Uma mancha verde com cerca de 30 km de extensão está se alastrando pelas águas do Rio Bacajá, no Pará. Segundo indígenas e ribeirinhos, a poluição ambiental está provocando a morte de peixes e deixando as comunidades locais sem acesso à água potável.

A mancha no rio atinge diretamente os municípios de Anapu e Senador José Porfírio, afetando a Terra Indígena Trincheira Bacajá (do povo Xikrin), a Terra Indígena Arara da Volta Grande (do povo Arara) e diversas comunidades ribeirinhas.

Análises laboratoriais concluídas na quinta-feira (5) pelo Laboratório Central da Secretaria de Saúde Pública do Pará (Lacen) confirmaram que o fenômeno é causado por uma superproliferação de cianobactérias.

🔎 Cianobactérias são microrganismos com alta capacidade de realizar a fotossíntese oxigênica, produzindo oxigênio e se proliferando rapidamente.

"O risco é alto, a situação é grave. É necessário que se suspenda todo contato com a água do rio, porque existe um potencial grande de presença de cianotoxinas", alerta o especialista Dilailson Araújo de Souza, que avaliou os resultados do Lacen.

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O especialista também reforça que métodos tradicionais de purificação, como coar a água em panos ou usar filtros de barro, não são eficazes para eliminar as toxinas dessas bactérias.

De acordo com o laudo, em alguns pontos do rio, a concentração dessas bactérias chegou a 213.520 células por mililitro (mL), ou seja, valor quatro vezes superior ao limite máximo permitido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que é de 50.000 células/mL.

Em uma das amostras coletadas, a densidade era tão extrema que o laboratório não conseguiu mensurar, segundo pesquisadores do Instituto de Monitoramento Territorial Ambiental Independente e Ciência Intercultural da Volta Grande do Xingu (MATI-VGX), que detectaram o problema no último dia 27 de outubro.

O Ministério Público Federal (MPF) em Altamira informou que enviou pedidos de providências urgentes ao Poder Público.

Mancha verde tóxica se alastra pelo rio Bacajá, no Pará.

O surgimento da mancha verde começou a ser relatado por indígenas da aldeia Pykayako, do povo Xikrin, por volta do dia 23 de outubro. No dia 27 de outubro, a mancha foi oficialmente detectada pelos pesquisadores do MATI-VGX.

De acordo com especialistas, a proliferação dessas bactérias está diretamente ligada à seca extrema e à alta temperatura da água. Os pesquisadores também não descartam que a situação tenha sido agravada pelo despejo de contaminantes externos, como agrotóxicos, fertilizantes ou produtos químicos de garimpos ilegais.

Amostras adicionais foram enviadas à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para analisar a presença de metais pesados, segundo os cientistas.

A rotina das comunidades que dependem do Rio Bacajá foi completamente alterada. O consumo de peixes e o uso da água para banho, consumo e tarefas domésticas foram suspensos por recomendação.

"Nasci e cresci aqui e nunca tinha visto isso. Não temos mais como tomar banho no rio, também não podemos pescar", desabafa Paulo Passos Ferreira, indígena do povo Arara e pesquisador do instituto.

A poluição ocorre às vésperas do período de defeso e reprodução dos peixes na região, período chamado de piracema, que começa no próximo dia 15 de novembro.

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