A instituição determinou a liquidação do Ueno após identificar irregularidades em empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio banco. Em suma: o BCP constatou insuficiência de capital.

A intervenção do Banco Central paraguaio bloqueou contas e investimentos. Isso deixou correntistas sem acesso a recursos – o que, evidentemente, provocou dificuldades para a população do país.

Em meio à crise, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo. Ele foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do banco Ueno, até março de 2025.

Além disso, Peña nomeou o ex-presidente do banco Carlos Carvallo para comandar o Banco Central paraguaio em 2023.

O Olhar Digital conversou com especialistas sobre a liquidação do Ueno, a segurança do nosso dinheiro e impactos de crises como a do banco digital paraguaio e do banco Master.

Banco Ueno: o que aconteceu?

O Ueno Bank era um dos maiores bancos digitais do Paraguai. Mas, com o índice de solvência desabando para menos da metade do mínimo exigido por lei, o banco fechou as portas.

Índice de solvência é o indicador que mede a capacidade de um banco de honrar seus compromissos de longo prazo e absorver prejuízos sem quebrar.

Na prática, este índice mostra se a instituição tem mais ativos (dinheiro, bens e créditos a receber) do que dívidas e obrigações com os clientes.

O Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, quebrou por falta de capital – Imagem: Divulgação

No caso do Ueno, o banco assumiu um buraco financeiro gigantesco ao mascarar empréstimos irregulares e calotes de empresas do próprio controlador.

Com o dinheiro preso em operações de fachada e sem reservas reais para cobrir os saques, a instituição perdeu a solvência. Isto é, ficou sem recursos para devolver o dinheiro aos correntistas.

A quebra do banco Ueno congelou aplicativos, cartões e dinheiro dos seus aproximadamente três milhões de clientes.

Segundo um estudo independente feito pela Equifax Paraguay SA, importante agência de crédito do país, o Ueno possibilitou que mais de um milhão de paraguaios que nunca haviam tido uma conta bancária passassem a fazer parte do setor financeiro. E essas pessoas foram deixadas na mão.

“Quando essa porta fecha de um dia para o outro, com aplicativo e cartões bloqueados, muita gente conclui que é melhor voltar para o dinheiro vivo”, diz Lea Vidigal, doutora em Direito Econômico pela USP, em entrevista ao Olhar Digital .

“O retrocesso aparece no comportamento das pessoas”, acrescenta a advogada, que também é sócia do Lea Vidigal Advocacia.

‘Tamanho não é sinônimo de solidez’, diz especialista

Para Vidigal, o caso do banco Ueno mostra que tamanho não é sinônimo de solidez. E Pedro Saad Abud, especialista em mercado de capitais, concorda com ela.

“O que sustenta uma instituição é capital, liquidez, governança e um modelo de negócio sustentável”, afirma Abud, que também é advogado e atua no escritório ABE Advogados.

Afinal, existe alguma forma de garantir que nosso dinheiro está seguro? Segundo a advogada Vidigal, “o que existe são camadas de proteção e o cliente precisa saber em qual delas está”.

A primeira: saber quem, juridicamente, guarda o seu dinheiro. “Muitas fintechs não são bancos e sim instituições de pagamento”, começa Vidigal.

“Nos bancos associados ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), estão cobertos conta corrente, poupança, CDB, RDB, LCI e LCA, até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição ou conglomerado, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos”, diz a especialista.

A advogada continua: “O saldo em conta de pagamento não tem FGC. A proteção dele é outra. Por lei, esses recursos formam um patrimônio separado e não entram na massa da instituição se ela quebrar.”

“Vale confirmar no site do Banco Central se a instituição é autorizada e qual é o seu tipo”, diz especialista – Imagem: Blossom Stock Studio/Shutterstock

A segunda camada é o comportamento do cliente. “É preciso respeitar os limites do FGC e dividir o dinheiro entre conglomerados diferentes porque trocar de marca dentro do mesmo grupo não adianta”, diz Vidigal.

A dica da especialista é: “A reserva maior pode ficar em títulos públicos. Vale também confirmar no site do Banco Central se a instituição é autorizada e qual é o seu tipo. E é bom desconfiar de rendimento muito acima do mercado porque o FGC não é selo de qualidade.”

Por fim, a terceira camada: supervisão independente. E a advogada frisa que isso não depende do cliente.

“No Paraguai, o presidente do banco central tinha vindo do próprio Ueno. Um regulador capturado é um risco que nenhum correntista consegue diluir distribuindo o dinheiro”, explica a especialista.

No Brasil, o ambiente regulatório vem sendo reforçado, segundo o advogado Pedro Saad Abud.

“Após o caso Master, passou-se a exigir que bancos excessivamente alavancados mantenham parte dos recursos em títulos públicos”, diz o especialista.

Abud acrescenta: “Em paralelo, o capital mínimo exigido das instituições autorizadas foi recalibrado conforme as atividades exercidas, com elevação gradual até 2028.”

Três pontos para você ficar de olho

Quando o assunto é a segurança do seu dinheiro, existem três aspectos para os quais você deve olhar. Quem aponta isso ao Olhar Digital é Nathália Carmo, especialista em Segurança da Informação e referência em Gestão de Identidades e Acessos.

