Em entrevista à rádio France Inter , na quarta-feira (4) ele afirmou que recorreu à ferramenta de inteligência artificial em três momentos distintos da escrita.

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A declaração foi feita um dia depois de receber o prêmio e chamou a atenção por ocorrer pouco tempo após a Academia Goncourt retirar outro romance da disputa por suspeitas de ter sido produzido com auxílio de inteligência artificial (IA).

Ao explicar como utilizou a ferramenta, Jaenada contou que incluiu no livro uma frase gerada pelo ChatGPT, como uma brincadeira com os leitores. Segundo ele, os integrantes do júri foram informados sobre a passagem durante a cerimônia de premiação. “Se isso vazar, vou saber de onde veio”, brincou o escritor.

Em outra ocasião, o autor inseriu um trecho produzido pela inteligência artificial para ironizar as respostas absurdas que recebeu ao consultar a ferramenta sobre uma questão técnica. A terceira utilização ocorreu durante as pesquisas para o desenvolvimento da obra.

Jaenada também comentou o impacto da tecnologia no mercado editorial e defendeu que os escritores precisam aprender a lidar com os recursos de inteligência artificial, em vez de ignorar sua existência.

“Não acho que seja possível impedir o avanço da inteligência artificial. Não podemos fingir que ela não existe. É preciso usá-la, reconhecer sua existência e, acima de tudo, aprender a domá-la. Ela precisa ser útil”, afirmou.

Polêmica envolve outro romance retirado da disputa

A revelação do vencedor do Goncourt ocorre em meio à discussão sobre os limites do uso de inteligência artificial na literatura. Poucas semanas antes, a Academia retirou da lista de indicados o livro C’était ça ou mourir, do escritor canadense-haitiano Thélyson Orélien, após suspeitas de que boa parte da obra teria sido produzida por ferramentas de IA.

O romance havia vendido mais de 35 mil exemplares na França e conquistado o prêmio literário da rede de livrarias Fnac. A suspeita ganhou força depois que o jornalista Samuel Fitoussi submeteu trechos da obra ao Pangram, ferramenta de detecção de textos gerados por inteligência artificial, e apontou indícios de autoria artificial.

Em setembro, a Academia Goncourt informou que análises realizadas por pesquisadores e jornalistas indicavam que o livro provavelmente havia sido produzido, em grande parte, com inteligência artificial. A entidade justificou a decisão com a necessidade de preservar a integridade de uma premiação dedicada à literatura escrita por seres humanos.

Orélien negou que tivesse utilizado a tecnologia para produzir o romance e, em outubro, classificou as acusações como calúnia. Na mesma ocasião, reconheceu ter cometido plágio em trabalhos anteriores.

Na semana seguinte, a editora canadense Boréal anunciou o encerramento da parceria com o escritor. A empresa também informou que não faria novas tiragens do livro depois de identificar outras evidências de uso de inteligência artificial durante o processo de escrita.

Livro premiado revisita assassinato ocorrido em Paris

Com aproximadamente 530 páginas, L’Inconnue du quai de Javel aborda o assassinato não solucionado de Louise Cansot, modelo de artistas de 29 anos encontrada morta em Paris, em 1949.

Conhecida na região de Montparnasse como a mulher dos cem retratos, Cansot posava para pintores e escultores. Na época, a investigação policial não conseguiu identificar o responsável pelo crime.

No romance, Jaenada retoma o caso para reconstruir a trajetória da vítima e examinar como ela foi apresentada pelas autoridades e pela imprensa daquele período.

O escritor conquistou o prêmio na primeira rodada de votação, com seis votos, contra três recebidos por Sylvain Prudhomme. Antes da vitória, Jaenada havia chegado à lista de finalistas do Goncourt outras quatro vezes.

Considerado o principal reconhecimento literário da França, o Prêmio Goncourt concede ao vencedor uma quantia simbólica de 10 euros, cerca de R$ 61. A distinção, no entanto, costuma impulsionar as vendas do livro escolhido.

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