Caio Lírio / Divulgação

♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO

Título: “Moraes musical Moreira”

Dramaturgia: Fábio Espírito Santo

Direção: Ana Paula Bouzas

Direção musical: João Milet Meirelles e Ronei Jorge

Cotação: ★ ★ ★ 1/2

♬ Quatro meses após a estreia nacional em Salvador (BA), “Moraes musical Moreira” aporta na cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde o espetáculo ficará em cartaz no Teatro Carlos Gomes, de quinta-feira a domingo, até 29 de novembro.

Cantor, compositor e músico que eletrificou o Carnaval da Bahia ao ao letrar “Double morse” (1975), tema instrumental do Trio Elétrico Dodô & Osmar, transformado em “Pombo correio” (1977) com os versos de Moraes., Antonio Carlos Moreira Pires (8 de julho de 1947 – 13 de abril de 2020) tem a vida poetizada neste musical de teatro em que a dramaturgia é estruturada na forma de cordel, gênero literário abraçado pelo artista, projetado em 1972 como integrante fundamental do grupo Novos Baianos, formado no fim dos anos 1960.

Na primeira meia hora, o espetáculo soa meio viajante, com a poesia do cordel travando o desenvolvimento da ação, mas logo a narrativa ganha progressiva tração, a ponto de o musical terminar eletrizante, apoteótico, com a brasilidade e o espírito folião de grande parte do cancioneiro de Moraes Moreira.

“Moraes musical Moreira” é espetáculo de cores vivas que faz ode à Bahia, estado natal do artista que veio ao mundo na interiorana Ituaçu (BA), enquanto expõe em cena a ideologia firme do artista que retrata com liberdade poética.

Sem seguir a cartilha dos musicais biográficos, até mesmo pelo uso do cordel para narrar alguns acontecimentos da vida de Moras Moreira, a dramaturgia de Fábio Espírito Santo põe a essência do artista em cena, tendo como mote inicial o cordel “De cantor pra Cantador” (2018), gravado por Moraes Moreira no álbum “SerTão" (2018).

Nessa cena pautada pela alegria, Moraes é personificado duplamente de forma simultânea. Rodrigo Sestrem interpreta o Poeta Cantador, comentando e pontuando a ação, como moderna versão tropicalista do coro das tragédias gregas.

Já Cris Meirelles é o Vaqueiro do Som, personagem de cordel que simboliza Moraes na travessia artística e existencial de Iauaçu (BA) para Salvador (BA) e, anos depois, para o Rio de Janeiro (RJ), mas sem jamais perder a Bahia de vista do horizonte musical.

Entre os dois, paira em cena a Musa Música, personagem de Júlia Tizumba, dona de bela a farta voz, usada para interpretar músicas como “Mulher e cidade – Marília” (Moraes Moreira e Aroldo Macedo, 1981), número que, na costura do roteiro de “Moraes musical Moreira”, simboliza a chegada do poeta a Salvador (BA), cidade onde conhece o baiano – de Juazeiro (BA) – Luiz Galvão (1937 – 2022), com quem firma parceria fundamental que norteia o repertório do grupo Novos Baianos.

Cena do espetáculo 'Moraes musical Moreira' em que o grupo Novos Baianos interpreta 'Swing de Campo Grande' (1972)

Caio Lírio / Divulgação

Com cerca de 40 composições, algumas ouvidas em trechos ou em meras citações, o roteiro do musical equilibra bem os hits – dominantes na aliciante metade final, quando o Trio Elétrico entra em cena, fazendo o Carnaval com músicas como “Chão da praça” (Moraes Moreira e Fausto Nilo, 1978) e também amplificando a crítica do pioneiro cantor de trio à industrialização do Carnaval da Bahia – com músicas pouco conhecidas, caso de “Desabafo e desafio” (1975), tema do primeiro álbum solo de Moraes, lançado um ano após a saída do cantor dos Novos Baianos em 1974.

Sem dados biográficos que podem ser colhidos na Wikipedia, o texto evidencia que o ponto de partida da construção da obra de Moraes Moreira foi o serviço de alto falante da cidade natal de Ituaçu (BA) que veiculava músicas de mestres como Luiz Gonzaga (1912 – 1989), pilar da nação musical nordestina.

Para sublinhar essa conexão seminal com a música de Gonzaga, o musical faz o Rei do baião entrar em cena para cantar música de Moraes, “Forró do ABC” (1980 – parceria com João Santana Filho, o Patinhas). Já a influência do rock é exemplificada pelo canto de “Loucura pouca é bobagem” (1975).

Com a liberdade dramatúrgica de encadear as músicas de forma não linear (mas todas apresentadas dentro de um contexto apropriado), o roteiro reserva dois números para os Novos Baianos. O grupo interpreta “Swing de Campo Grande” (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1972), uma das músicas da obra-prima da discografia do grupo, “Acabou chorare” (1972), álbum cuja música-título é ouvida em cena com a placidez da bossa nova na voz de um quase caricatural João Gilberto (1931 – 2019), vivido em cena pelo ator Kadu Veiga.

Sem a preocupação de incluir todos os sucessos de Moraes Moreira, a ponto de “Preta Pretinha” (Moraes Moreira e Luiz Galvão, 1972) ser ouvida somente quando o público sai do teatro na gravação original do álbum “Acabou chorare”, o musical resulta vivaz na metade final e promove a interação entre palco e plateia ao som de “Sintonia” (Moraes Moreira, Fred Góes e Zeca Barreto, 1987), canção de alma popular, romântica e radiofônica.

Mesmo quando soa menos aliciante no início, a inventiva teatralidade da direção de Ana Paula Bouzas salta aos olhos, assim como a coesão do elenco formado pelos atores Diana Ramos, Luisa Muricy, Mano Leone, Marcos Lopes, Nana Nevez, Ofámirô, Rapha Gouveia, Sabiá e Saulo Ilogoní, além dos nomes já mencionados.

Já a direção musical de João Milet Meirelles e Ronei Jorge é reverente ao espírito do som de Moraes Moreira, mas com a ousadia de inserir um toque de pagodão baiano no número final, “Chame gente” (Moraes Moreira e Armandinho Macedo, 1985), sinalizando que a música de Moraes Moreira continua viva, pronta para animar qualquer Carnaval. Esse número final é irresistível.

Por isso mesmo, chame, chame gente para ver esse musical que honra a ideologia e o legado de Moraes Moreira.

O espetáculo 'Moraes musical Moreira' tem cena pontuada por brasilidade vivaz

Caio Lírio / Divulgação