O movimento de perdas coincidiu com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que surpreendeu boa parte dos investidores, que projetavam a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), considerado mais pró-mercado. Mas a alta em boa parte do ano e a queda recente não se explicam apenas pelo fator político.
A trajetória da Petrobras em 2026 foi marcada por uma combinação rara de fatores favoráveis. De um lado, a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã elevou os preços do petróleo a níveis que impulsionaram os lucros das petroleiras globais. De outro, a estatal conseguiu combinar forte geração de caixa, perspectiva de dividendos elevados e uma política comercial que, mesmo alvo de debate, foi vista pelo mercado como relativamente preservada. A partir do fim de outubro, porém, essa equação começou a mudar.
Eleição e dúvidas sobre o diesel iniciaram a correção
As ações passaram a perder força logo após o segundo turno das eleições presidenciais. Além da reprecificação de ativos domésticos diante da continuidade do governo Lula, investidores passaram a monitorar com atenção o tema dos combustíveis.
O debate ganhou força após surgirem informações de que a Petrobras enfrentaria dificuldades para cumprir as metas previstas em sua estratégia comercial para diesel, gasolina e GLP, levantando questionamentos sobre possíveis ajustes na política de preços e, principalmente, sobre o grau de preservação da governança da companhia.
Nesse contexto, o mercado voltou a discutir um dos principais riscos historicamente associados à estatal: a possibilidade de interferência política na definição dos preços dos combustíveis.
Apesar da preocupação, os grandes bancos internacionais mantiveram uma visão relativamente construtiva para a companhia.
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O JPMorgan reiterou recomendação overweight (exposição acima da média, equivalente à compra) e destacou que a principal questão não é necessariamente o nível dos preços dos combustíveis, mas sim a preservação do atual arcabouço de governança. O banco estima rendimento de fluxo de caixa livre de 17,5% para 2027 e avalia que a estatal continua negociando com desconto relevante em relação às petroleiras internacionais.
O Morgan Stanley seguiu linha semelhante, afirmando que o mercado passou a precificar um cenário excessivamente pessimista para a companhia. Segundo o banco, mesmo em exercícios que simulam retirada de subsídios, ausência de reajustes nos combustíveis e aumento da tributação, a Petrobras continua apresentando forte geração de caixa e dividendos atrativos. O banco manteve recomendação overweight e preço-alvo de US$ 31 para os ADRs (recibo de ações negociado na Bolsa de Nova York) da companhia.
Petróleo entra em cena e amplia as perdas
Nesta última semana, as eleições – de outro país – influenciaram e muito o cenário para a Petrobras. Após as eleições legislativas americanas, o petróleo registrou uma forte correção. A vitória dos democratas para o controle do Congresso aumentou a percepção de que o governo de Donald Trump poderá enfrentar maior pressão para buscar uma solução negociada para o conflito com o Irã.
A perspectiva de redução do prêmio geopolítico embutido na commodity levou o Brent a despencar cerca de 17% em relação às máximas de outubro, passando de aproximadamente US$ 118 para perto de US$ 98 por barril.
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Segundo o Goldman Sachs, grande parte da valorização do petróleo em outubro refletia um prêmio geopolítico estimado em US$ 27 por barril. Com o enfraquecimento dos temores sobre uma escalada do conflito, esse prêmio começou a ser desmontado.
A correção atingiu em cheio as petroleiras latino-americanas. O banco calcula que os ADRs da Petrobras acumulavam queda de 26% desde os picos de outubro até 5 de novembro, desempenho pior que o observado no ETF americano do setor de energia, o XLE, que recuou 11% no mesmo período.
Queda do Brent reduz pressão por reajustes
Paradoxalmente, o recuo do petróleo também trouxe um aspecto positivo para a Petrobras. Relatório do Itaú BBA destaca que a queda do Brent de cerca de US$ 117 para US$ 100 por barril aproximou os preços internacionais dos combustíveis dos valores praticados pela estatal.
Segundo os cálculos do banco, os preços do diesel passaram a ficar aproximadamente 18% abaixo da paridade de importação, ou 4% acima da paridade quando considerado o subsídio de R$ 1,40 por litro atualmente vigente. Já a gasolina passou a ser negociada cerca de 4% abaixo da paridade de exportação.
Na prática, isso reduz a urgência de reajustes relevantes nos combustíveis e diminui parte da pressão que vinha preocupando investidores. Ainda assim, o Itaú BBA ressalta que, caso os preços atuais permaneçam até o fim do ano, a companhia poderá não cumprir integralmente as exigências médias anuais de sua política comercial, o que poderia levar a reajustes adicionais ou até a uma flexibilização dos prazos de cumprimento das metas para 2027.
Imposto sobre exportação continua no radar
Outro fator de atenção para o mercado foi a decisão da Camex de prorrogar até o fim do ano o imposto de 12% sobre exportações de petróleo.
Embora a medida afete mais diretamente empresas como PRIO ( PRIO3 ) e Brava Energia ( BRAV3 ), ela reforçou preocupações com o ambiente regulatório do setor e com a possibilidade de novas intervenções governamentais caso os preços dos combustíveis continuem elevados.
Para o JPMorgan, a Petrobras é menos exposta ao tributo do que outras produtoras independentes, mas a extensão da medida contribui para manter parte do desconto atualmente aplicado às ações do setor.
O que os analistas esperam agora?
Após a forte correção, a maior parte dos bancos segue enxergando valor na Petrobras. O Goldman Sachs manteve recomendação de compra para a companhia e destaca que, mesmo considerando um cenário-base mais conservador, com Brent a US$ 75 por barril em 2027, a Petrobras ainda apresentaria rendimento de fluxo de caixa livre próximo de 17%, patamar muito superior ao observado nas grandes petroleiras globais.
O banco observa, porém, que a Petrobras continua sendo uma das empresas mais sensíveis às oscilações do petróleo entre seus pares latino-americanos. Cada variação de US$ 10 no Brent gera impactos relevantes nos indicadores de geração de caixa da companhia.
Assim, a narrativa para a estatal teve diversas reviravoltas em poucos dias – se até outubro os investidores observavam principalmente os benefícios do petróleo elevado e dos dividendos robustos, agora o foco passou a incluir o ritmo de desaceleração do Brent, as discussões sobre a política comercial de combustíveis, o ambiente regulatório e, sobretudo, a capacidade da companhia de preservar sua governança.
Por enquanto, contudo, a conclusão predominante entre JPMorgan, Morgan Stanley, Goldman Sachs e Itaú BBA é que a correção recente foi mais intensa do que a deterioração dos fundamentos da empresa. O consenso continua apontando para forte geração de caixa, dividendos elevados e valuation descontado, embora acompanhado de uma dose bem maior de volatilidade do que a observada ao longo da maior parte de 2026.
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