Uma pequena população de micos-leões-pretos que vive isolada em um fragmento de Mata Atlântica, no Pontal do Paranapanema, no oeste paulista, corre o risco de desaparecer em um período de 10 a 20 anos sem medidas de conservação. Para tentar mudar esse cenário, pesquisadores transferiram nove animais de outra área florestal e agora acompanham a formação de novos grupos, na expectativa de que eles se reproduzam e ajudem a garantir o futuro da população.
A iniciativa é conduzida pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas e teve os resultados publicados em setembro de 2026 na revista científica Global Ecology and Conservation. O estudo mostra como a transferência de animais entre áreas, chamada de translocação, pode ajudar a conservar populações pequenas e isoladas.
O fragmento, de aproximadamente 500 hectares, abriga uma população estimada em menos de 18 micos-leões-pretos. O número preocupa os especialistas, principalmente porque os animais apresentam características genéticas importantes para a conservação da espécie.
Segundo Gabriela Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto do IPÊ e primeira autora do estudo, o risco de desaparecimento não surgiu de uma observação isolada. Ele é acompanhado há décadas por meio de pesquisas e projeções científicas.
"Em 2013, a gente monitorava cinco grupos no fragmento e, quando a gente fez um levantamento usando gravadores e também todo o monitoramento que a gente faz em campo, a gente começou a ver que o fragmento estava com dois, no máximo, três grupos", explica.
Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1:
Socó-boi é flagrado predando filhote de jacaré no Pantanal de Mato Grosso
O que existe debaixo das águas do Mar Vermelho? Mergulhadores brasileiros fazem fotos surpreendentes
Câmeras registram 'vida secreta' de micos-leões-pretos no alto da Mata Atlântica
Com risco de desaparecer em até 20 anos, população de micos-leões-pretos recebe reforço no interior de SP
A pesquisadora conta que as análises de viabilidade populacional, realizadas com o software VORTEX, já apontavam a possibilidade de redução no número de animais.
"Eu costumo falar que as projeções do VORTEX estavam se concretizando na frente dos nossos olhos", afirma.
Por que uma população tão pequena corre perigo?
O principal problema está no número reduzido de indivíduos. Em populações pequenas, até mesmo mortes por causas naturais podem comprometer a sobrevivência do grupo ao longo dos anos.
Gabriela explica que, quando há poucos animais, a perda de um ou dois indivíduos representa uma parcela significativa da população, especialmente quando não ocorre reposição por meio de novos nascimentos.
Cientistas correm contra o tempo para evitar desaparecimento de micos-leões-pretos em SP
"Se a gente pensa uma população que tem 20 indivíduos, se a gente perde um ou dois, mesmo que seja por mortalidade natural, e a gente não tem uma reposição desses indivíduos, por alguma questão, ou os filhotes nasceram e por algum motivo foram predados, enfim, se a gente tem uma baixa taxa de crescimento da população, quando a gente perde um ou dois indivíduos, a gente perde 10% da população", explica.
O isolamento entre fragmentos florestais agrava a situação, pois dificulta a movimentação natural dos animais entre diferentes populações.
"É uma população que já está sujeita à extinção pelo simples fato de ser uma população pequena. Então, a gente nem precisa ter fatores adicionais", destaca a pesquisadora.
Nove animais e uma nova chance
Diante do risco, os pesquisadores decidiram reforçar a população com animais provenientes do Parque Estadual Morro do Diabo, onde vivem cerca de 1.200 micos-leões-pretos.
O primeiro grupo foi transferido em janeiro de 2024. Era formado por um casal reprodutor e três filhos jovens, próximos da idade reprodutiva.
Em 2025, outros quatro animais, sendo dois adultos e dois jovens, foram levados ao fragmento, localizado a aproximadamente 30 quilômetros da área de origem.
A transferência tinha como objetivo aumentar o número de indivíduos e favorecer a formação de novos grupos com animais de diferentes origens.
População de micos-leões-pretos pode desaparecer em até 20 anos; pesquisadores tentam evitar extinção
Entretanto, poucos dias depois da soltura do segundo grupo, os pesquisadores encontraram a fêmea dominante morta. A causa não pôde ser determinada.
"Embora não tenha sido possível determinar a causa exata da morte, sabíamos que perdas iniciais são um risco possível em ações de manejo como essa. Ainda assim, foi um momento doloroso para todos os envolvidos. A ausência dessa fêmea alterou rapidamente a dinâmica do grupo", relatou Gabriela no material divulgado pelo IPÊ.
A morte provocou mudanças nas relações entre os animais e antecipou um processo que os pesquisadores já esperavam observar: a dispersão de indivíduos jovens e a formação de novos grupos.
"A reorganização era prevista, porque, a partir do momento que a gente transferiu um grupo com indivíduos subadultos, a gente já esperava que esses subadultos iriam dispersar desse grupo e formar novos grupos", explica Gabriela, em entrevista ao Terra da Gente.
"O que aconteceu é que essa reorganização aconteceu antes do que a gente estava prevendo, justamente por conta da morte da fêmea", acrescenta.
