Com o mercado de trabalho resiliente e os salários em alta, os economistas e analistas do mercado vêem a perspectiva de que o Federal Reserve (Fed) volte a elevar os juros na reunião de dezembro, após pausa no fim de outubro .
Para o Brasil, esse cenário externo mais restritivo leva a um dólar mais forte, o que reduz o espaço do Banco Central (BC) cortar a taxa Selic em meio a crescentes incertezas fiscais domésticas.
Payroll de outubro: dobro de vagas criadas
O relatório, conhecido como payroll , mostrou que a economia americana gerou em outubro mais que o dobro das cerca de 65 mil vagas esperadas.
A taxa de desemprego recuou marginalmente, de 4,2% para 4,1%, mesmo com o aumento da taxa de participação na força de trabalho, que subiu de 61,8% para 61,9%.
Para Felipe Mecchi, economista do C6 Bank, a queda do desemprego, mesmo em um cenário de aumento da participação, reforça a leitura de um mercado de trabalho sólido. O economista avalia que o avanço da renda pode, de um lado, ajudar a sustentar o consumo das famílias e, de outro, dificultar o controle da inflação, especialmente nos serviços.
“O destaque é a qualidade do número”, afirma Vinicius Flores, sócio da Stratton Capital Nova York. Ele aponta que 159 mil das vagas vieram do setor privado, indicando que a aceleração não está sendo sustentada pelo governo.
A evolução da renda também surpreendeu, com ganhos salariais avançando 0,4% no mês e 3,1% no acumulado de 12 meses.
Os dados de agosto e setembro foram revisados para cima, passando para 84 mil postos, destaca Andressa Durão, economista do ASA. Isso eleva a média móvel trimestral de criação de vagas para 137 mil.
Mônica Araújo, economista-chefe da InvestSmart XP, avalia que os números mostram uma recuperação do mercado de trabalho americano, após alguma desaceleração do ritmo de criação de vagas observada nos meses anteriores.
Mercado de trabalho está forte nos EUA
Até a última reunião, o Fed sinalizava cautela ancorado na percepção de um mercado de trabalho que parecia perder força. Esse argumento, agora, enfraqueceu.
A avaliação é de que a economia americana não caminha para uma desaceleração, o que impulsiona o consumo das famílias e pode dificultar o controle da inflação, especialmente nos serviços.
Fed deve elevar juros para controlar inflação
Para Gabriel Foglieni, da Eleva Invest, a combinação de emprego firme e salário acelerando fortalece a aposta de nova alta de juros em dezembro.
André Valério, economista sênior do Inter, pontua que a robustez do mercado aumenta a probabilidade de aperto no fim do ano. Segundo ele, se mantida essa trajetória, o banco central americano deverá voltar a fazer novos aumentos já em março.
Para Valério, após um período de desaceleração no segundo semestre de 2025, o mercado reacelerou, com destaque para as atividades cíclicas, que têm crescido acima da média. Essa conjuntura se choca com “dados de inflação reacelerando devido aos preços de energia”. Todo esse cenário, deve impactar a curva de juros, aumentando a inclinação e consolidando as apostas de que o Fed aperte a política monetária na última reunião do ano, afirma Mônica.
Como os juros mais altos nos EUA afetam a Selic no Brasil
A sinalização de juros elevados por mais tempo nos Estados Unidos reverbera nos ativos de risco e emergentes, reduzindo a atratividade desses mercados e fortalecendo a moeda americana.
Segundo Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, o payroll tem efeitos que atravessam fronteiras, influenciando os fluxos internacionais de capital, o câmbio e a curva de juros no Brasil.
A transmissão desse impacto ocorre em um momento particularmente sensível para a economia brasileira, que lida com o dólar próximo a R$ 5,50 e com a reprecificação do risco fiscal após o segundo turno das eleições.
Essa conjunção de fatores externos e internos dificulta o trabalho do Comitê de Política Monetária (Copom). “Um câmbio mais alto pressiona a inflação e reduz o espaço para cortar a Selic”, explica André Matos, CEO da MA7 Capital.
Segundo Mendes, quando o diferencial de juros entre os países diminui, a pressão sobre o câmbio aumenta. “O Brasil pode oferecer juros muito superiores aos americanos, mas esse diferencial precisa compensar também o risco fiscal, a volatilidade cambial e a possibilidade de desvalorização dos ativos. Não basta pagar mais juros, é preciso oferecer confiança”, diz o consultor da Manchester Investimentos.
Apesar da pressão sobre os juros futuros — que exige retornos mais elevados da bolsa para compensar o risco — o efeito do cenário americano traz alguns contrapesos para as ações locais.
Fábio Murad, da Wiser Asset, observa que o emprego forte afasta os temores de uma recessão nos EUA, “favorecendo as perspectivas de crescimento global e de demanda por commodities”, o que beneficia empresas brasileiras.
Contudo, os especialistas são unânimes em apontar que o futuro do custo de capital interno dependerá das sinalizações de Brasília. Como resume Matos, “sem um sinal fiscal crível, qualquer vento contrário vindo de fora pesa mais aqui do que em outros emergentes”.
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