Para Carmo, que também é COO e sócia da IAM Brasil, os três aspectos são: a capacidade financeira do banco, a proteção aplicável ao dinheiro depositado e a segurança das contas e transações.

“Um aplicativo pode ter bons mecanismos de autenticação e, ainda assim, pertencer a uma instituição com problemas financeiros”, observa a especialista.

Carmo continua: “No Brasil, o primeiro cuidado é consultar o cadastro do Banco Central e identificar qual instituição efetivamente mantém a conta ou emite o investimento. Essa verificação ajuda a confirmar a legitimidade da operação, embora a autorização para funcionar não elimine os riscos.”

No que diz respeito à cibersegurança, as dicas da especialista são: proteger o celular, usar autenticação adicional quando disponível, ativar alertas e nunca compartilhar senhas ou códigos.

“Distribuir recursos entre instituições de conglomerados diferentes também pode reduzir a concentração de risco e a dependência de um único serviço”, acrescenta Carmo.

“A proteção precisa combinar escolhas financeiras conscientes com cuidados digitais”, recomenda a especialista.

Liquidação do Ueno Bank afeta confiança no sistema financeiro

Para Carmo, a principal consequência do caso Ueno no Paraguai é a perda de confiança.

“Para quem acabou de entrar no sistema financeiro, a dificuldade de acessar o próprio dinheiro pode comprometer a confiança em todo o ambiente digital”, diz a especialista.

Carmo frisa que as crises envolvendo os bancos Ueno e Master não têm a ver com ataques cibernéticos. “Portanto, não podemos apresentar essas crises como prova de que a tecnologia bancária, por si só, não é segura”, diz a especialista.

Ueno e Master não quebraram por serem bancos digitais, frisa especialista – Imagem: Sutthiphong Chandaeng/Shutterstock

O especialista em mercado de capitais acrescenta: “Casos de grande visibilidade podem levar o público a associar indevidamente inovação a risco, o que seria um erro.”

Ainda segundo Abud, o “risco é que a perda de confiança afaste justamente o público mais vulnerável e menos familiarizado com produtos financeiros”.

Já a especialista em Segurança da Informação aponta outro risco: crises financeiras criam oportunidades para golpes.

“A urgência de recuperar o dinheiro pode tornar o cliente mais vulnerável a falsos atendentes, páginas fraudulentas e cobranças para liberar valores”, aponta Carmo.

Para a especialista, democratizar o acesso a bancos exige mais do que facilitar a abertura de contas.

“As instituições precisam oferecer atendimento acessível, explicar riscos e garantias, proteger dados e identidades e manter controles sobre quem pode acessar informações ou autorizar operações”, diz Carmo.

A especialista acrescenta: “Essa responsabilidade não pode ser transferida integralmente ao consumidor.”

Bancarização e cidadania financeira

Para a advogada Lea Vidigal, é preciso separar a bancarização de cidadania financeira.

“Ter conta é acesso. Cidadania financeira, como define o Banco Central do Brasil, é o exercício de direitos e deveres que permite ao cidadão gerenciar bem seus recursos”, diz a especialista em Direito Econômico.

A advogada continua: “A cidadania financeira se constrói com inclusão, educação financeira, proteção do consumidor e participação no diálogo sobre o sistema financeiro.”

Em suma: “Quem abre conta pelo celular, mas não sabe se o dinheiro está garantido, até quanto, nem a quem recorrer quando o banco fecha, foi incluído, mas ainda não exerce cidadania financeira”, explica Vidigal.

Outro ponto frisado pela especialista, que ecoa o que outros especialistas consultados pela reportagem disseram: nem o Ueno nem o Master quebraram por serem bancos digitais.

“Segundo o Banco Central paraguaio, o Ueno emprestava acima dos limites legais a empresas ligadas aos próprios donos, mesmo depois de ter sido alertado. E isso acontecia num ambiente em que banco, regulador e Presidência eram muito próximos”, começa a advogada.

“Já o Master cresceu captando com CDBs muito acima do mercado, apoiado no FGC”, continua Vidigal.

O ponto, segundo a advogada, é o seguinte: “São problemas antigos de governança, conflito de interesses e supervisão, com roupa nova, que não são exclusivos de fintechs ou instituições de pagamento.”

“A tecnologia reduz distância, burocracia e custo, mas não substitui a regulação prudencial”, acrescenta a especialista. “Inclusão sem proteção e sem supervisão independente não gera cidadania; gera clientes expostos.”

O Pix foi desenvolvido pelo Banco Central e, desde 2022, é o instrumento de pagamento mais usado no Brasil – Imagem: Blossom Stock Studio/Shutterstock

Para Vidigal, a lição mais valiosa é separar a infraestrutura da instituição. E cita como exemplo o Pix .

“O Pix é uma infraestrutura pública, operada pelo Banco Central, aberta a todos em condições iguais, e não pertence a nenhum banco”, diz a advogada.

“Quando uma instituição quebra, o cliente perde aquela conta, mas não perde o meio de pagamento: cadastra a chave em outra instituição e continua usando”, continua a especialista.

Segundo Vidigal, a democratização digital resiste a crises bancárias quando três condições se juntam: “a infraestrutura é pública, o cliente sabe exatamente o que está protegido e a supervisão efetiva acompanha o crescimento das instituições”.

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