urnas, o placar se inverteu: Flávio fez 47%, Lula, 45%. A primeira virada já aconteceu. Pesquisa não é placar, e primeiro turno não é resultado final. Digo por experiência: a maior parte das eleições em que trabalhei, desde 2010, era dada como perdida. Aprendi a desconfiar de quem decreta o resultado antes da apuração.
Estar na frente ajuda, mas cobra um preço. Nos anos 1950, o futuro Nobel Herbert Simon já descrevia o efeito manada: quem parece vencer atrai adesões. Flávio aposta nelas: no domingo (11), enquanto Lula ia à Paulista, ele reunia sua base política em São Paulo. Mas já vi muitas adesões chegarem para surfar o resultado, não para construí-lo. Por isso, a ideia mais inteligente do campo de Flávio é o Flaviômetro, site de apoiadores que mostra quais políticos do PL e aliados de fato falam do candidato. Ele transforma adesão em cobrança. E político cobrado põe prefeito e vereador para trabalhar, a máquina que, na minha experiência, mais tira eleitor de casa.
Do outro lado, vale o efeito azarão, que Simon também descreveu: quem está atrás mobiliza os seus. Lula joga com a rua e com o eleitor mais jovem. Sua campanha, que ele mesmo chamou de a menos organizada desde 1989, mudou de ritmo depois do dia 4: o canal de André Janones passou de 3 milhões de seguidores, e o ato da Paulista foi organizado também por fãs de Taylor Swift e BTS. Palanque fala com quem já está convencido. Parece uma gincana para convertidos, mas pode ter um alvo menos óbvio: os avós.
A maior abstenção do país é a dos eleitores de 70 anos ou mais, para quem o voto é facultativo: 60% em 2022, segundo o TSE, numa faixa que hoje soma 17 milhões de eleitores. Quem resiste a um pedido de neta? Em 2022, uma pesquisa que conduzi mostrou que cerca de 20% dos entrevistados levaram para a urna uma cola feita por alguém da família. O medo também empurra: no PoderData desta semana, 46% dizem não votar de jeito nenhum em Lula, e 44% rejeitam Flávio. O cientista político George Marcus mostrou que a ansiedade tira o eleitor do piloto automático. Netos de um lado,prefeitos do outro: no segundo turno, comparecimento é voto.
Onde Lula tem acertado é na escolha da arena. No futebol, isso se chama mando de campo. O governo fez do fim da escala 6×1 sua bandeira e cobrou uma posição de Flávio. Depois de chamar a proposta de oportunista, o senador anunciou que votaria a favor. Fez a conta certa: a maioria apoia a mudança, inclusive 59% dos seus próprios eleitores, segundo a Real Time Big Data. Mas entrou no campo do adversário, e o eleitor tende a dar o crédito a quem carrega a bandeira há mais tempo. O risco para Flávio é desagradar quem emprega sem conquistar quem é empregado.
Nada disso apaga o favoritismo de Flávio. No último Datafolha, a avaliação negativa do governo supera a positiva, 40% a 35%, e Flávio tem 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula. O PoderData confirma a vantagem, por 51% a 49%. Mas favoritismo não é resultado.
Aos 30 minutos do segundo tempo, o Egito tinha a vaga nas mãos. No fim, uma bola perdida decidiu o jogo. Até o dia 25, as duas campanhas vão jogar essa mesma partida: uma tentando não vacilar, a outra à espera da vacilada. Não existe eleição ganha antes do apito final. Nem perdida.
David Silva é estrategista de marketing político e eleitoral desde 2010, com especialização em neurociência pela Unifesp.
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