O mapa do caminho elaborado pelo Brasil foi divulgado nesta 3ª feira (3.nov), em Brasília. O documento propõe que os países identifiquem sua dependência dos combustíveis fósseis em 3 dimensões: consumo de energia, produção de petróleo, gás e carvão e peso econômico do setor. A partir desse diagnóstico, reúne indicadores e medidas para orientar a transição para longe dessas fontes até 2033.
Durante o lançamento, a diretora-executiva da COP30, Ana Toni, explicou que o documento usa indicadores para medir a dependência de cada país dos combustíveis fósseis e sua capacidade de conduzir a transição.
O mapa também apresenta o Belém Índice de Prontidão para a Transição, que agrupa os países em arquétipos conforme suas condições e capacidades. A classificação busca ajudar os governos a identificar obstáculos e definir medidas adequadas a cada realidade.
A proposta é evitar uma receita única. O mapa do caminho considera que cada país parte de condições distintas e, por isso, precisa avaliar seu próprio contexto antes de definir as políticas que vai adotar.
O documento não estabelece uma data obrigatória para o fim da produção ou do consumo de petróleo, gás e carvão, nem pressupõe que todos os países adotem as mesmas medidas ou o mesmo ritmo. Eis a íntegra (PDF – 4 MB).
CONSUMO E PRODUÇÃO
Na frente da demanda, o mapa considera o uso de energia nos transportes, na indústria e nos edifícios. A eletrificação, a expansão das fontes renováveis e os ganhos de eficiência aparecem entre os caminhos para reduzir o consumo de combustíveis fósseis.
A oferta é a 2ª frente. O documento trata da necessidade de ajustar a produção de petróleo, gás e carvão à redução da demanda e à expansão de sistemas energéticos de baixa emissão.
A transição, nesse caso, exige coordenação: reduzir a produção sem alternativas suficientes pode comprometer o abastecimento, enquanto manter investimentos em combustíveis fósseis pode prolongar a dependência e deixar estruturas sem uso no futuro.
A 3ª frente considera o peso dos combustíveis fósseis na economia. O mapa propõe que os países avaliem fatores como receitas públicas, investimentos, exportações, empregos e condições de financiamento ligados ao setor.
No Brasil, essa dependência aparece na arrecadação de royalties e participações especiais, nas exportações de petróleo e na atividade econômica ligada à exploração e à produção. Em 2025, a ANP apurou R$ 62,16 bilhões em royalties e R$ 36,74 bilhões em participações especiais, recursos distribuídos entre a União, os Estados e os municípios.
A transição, nesse cenário, exige alternativas para substituir receitas e atividades econômicas, além de medidas para proteger trabalhadores e comunidades afetadas.
No Brasil, petróleo e derivados responderam por 36,5% da matriz energética em 2025, segundo o Balanço Energético Nacional da Empresa de Pesquisa Energética . As fontes renováveis representaram 49,5%. No mesmo ano, a produção nacional de petróleo chegou a 3,8 milhões de barris por dia, e as exportações líquidas somaram 1,7 milhão de barris diários.
O setor de petróleo e gás representa cerca de 17% do PIB industrial brasileiro e sustenta mais de 1,6 milhão de empregos diretos e indiretos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis .
“Não existe uma perspectiva, no curto prazo, de abandonar o uso de combustíveis fósseis. Infelizmente” , declarou nesta 3ª feira (3.nov.2026) o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, durante a apresentação do mapa de transição, em Brasília.
Questionado sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial, disse que o país também trabalha no desenvolvimento de alternativas para reduzir a dependência. Capobianco citou investimentos em biocombustíveis, hidrogênio verde e baterias para armazenamento de energia.
A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva defendeu que o planejamento considere também os países e as populações que dependem economicamente da produção de petróleo.
“A transição precisa ser justa para todos, inclusive para quem só tem petróleo” , declarou. Para Marina, a mudança precisa incluir alternativas de desenvolvimento e diversificação econômica.
Marina Silva (ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima), Ana Toni (diretora-executiva da COP30), André Corrêa do Lago (presidente da COP30) e Claudio Providas (representante residente do PNUD no Brasil) durante o lançamento do mapa do caminho para a transição energética, em Brasília
Eis outros pontos do mapa:
alavancas: medidas “fundacionais” , que servem a todos (como planejamento, coordenação institucional, eletrificação e redução de metano), e outras específicas para cada perfil;
TAFF Mutirão: agenda coletiva até 2033. Até 2028, planos nacionais, reforma de subsídios e corte de metano. Em 2029–2030, eletrificação, eficiência e redes. De 2031 a 2033, ajuste da oferta de fósseis;
metano: o setor de petróleo e gás pode cortar cerca de 3/4 das emissões do gás com tecnologias que já existem, diz o texto.
ALCANCE DA PROPOSTA
O documento é uma contribuição voluntária da Presidência da COP30, fora do processo formal de negociação da Convenção do Clima. A decisão sobre quais medidas adotar continua sob responsabilidade dos governos. Leia mais nesta reportagem .
O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, disse que o mapa pode contribuir para o segundo Balanço Global do Acordo de Paris, previsto para 2028. O documento também sugere que o debate sobre a transição continue nas próximas conferências do clima e em outros fóruns internacionais.
A elaboração recebeu 247 contribuições de 115 países, segundo a apresentação feita pela equipe da COP30. A presidência também recomenda que os governos desenvolvam seus próprios mapas, com diagnósticos nacionais e medidas compatíveis com suas condições.
O governo brasileiro prepara documentos nacionais sobre a transição energética e o combate ao desmatamento. Capobianco disse que os mapas foram encaminhados ao presidente Lula , a quem caberá avaliar a apresentação dos trabalhos.
A discussão sobre a transição energética deve continuar na COP31, marcada para 9 a 20 de novembro, em Antália, na Turquia. O segmento de líderes está previsto para 11 e 12 de novembro. Lula participa da conferência.
Brasil entrega mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis
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