Segundo o advogado, a direção da Polícia Civil já sabia de possíveis desvios de conduta na Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes de Fronteira (Defron), em Dourados, e designou Scucuglia para descobrir o que acontecia na unidade.

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"Não existe nenhuma implicação do delegado Guilherme com o malfeito. Muito pelo contrário, o delegado Guilherme foi encaminhado para Dourados na época para investigar supostos desvios de conduta", afirmou.

Scucuglia foi alvo de busca e apreensão na quinta-feira (5), durante a Operação Infiltrados II, que investiga nove policiais civis suspeitos de desviar drogas apreendidas para abastecer o tráfico. Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), mais de 500 quilos de cocaína que deveriam ser incinerados teriam sido desviados em setembro de 2025.

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Delegados investigados pelo Ministério Público

Em entrevista à imprensa, em Campo Grande, José Roberto afirmou que a suspeita contra Scucuglia surgiu de uma conversa entre dois supostos traficantes. No diálogo, eles teriam mencionado um "delegado cabeludinho" que estava na Defron.

A conversa ocorreu durante tratativas sobre drogas que seriam incineradas, segundo a defesa. O advogado sustenta que os investigadores associaram a referência a Scucuglia, embora ele não participasse do diálogo.

"Não tem movimento bancário, nenhuma ligação dele, nenhum despacho dado por ele, nada", declarou.

O advogado afirmou que o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) pediu a prisão preventiva de Scucuglia, mas a Justiça não autorizou a medida. O juiz permitiu as buscas para que os investigadores procurassem outras provas.

Segundo a defesa, os policiais não encontraram materiais de interesse para a investigação durante as buscas na residência, no gabinete e nos demais locais ligados ao delegado.

José Roberto atribuiu a inclusão de Scucuglia na investigação à falta de comunicação entre o Gaeco e a direção da Polícia Civil. Para ele, o Ministério Público desconhecia a suposta missão do delegado na Defron.

Em nota divulgada na quinta-feira (5), a Polícia Civil confirmou que sua Corregedoria-Geral já investigava as possíveis irregularidades havia cerca de quatro meses, por meio de inquérito policial e Processo Administrativo Disciplinar (PAD).

A instituição informou que removeu servidores, alterou procedimentos operacionais e realizou uma fiscalização extraordinária na delegacia. A Corregedoria-Geral também acompanhou o cumprimento dos mandados da operação.

A nota não esclarece, porém, se Scucuglia foi enviado à Defron para investigar outros policiais, como afirma a defesa.

Após deixar a unidade de fronteira, Scucuglia passou um período à disposição da direção da Polícia Civil em Campo Grande. Atualmente, segundo o advogado, está lotado na Delegacia Especializada de Repressão a Roubos e Furtos (Derf) e está de férias.

O que investiga a Operação Infiltrados II

A operação investiga nove policiais civis que atuaram na Defron entre junho de 2025 e maio de 2026.

Segundo o MPMS, os investigados são suspeitos de retirar drogas durante apreensões, do depósito policial ou no transporte para incineração. Depois, os entorpecentes eram entregues a traficantes, que os colocavam novamente no mercado ilegal.

A segunda fase teve quatro mandados de prisão preventiva e 11 de busca e apreensão em Dourados, Ponta Porã e Nova Andradina, em Mato Grosso do Sul, além de Santa Terezinha de Itaipu, no Paraná.

O g1 confirmou a identidade dos nove policiais alvos da operação. Veja a lista:

Guilherme Scucuglia Cezar;

Rogério da Rocha Ferreira;

Rodrigo Carpes da Silva;

Cassiano Rodrigues Teixeira;

Eumer Cordeiro Barbosa;

Oseias Medeiros da Silva;

Gustavo dos Santos Sayao;

João Marcos Garcia.

O Ministério Público não detalhou publicamente a participação individual dos nove policiais no esquema.

Defesa de Hoffman contesta acusações e transferência para presídio federal

Na mesma entrevista, José Roberto também falou sobre o delegado Hoffman D'Ávila Cândido e Sousa, preso em setembro na primeira fase da Operação Infiltrados e novamente alvo de mandado de prisão na Operação Ifrit, deflagrada pela Polícia Federal na quarta-feira (4).

O advogado reconheceu que as investigações apontam indícios de irregularidades dentro da Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico (Denar), mas afirmou que não encontrou, nos documentos analisados até agora, uma ação concreta de Hoffman que comprove sua participação nos desvios.

Segundo a defesa, o Gaeco relaciona o delegado ao esquema principalmente porque ele chefiava a unidade na época dos fatos. A investigação estadual também apresenta conversas de terceiros sobre um suposto "delegado careca" e documentos assinados por Hoffman que autorizavam a incineração de drogas.

