A crise bancária e política que abala o Paraguai nos últimos dias afetou também a vida de brasileiros que moram no país. O g1 conversou com um empresário que perdeu mais de R$ 200 mil, uma cambista que ficou sem o dinheiro que economizou para as férias e um dono de oficina que ficou sem capital de giro.

O Ueno Bank, que tinha cerca de 3 milhões de clientes, aproximadamente 60% da população adulta paraguaia, foi liquidado pelo Banco Central do país, dois dias depois, nesta quinta-feira (5) o presidente Santiago Peña, anúnciou sua renúncia ao cargo.

Segundo estimativas do Itamaraty, cerca de 270 mil brasileiros residem no país que faz fronteira com Mato Grosso do Sul e Paraná.

Crise no Ueno Bank: Na terça-feira (3), o BC paraguaio liquidou o bando digital após constatar que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido por lei. O rombo tem origem em empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio banco, que comprometeram seus recursos e deixaram milhares de clientes sem acesso ao dinheiro.

Renúncia de Santiago Peña: Dois dias após a intervenção no banco, Santiago Peña, que já foi acionista de empresas ligadas ao grupo controlador do Ueno, anunciou sua renúncia à presidência. A Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade o avanço de um processo de impeachment contra o presidente.

Caixa de oficina avariado

Marcelo Bernard, 26 anos, está entre os brasileiros prejudicados. No Paraguai há dois anos e dono de um oficina em Presidente Franco, ao lado a tríplice fronteira, ele perdeu parte de dinheiro que estava no Ueno.

Marcelo perdeu cerca de 5 milhões de guaranis, cerca de R$ 4,5 mil. O prejuízo poderia ser maior se, por lá, não tivesse a cultura de se pagar em notas.

"Para mim a situação não está tão ruim porque no Paraguai as pessoas ainda estão acostumadas a pagar em dinheiro vivo, então eu não tinha todo o meu dinheiro no banco. Eu tinha cerca de 5 milhões de guaranis lá, mas o dinheiro de giro eu mantinha na carteira", disse.

Marcelo ainda conta que o clima por lá é de completa consternação.

"Há um clima de forte revolta e raiva direcionado ao presidente e aos políticos do país. Por ser uma sociedade conservadora e firme, as pessoas exigem punição rigorosa aos responsáveis", contou.

Se por um lado o dono da oficina não teve tanta parte de seu dinheiro atingido, outros brasileiros não tiveram a mesma 'sorte'.

Agora no g1

Brasileiro perde mais de R$ 200 mil no banco Ueno

O brasileiro Pedro Treméa, 61 anos, tem uma empresa de refrigeração em Ciudad del Este, também na triplice fronteira. Ele contou que o valor perdido no banco Ueno foi maior do que o valor coberto pelo Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), o FGC paraguaio.

Cliente do banco desde a época em que a instituição ainda era o Banco Visión, que foi incorporado pelo Ueno em 2021, Pedro utilizava a conta principalmente para movimentar o capital de giro da empresa. No entanto, como o empresário diversificava as instituições em que guardava seu dinheiro, o impacto foi limitado.

"Como empresa, não colocamos todo o recurso em um único banco. No Paraguai é muito utilizado o alias (sistema de transferência instantânea similar ao Pix), e mantemos duas ou três contas em instituições diferentes para atender clientes de várias regiões, o que evitou um impacto ainda pior", contou.

Além do prejuízo e da incereteza de quando vai reaver o dinheiro perdido, Treméa diz que a crise financeira vai afetara diretamente seu negócio, já que importa seus produtos do Brasil e realiza operações em dólares ou reais.

A cotação da moeda americana passou de 5.900 para 6.500 guaranis em apenas 24 horas, em meio à especulação financeira provocada pela crise.

Pedro também contou que todos os funcionários de sua empresa tinham conta no Ueno, atraídos pela facilidade de abertura da conta digital e pela oferta de cartões de crédito. Ele preferiu não especificar o valor que perdeu.

Vista aérea mostra a sede do Ueno Bank, em Assunção, no Paraguai.

'Perdi o dinheiro das minhas férias'

Outra brasileira afetada é Dalma Morinigo, de 31 anos, que mora há quatro em Ciudad del Este e trabalha em uma casa de câmbio. Ela tinha o correspondente em guaranis a mais de R$ 7 mil depositados no Ueno, e planejava usar o valor para as férias de fim de ano.

Dalma também utilizava a conta para receber pagamentos de clientes. Ela era correntista do banco havia quase dois anos e diz que escolheu a instituição pela facilidade para abrir uma conta, pela oferta de serviços digitais e pela presença de caixas eletrônicos em diferentes pontos da cidade.

Ela também diz que, dias antes da liquidação, o banco oferecia uma campanha de reembolso de 50% de determinados valores mantidos na conta. Segundo Dalma, a oferta teria incentivado clientes a não retirar o dinheiro.

A brasileira conta que foi surpreendida pela notícia. Ao tentar acessar o aplicativo depois de saber da crise, percebeu que o saldo não aparecia mais e que não conseguia realizar operações.

Print do aplicativo da conta de Dalma no Banco Ueno.

"Não há muito a ser feito, temos que esperar. Dizem que até em cinco dias iremos receber, mas não acredito muito nisso", afirmou.

Peña anunciou medidas para ressarcir clientes

Diante da crise, Peña anunciou um acordo com líderes do Congresso para acelerar a votação de um projeto que permite utilizar recursos do Fundo de Garantia do país para ressarcir os clientes do banco.

O presidente afirmou ainda que a medida deve garantir a devolução dos recursos públicos depositados no banco, incluindo valores do IPS e de outros fundos públicos de previdência.

Nesta quarta-feira (4), Peña promulgou a lei que permitirá aos clientes do Ueno recuperar seus recursos mais rapidamente. O presidente afirmou na rede social X que os responsáveis por eventuais irregularidades deverão responder à Justiça, sem exceções.

"Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse", afirmou.

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