A outra lição foi dada por Bono , numa reportagem especial sobre a Rolling Stone . “Toda entrevista é um jogo. Você não quer falar nada além do disco que acaba de lançar, ao passo que o repórter quer algo além disso” , confessou.
Foi munido dessas duas informações preciosas que, no final de 2004, encarei Bono e o baterista Larry Mullen Jr. para uma entrevista especial. O tema, claro, era How to Dismantle an Atomic Bomb e a conversa se deu num escritório da banda, perto de Windmill Lane, estúdio onde gravou seus primeiros trabalhos — e que foi demolido em 2015.
O U2 mantinha suas raízes na Irlanda porque, segundo o guitarrista The Edge , era o único lugar no qual eram tratados como pessoas normais. “O sujeito te aborda no pub e diz que seu disco é uma porcaria” , me disse ele, numa conversa que tivemos no início dos anos 2000. Quando o baixista Adam Clayton pergunta a você se prefere açúcar ou adoçante em seu café, você até acredita nessa simplicidade. Mas não se deixe enganar: ele vai mostrar para você que é um astro do rock.
Bono e Larry chegaram no horário, encrencaram com o fotógrafo (a matéria se limitou a um clique ao lado da dupla) e veio com as respostas prontas para as perguntas de sempre. O disco, o processo de gravação, planos de uma nova turnê… Nesse ponto, entra em ação a primeira aula que aprendi: use seu talento para massagear o ego do entrevistado, faça ele se sentir à vontade. Percebi que a missão tinha sido cumprida quando o assessor do U2 avisou que o tempo da entrevista tinha terminado, mas Bono quis continuar o papo.
A segunda aula é ir além do trivial “como foi feito o novo disco” . E nasceu de uma resposta de Bono sobre o hip hop. “As letras de crime são iguais às do Johnny Cash ” , disse o cantor, referindo-se aos contos de morte e tiros narrados por um dos pioneiros do country rock americano. “Escuto esses discos com meus filhos, mas sempre as versões censuradas.”
É chegada a hora de pegar o vocalista no contrapé. “Você é um pai zeloso e tem duas filhas adolescentes. Como faz quando elas trazem um namorado para casa?” Bono , então, me olhou com incredulidade. Larry Mullen teve um acesso de riso, mostrando que o repórter tinha saído do roteiro. Mas não se é Bono por acaso. “Quando chega um pretendente em casa, faço questão de abrir a porta e faço de conta que vou dar um soco nele. Se o sujeito fraquejar, digo que ele não serve para namorar as minhas filhas” , brincou.
Costumo chamar esse momento da entrevista de “docinho” . É quando você consegue uma informação inédita e sabe que ela raramente irá se repetir –o “docinho” , claro, é aquele presente que a gente ganha depois de comer todo o brócolis do jantar. Bono e Larry responderam a mais algumas perguntas triviais e deram a conversa por encerrada. No final, o vocalista se aproximou de mim e disse: “Você é um grande entrevistador…” Pena que falou isso quando meu gravador estava desligado. Talvez tenha faltado aprender a uma terceira lição: mantenha o gravador em ação ainda que ache que a conversa foi dada como terminada.
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