“A Dilma é muito boa para cumprir ordens, mas não para decidir. O PT optou pela lealdade e a honra, e não aceitaram fazer um acordo com o Cunha. Ele [Eduardo Cunha] queria continuar roubando, afinal, tinha muito poder como presidente do Congresso” , declarou Lula, conforme Chastalo.
A conversa foi registrada em 19 de outubro de 2018, quando o petista estava preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR).
Lula também atribuiu o impeachment de Dilma à decisão da ex-presidente de não negociar com Cunha. Na avaliação do presidente, ela entrou em uma disputa política sem ter apoio suficiente.
“Se Dilma tivesse lido [A Arte da Guerra, de Sun Tzu] e aplicado alguns ensinamentos desse livro, não teria sofrido o impeachment. Ela se recusou a conversar com o Eduardo Cunha, e o deputado já havia dito que, se fosse contra ele, iria colocar o impeachment para votação. Dilma tinha pouca gente ao seu lado para brigar, menos de 70 deputados e alguns medalhões. E um bom comandante não entra na guerra quando avalia que vai perder…” , disse Lula.
O impeachment da petista foi aberto em 2015, depois que Eduardo Cunha aceitou denúncia por crime de responsabilidade relacionada a decretos de crédito suplementar e às chamadas “pedaladas fiscais” . Em agosto de 2016, o Senado aprovou o afastamento definitivo da presidente por 61 votos a 20, e o vice Michel Temer (MDB) assumiu o cargo.
Procurado pelo Poder360 , o ex- presidente da Câmara Eduardo Cunha discordou dos relatos do livro a respeito do acordo que poderia manter Dilma na Presidência. Afirmou que Lula ou Chastalo mentem. Citou um encontro na casa do empresário Joesley Batista , no qual Lula, segundo Cunha, propôs barrar o processo. O ex-deputado disse ter recusado a proposta.
Leia a nota de Cunha na íntegra:
“Tudo com relação ao impeachment está descrito no meu livro ‘Tchau, querida: o diário do impeachment’ onde inclusive eu relato um encontro com o próprio Lula, a seu pedido, na casa de Joesley Batista, onde ele tentou me propor um acordo para derrotar a abertura do processo de impeachment –encontro esse ocorrido em 28 de março de 2016, 20 dias antes da data de votação na Câmara, ocorrida em 17 de abril de 2016. A sua proposta de acordo foi recusada por mim. Logo, se o policial realmente escreveu o que ouviu do Lula, me parece que ele estava mantendo o seu hábito de mentir. Se Lula não disse isso, quem está mentindo é o próprio policial. Aliás acho muito estranho esse livro, que me parece mais uma tentativa de levantar a bandeira do lava jatismo daquela quadrilha de Curitiba, que tanto fez ao país e produziu figuras execráveis, com Moro e cia.”
O Poder360 procurou, por e-mail, a assessoria de imprensa do Banco dos Brics, presidido por Dilma Rousseff para perguntar se gostaria de se manifestar sobre as declarações de Lula relatadas no livro. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso os citados enviem manifestação a este jornal digital.
SOBRE A OBRA
Além dos episódios políticos, o livro apresenta detalhes da rotina de Lula na prisão, incluindo alimentação, exercícios físicos, leitura, visitas de familiares e conversas com policiais federais.
Na introdução, Chastalo afirma que os registros representam sua percepção dos acontecimentos e reconhece que algumas conversas foram anotadas horas ou dias depois de terem ocorrido. Por isso, traz a possibilidade de imprecisões na reprodução das falas.
Lula deixou a prisão em 8 de novembro de 2019, depois que o STF decidiu que a execução da pena deveria ocorrer, como regra, só depois do trânsito em julgado da condenação.
Em 2021, o Supremo anulou as condenações do petista nos processos julgados pela Justiça Federal de Curitiba.
Esta reportagem tem como coautora a estagiária de jornalismo Camila Fioranelli, sob a supervisão do editor Lucas Fantinatti.