Durante o monitoramento, os pesquisadores identificaram a formação de um casal composto por uma fêmea jovem transferida em 2025 e um macho do grupo levado em 2024.
Posteriormente, também observaram um novo grupo formado por um macho adulto transferido em 2025 e duas fêmeas: uma proveniente da translocação de 2024 e outra que já vivia no fragmento.
A aproximação entre animais de origens diferentes é um dos resultados esperados pelos pesquisadores.
A importância de preservar a diversidade genética
Além de aumentar o número de animais, a iniciativa busca preservar a diversidade genética da espécie.
Estudos anteriores identificaram características genéticas próprias da população que vive no fragmento. Caso ela desapareça, parte dessa diversidade também poderá ser perdida.
Uma nova chance para os micos-leões-pretos: cientistas tentam evitar desaparecimento de população em SP
Gabriela explica que não se trata necessariamente de uma característica física visível, mas de diferenças identificadas em trechos do DNA analisados pelos pesquisadores.
"Quando a gente perde uma população, a gente perde a diversidade genética. E diversidade genética é muito importante para que a espécie tenha mais capacidade de adaptação", afirma.
Essa diversidade ganha ainda mais importância diante das mudanças ambientais.
"Num contexto que a gente está aí de mudanças climáticas, quanto maior a diversidade genética de uma espécie, maior a capacidade dela se adaptar a essas mudanças que estão acontecendo", explica.
Para a pesquisadora, preservar populações geneticamente diferentes é uma forma de proteger também o potencial de adaptação da espécie no futuro.
"Quando a gente perde diversidade genética para a espécie, a gente está perdendo esse potencial evolutivo de adaptação", ressalta.
E os filhotes?
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores ainda aguardam uma etapa importante: o nascimento de filhotes nos grupos recém-formados.
Em entrevista ao Terra da Gente, Gabriela explicou que, até o momento das respostas, não havia novos registros de reprodução ou acasalamento.
"Com a formação dos novos grupos, por enquanto a gente está só monitorando e aguardando o nascimento dos filhotes", conta.
O acompanhamento não é realizado diariamente. Os pesquisadores visitam os grupos durante alguns dias do mês, justamente para evitar interferências no comportamento natural dos animais.
"Como a gente não fica o tempo todo com o grupo, até por uma questão estratégica de não prejudicar esses comportamentos que são normais para a espécie, a gente não teve ainda registro de acasalamento", explica.
Segundo a pesquisadora, a reprodução será um dos principais indicadores para avaliar a adaptação dos animais ao novo ambiente.
"Quando um animal chega a um estágio de se reproduzir, significa que ele está bem adaptado ali ao novo ambiente onde está vivendo", afirma.
Outro resultado esperado é a reprodução entre indivíduos transferidos e animais que já habitavam o fragmento, favorecendo a diversidade genética da população.
"O que a gente realmente espera de resultados é justamente esses processos de reprodução, de mistura genética de indivíduos que foram translocados com indivíduos que vivem ali na população e, por consequência, da reprodução e da mistura genética, a gente vê essa população crescer", explica Gabriela.
Embora ainda não tenham sido registrados nascimentos nos novos grupos, a pesquisadora considera que a operação já apresentou resultados positivos.
"O fato da gente ter os indivíduos lá, vivendo no fragmento, já é um indicador positivo", afirma.
Um trabalho que pode ajudar outras populações
A experiência no Pontal do Paranapanema também poderá contribuir para a conservação de outros grupos isolados de micos-leões-pretos.
Segundo Gabriela, o IPÊ já trabalha com outras três populações que necessitam de ações de manejo para aumentar suas chances de sobrevivência no longo prazo.
Câmeras registram vida secreta de micos-leões-pretos no alto da Mata Atlântica
Programa de Conservação do Mico-leão-preto/IPÊ
A estratégia, entretanto, exige planejamento, profissionais capacitados e recursos financeiros.
"A cada ação de manejo, ela demanda um trabalho que não é o trabalho de você ir lá, pegar o grupo e levar. Ela envolve um trabalho de dois a três anos, em que a gente faz toda uma avaliação prévia", explica.
Antes das transferências, os pesquisadores avaliam as condições genéticas, sanitárias e ecológicas tanto da população de origem quanto da que receberá os animais.
Depois da operação, o monitoramento deve continuar por pelo menos dois anos.
Além da transferência de indivíduos, o IPÊ desenvolve o projeto Corredores de Vida, voltado à recuperação da vegetação e à conexão entre fragmentos florestais.
Segundo o instituto, mais de 14,2 milhões de mudas de árvores já foram plantadas na região. A expectativa é que, com o estabelecimento dos corredores ecológicos, o habitat disponível para a espécie aumente mais de oito vezes.
Enquanto essas conexões não estão plenamente estabelecidas, as translocações funcionam como uma medida para reduzir o risco de desaparecimento das pequenas populações.
"A estratégia do manejo populacional permite que a gente ganhe esse tempo, que a gente dê mais tempo de sobrevida da população. Porque é o tempo que ela precisa para que a gente consiga, através de outras ações, garantir a sua sobrevivência no longo prazo", conclui Gabriela.
VÍDEOS: Destaques Terra da Gente
Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

