“O tabagismo é amplamente reconhecido como o maior fator de risco evitável causador de morte e outras inúmeras doenças, mas o seu impacto na cavidade bucal e orofaringe — a primeira via de contato com as substâncias tóxicas do cigarro — muitas vezes é subestimado. Doenças destrutivas na gengiva, falhas em procedimentos cirúrgicos e o desenvolvimento de lesões pré-cancerosas e malignas estão diretamente ligados ao hábito de fumar”, afirma Janaina Rossin, dentista e membro da Câmara Técnica de Periodontia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP).

Segundo a especialista, a fumaça do cigarro altera o microambiente bucal de forma profunda , afetando tanto os tecidos moles (gengiva e mucosa) quanto os tecidos duros (dentes e osso alveolar). O tabagismo causa agressão térmica, química e vascular na região.

Periodontite: a principal consequência do cigarro

A principal complicação bucal associada ao tabagismo é a periodontite , inflamação crônica grave que afeta a gengiva e outras estruturas que sustentam os dentes e pode levar à destruição gengival e perda óssea.

“Fumantes apresentam um risco de desenvolver periodontite destrutiva de 5 a 6 vezes maior em comparação a não fumantes, com estudos estimando um aumento de risco de pelo menos 50% de forma dose-dependente: quanto maior o consumo, maior o dano ”, explica Rossin.

Além de favorecer a doença, o cigarro mascara os sinais inflamatórios . A dentista diz que o tabaco promove a vasoconstrição (estreitamento dos vasos sanguíneos) na gengiva. Por isso, o sangramento gengival, que é o sintoma mais clássico, é “reduzido”, criando a falsa impressão de gengiva saudável enquanto a destruição óssea progride silenciosamente.

Além disso, ele altera a flora bacteriana bucal , reduzindo as bactérias protetoras e favorecendo o aumento de patógenos periodontais agressivos.

Câncer de boca e outras doenças

O tabagismo está entre as principais causas do câncer de boca . “Quando combinado ao consumo frequente de álcool, o risco de câncer bucal aumenta de forma exponencial. O câncer de boca diagnosticado em estágios avançados apresenta uma taxa de sobrevida em 5 anos de apenas cerca de 20%”, alerta a especialista.

Segundo ela, antes do aparecimento de um tumor, a mucosa exposta ao tabaco pode desenvolver lesões benignas ou potencialmente malignas, como a leucoplasia (manchas brancas que não saem ao raspado) e a eritroplasia (manchas avermelhadas).

Há ainda outras condições bucais associadas ao fumo , como:

cárie dentária : associada à redução do fluxo salivar e às alterações no microbioma oral;

halitose : mau hálito persistente provocado por compostos sulfurados voláteis e boca seca;

questões estéticas : ocorre a pigmentação e surgimento de manchas nos dentes e restaurações;

complicações cirúrgicas : aumento da incidência de alveolite seca (infecção dolorosa após a extração de um dente), ocorrência de peri-implantite (inflamação e perda óssea ao redor de implantes dentários) e cicatrização mais lenta;

dor orofacial : maior prevalência de desconfortos e dores na região bucofacial.

Cuidados indispensáveis com a saúde bucal

Os cuidados básicos incluem higiene diária rigorosa , com escovação regular com creme dental fluoretado e uso diário de fio dental ; redução no consumo de açúcares livres ; gerenciamento de fatores de risco , como xerostomia (boca seca), diabetes e interações medicamentosas.

A frequência de consultas ao dentista, segundo Rossin, pode variar de pessoa para pessoa. Enquanto pacientes de baixo risco podem realizar visitas mais espaçadas, pacientes fumantes se enquadram na categoria de alto risco e necessitam de consultas com frequência igual ou superior ao padrão de 6 em 6 meses .

“O consultório odontológico também é um local estratégico para intervenções de cessação do tabagismo através de aconselhamento comportamental e suporte profissional”, ressalta.

Parei de fumar, e agora?

Segundo a especialista, a interrupção do tabagismo traz benefícios concretos, mensuráveis e progressivos para a saúde bucal. “Enquanto alguns sintomas melhoram em poucos dias, a recuperação dos tecidos e a redução do risco de câncer ocorrem ao longo de meses e anos”, afirma Rossin.

Veja os principais benefícios ao longo do tempo:

em 5 dias : recuperação da microcirculação e fluxo sanguíneo gengival;

em poucas semanas : há redução significativa da halitose direta do tabaco, e manchas impregnadas no esmalte podem ser removidas com limpeza profissional no consultório;

em 3 meses : regressão espontânea de cerca de 30% das lesões de leucoplasia;

de 1 a 2 anos : resposta ao tratamento periodontal equivalente à de não fumantes, além da redução da profundidade de bolsas;

em 4 anos : queda de 35% no risco de desenvolvimento de câncer de boca;

10 a 20 anos : o risco de perda dentária e de câncer bucal se aproxima do de pessoas que nunca fumaram.

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