Em seguida, Don L chega com CARO Vapor II , continuação da coletânea Caro Vapor / Vida e Veneno (2013). Lançado em junho de 2025, o álbum tem 15 faixas e combina rap, ritmos brasileiros e referências à MPB, com o capitalismo tardio entre seus temas centrais — poderosíssimo. “Estou tentando fazer outro tipo de rap. É rap, só que com outras batidas”, explicou . Depois, Emicida nos presenteou com Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores , que dispensa apresentações. Por fim, vem Terra Vermelha: Do interior pro interior , de Matuto S.A. — pera, quem?
Esse é Vinicius Comparini Arcolino , MC, trompetista e produtor de Franca, no interior paulista. Lançado em março de 2026, o álbum explora o pertencimento e a vivência do Brasil profundo.
Em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil , Matuto S.A. , falou sobre a indicação e os próximos passos da carreira. O álbum saiu em março de 2026, com distribuição da Symphonic Brasil e financiamento do ProAC SP, e reúne 14 faixas sobre pertencimento e a vivência do Brasil profundo.
Musicalmente, a viola caipira surge sobre batidas de rap, em uma pesquisa de ritmo e tonalidade que deu origem ao movimento Regional Beat. Questionado sobre ser o underdog da disputa — aquele que corre por fora —, admitiu essa possibilidade, mas destacou o alcance do reconhecimento: “Cara, me sinto muito honrado e me sinto muito feliz também porque eu acredito que eu tô representando não só o Matuto SA lá, mas uma gama de artistas independentes também”.
Do interior para o interior
Na divisa com Minas Gerais, Franca é o ponto de partida de boa parte das histórias que o disco conta. A cidade tem 352.536 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE, e ocupa cerca de 605 km². Conhecida como capital nacional do calçado e também do basquete, tem no café outro pilar da economia: em 2020, o produto respondeu por mais da metade das exportações do município, segundo a Revista Cultivar .
Vinicius cresceu ouvindo moda de viola, imerso em uma cultura muitas vezes reduzida ao rótulo de regionalismo. Entretanto, sua formação musical também passa pelo hip hop: “Tô nessa cultura há mais de 15 anos, mas é o meu primeiro disco solo”, diz. Entre as referências, lembra o movimento que marcou a década de 1990: “O próprio Chico Science , a Nação Zumbi , o Otto , o mestre Ambrósio , Mundo Livre S.A. fizeram muito bem lá, nos anos 90”.
Artista independente, Vinicius fala sem romantismo sobre a distância entre seu trabalho e os grandes números da indústria. “Sou um artista independente do interior de São Paulo, né? Sem grandes números nas redes sociais, sem grandes números no Spotify também”, afirma. Ainda assim, o disco fez barulho na cena — tanto que foi reconhecido com a indicação.
Uma batida de três por quatro
Desse caldeirão de inspirações nasceu o Regional Beat . Vinicius começou a desenvolver o movimento em 2023, ao produzir batidas com viola caipira e trechos de música regional. Para o artista, a proposta ultrapassa os limites de seu trabalho: “Esse movimento é uma parada que é maior do que o Matuto S.A. só”.
Conciliar as estruturas rítmicas da música caipira e do rap foi o principal desafio. Segundo o artista, os dois gêneros costumam seguir compassos diferentes. “A maioria das músicas caipiras — não é uma regra —, mas elas têm uma divisão rítmica de três por quatro. O rap, também não é uma regra, mas é basicamente feito numa divisão de quatro por quatro.” Encaixar os trechos de viola nas batidas de rap exigiu uma série de experimentações.
A tonalidade também exigiu ajustes. “Majoritariamente, as músicas caipiras têm uma tonalidade de tom maior. O rap é um tom menor também”, explica. Entre recortes de gravações e experimentações com a viola, o grupo construiu uma identidade sonora própria.
Recentemente, o movimento ganhou expressão no audiovisual. O documentário Regional Beat: Uma Antena Parabólica Fincada na Terra Vermelha foi exibido em escolas do interior e da zona rural e também teve sessões em São Paulo, na USP de Piracicaba e na Unesp de Franca. Ao explicar a proposta, Vinicius estabelece um paralelo com o Manguebeat e contrapõe a imagem da antena fincada na lama àquela fincada na terra vermelha do interior.
A surpresa da indicação
Vinicius se inscreveu no Grammy por meio da Symphonic Brasil , distribuidora do disco. Sua principal aposta era a categoria de Artista Revelação , que considerava mais acessível por oferecer mais vagas e reunir nomes em início de carreira. Como segunda opção, inscreveu o disco na categoria de Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa .
O músico conta que acompanhava a transmissão no YouTube quando os indicados a Artista Revelação foram anunciados, mas seu nome não apareceu na lista. “Eu pensei: ‘pô, que pena’, fiquei triste. Falei: pô, acho que não é esse momento então, talvez, né?”, lembra. Passada a frustração inicial, decidiu conferir, por curiosidade, a outra categoria em que havia inscrito o disco. “Eu olhei pelo celular, cara. Foi engraçado”, conta.
Nesta edição, a categoria de interpretação urbana em língua portuguesa passou a premiar álbuns, e foi para ela que o trabalho de Vinicius foi remanejado. “Antes era uma categoria de faixa… agora ela se tornou uma categoria de um álbum. E aí eles até realocaram o meu álbum para essa categoria e ficou lá inscrito”, explica.
No celular, Vinicius leu a lista nome por nome, em ordem alfabética. O nome dele era o último. Em casa, ao lado da esposa, Camila , Vinicius reagiu à descoberta com um grito. “Eu dei um berro”, lembra, ao contar o momento em que confirmou a indicação.
Las Vegas, vinil e o próximo disco
A indicação não parou o trabalho. Enquanto a viagem a Las Vegas se aproxima, Vinicius já pensa no que vem depois de Terra Vermelha . Os planos também avançam para além da premiação. Segundo o artista, já há músicas novas e participações encaminhadas para 2027, e o segundo álbum deve chegar até 2028. Enquanto isso, ele segue levando o repertório de Terra Vermelha aos palcos.
Na disputa pelo Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa do Grammy Latino, Ajulliacosta , Budah , Don L e Emicida enfrentam um concorrente à altura — talvez não em números, mas, sem dúvida, em identidade. Terra Vermelha: Do interior pro interior nasceu no interior paulista, com a viola caipira no centro da batida, e leva para Las Vegas um Brasil profundo que costuma ficar fora dos holofotes. Em 12 de novembro, a categoria será decidida na MGM Grand Garden Arena, e Matuto S.A. chega como um nome que vale a pena acompanhar.
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