Na primeira fase da Infiltrados, o Gaeco apontou que policiais desviavam parte dos entorpecentes apreendidos e os revendiam a traficantes. O Ministério Público atribuiu a Hoffman uma posição de comando e de autorização institucional para o funcionamento do esquema.

Patrimônio e suspeita de lucro de R$ 15 milhões

José Roberto também contestou as suspeitas sobre a origem do patrimônio do delegado, especialmente a construção de uma casa em condomínio de Campo Grande.

Segundo o advogado, Hoffman recebia salário superior a R$ 45 mil, utilizou dois imóveis na negociação da residência e contratou mais de R$ 750 mil em financiamento imobiliário.

Na Operação Ifrit, a Polícia Federal aponta que Hoffman teria facilitado o desvio de aproximadamente duas toneladas de cocaína apreendida, com ganhos estimados em R$ 15 milhões.

A defesa nega que ele tenha recebido esse dinheiro e questiona a ausência de valores ou bens que comprovem o suposto lucro.

"Não tem esse dinheiro, não existe. Ele não está em canto nenhum", afirmou José Roberto.

O advogado disse ainda que o veículo do delegado é financiado e que as movimentações financeiras dele e da esposa constam das declarações de Imposto de Renda.

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Receita Federal/ Polícia Federal

Fotos de karaokê e encontros com investigados por tráfico

José Roberto também foi questionado sobre as imagens reveladas pelo g1 que mostram Hoffman ao lado de Adel Hassan Haidar, apontado pela Polícia Federal como um dos líderes de uma organização criminosa ligada ao tráfico internacional de drogas e armas.

As fotos mostram os dois cantando karaokê, testando uma arma e se despedindo com um abraço. Para a PF, os registros reforçam a suspeita de proximidade entre o delegado e integrantes do grupo criminoso.

O advogado argumentou que policiais podem manter contato com pessoas ligadas ao crime para obter informações durante investigações. Segundo ele, Lucas da Silva dos Santos, conhecido como LK e apontado pelo Gaeco como um dos principais envolvidos na primeira Infiltrados, atuava como informante da Denar.

Sobre os encontros com a família Haidar, no entanto, José Roberto disse que ainda não conversou com Hoffman para esclarecer as circunstâncias.

"Eu ainda não sentei com o Hoffman para entender qual o contexto", afirmou.

A defesa pretende verificar as datas e os locais das imagens, além da relação que o delegado mantinha com os envolvidos na época.

O advogado também afirmou que, entre os atos atribuídos diretamente a Hoffman na investigação federal, identificou a liberação de um veículo apreendido em uma ocorrência que envolveu cerca de 50 quilos de cocaína. Segundo ele, o delegado autorizou a liberação do carro, não da droga. A defesa ainda analisa as circunstâncias dessa decisão.

A Polícia Federal, por sua vez, suspeita que Hoffman facilitava o acesso de integrantes da organização criminosa à Denar e ao depósito de drogas apreendidas.

Segundo a investigação, cocaína de maior pureza era retirada do estoque e substituída por uma mistura adulterada com substâncias como amido de milho e fermento. Depois, o material substituto seguia para destruição.

Imagem aérea mostra o delegado Hoffman abraçando Adel Hassan Haidar na saída de residência.

Defesa questiona transferência para penitenciária federal

Hoffman foi transferido para uma penitenciária federal na quarta-feira (4), após a deflagração da Operação Ifrit.

A defesa considera a medida desnecessária porque o delegado já estava preso desde setembro, por decisão da Justiça estadual, e afastado das funções policiais.

José Roberto afirmou que ainda não teve acesso à decisão que autorizou a transferência, mas pretende questionar a permanência do cliente na unidade federal.

O advogado também informou que apresentou à Justiça estadual pedidos de revogação da prisão preventiva e de prisão domiciliar, devido a problemas de saúde do delegado.

A defesa ainda avalia se parte dos fatos investigados pelo Gaeco e pela Polícia Federal se repete nas duas apurações. Segundo José Roberto, essa possível sobreposição poderá fundamentar questionamentos judiciais.

As investigações, porém, são distintas. A Operação Infiltrados, conduzida pelo Gaeco, apura o desvio de drogas apreendidas por policiais. Já a Operação Ifrit, da Polícia Federal e da Receita Federal, investiga uma organização de tráfico internacional de drogas e armas, com suspeita de participação de agentes de segurança e ligação com facções criminosas.

Segundo José Roberto, Hoffman nega as acusações e afirma que desconhecia os desvios que teriam ocorrido na Denar. O advogado disse que alguns policiais de confiança do delegado podem ter mantido contato próximo com traficantes, mas que isso não comprova a participação de Hoffman nos crimes.

Da esquerda para direita, Adel Hassan e delegado Hoffman.

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