O episódio faz parte da trajetória de Fábio F., trader e cliente da Clear Corretora , que contou ao InfoMoney , durante a Casa Clear 2026 , como a expectativa de ganhos rápidos e a dificuldade de interromper as operações comprometeram suas decisões no mercado.

A ilusão do lote maior

Antes de compreender os riscos do day trade, Fábio já imaginava quanto poderia ganhar. A expectativa de dinheiro fácil o levou a começar a operar sem o preparo necessário para avaliar as consequências de suas decisões. “Achei que seria um mercado de dinheiro fácil”, recorda.

A possibilidade de ampliar os ganhos operando com mais contratos passou a orientar suas escolhas. Em vez de considerar também o tamanho das perdas potenciais, ele concentrava sua atenção em quanto poderia ganhar caso aumentasse o lote.

O salto de poucos contratos para posições maiores parecia, naquele momento, uma maneira de acelerar os resultados. O que Fábio ainda não percebia era como essa lógica poderia comprometer suas decisões quando o mercado se movesse contra sua posição. “Falei: ‘Então vou encher a mão’. Foi aí que me comprometi”, admite.

A armadilha da recuperação

Antes do pregão em que perdeu R$ 25 mil, Fábio já havia conseguido reverter perdas expressivas aumentando o número de contratos negociados. Em uma dessas ocasiões, chegou a acumular R$ 17 mil negativos durante a manhã, mas recuperou o resultado à tarde. “Teve um dia em que, pela manhã, eu estava com um loss de aproximadamente R$ 17 mil. À tarde, aumentei a quantidade de contratos e reverti esses R$ 17 mil”, conta.

A situação se repetiu em outro pregão, quando também conseguiu recuperar um saldo negativo elevado. “Em outra ocasião, fiquei entre R$ 12 mil e R$ 15 mil no negativo e, à tarde, deu certo”, relembra.

As duas experiências reforçaram a impressão de que seria possível corrigir resultados negativos simplesmente aumentando a exposição ao mercado. Aos poucos, a recuperação das perdas passou a ser vista como algo que poderia se repetir. “Pensei: ‘Qualquer coisa, aumento o lote e reverto o loss’”, revela.

Quando voltou a enfrentar prejuízos, Fábio repetiu a estratégia. Depositou mais dinheiro na corretora e passou a operar com 50 a 100 contratos , ampliando a exposição na tentativa de recuperar o saldo negativo. Nesse processo, a preocupação com o resultado começou a substituir os critérios que deveriam orientar suas entradas.

“Você esquece o operacional, esquece a análise, esquece tudo. É o famoso dia de fúria”, descreve.

Desta vez, porém, a estratégia não produziu a recuperação esperada. Em uma sucessão de entradas na tentativa de reverter as perdas, Fábio realizou 85 operações e encerrou o pregão com prejuízo de R$ 25 mil .

“Para mim, foi muito frustrante perder até R$ 25 mil em um dia”, relata.

O preço do impulso

Segundo Fábio, o prejuízo não foi provocado por uma volatilidade inesperada, mas por erros operacionais agravados pela dificuldade de interromper as negociações. À medida que as perdas aumentavam, a preocupação com o saldo passou a comprometer sua capacidade de análise. “Foi um erro operacional, porque chega um momento em que você vê a boleta ficando negativa e começa a não analisar mais o mercado como deveria”, reconhece.

A perda de disciplina também se refletiu na maneira de interpretar os candles. Em vez de seguir os critérios previstos em sua estratégia, ele passou a reagir às cores das barras no gráfico. “O seu operacional vai por água abaixo. Você fica focado somente na cor do candle: verde, eu compro; vermelho, eu vendo”, observa.

Na tentativa de recuperar dinheiro, cada oscilação passou a provocar uma reação quase automática, sem que Fábio esperasse por uma configuração clara de entrada. “Chega ao ponto de você olhar para a tela e ficar pensando: ‘Vai subir, vai descer’. E aí: ‘Eu compro, eu vendo’”, relata.

O impacto não se limitou ao prejuízo financeiro. Ao recordar a velocidade com que perdeu o controle, Fábio descreve o espanto ao perceber o que havia feito. “Nossa, o que eu fiz?”, reproduz.

Após o episódio, ele decidiu procurar orientação e rever o tamanho das posições. Também passou a observar operadores que conseguiam resultados melhores utilizando menos contratos. “Já vi conhecidos do mercado fazendo muito mais dinheiro com menos contratos do que eu, que operava com vários”, compara.

A busca por simplicidade

Na tentativa de reorganizar suas operações, Fábio se deparou com a diversidade de técnicas disponíveis no day trade. Ainda em fase de aprendizado, percebeu que precisava encontrar um método mais simples e adequado à sua rotina. “Eu precisava de um operacional fácil, porque vi que o day trade não é tão simples. Tem várias técnicas, mas o gráfico é o mesmo para todos”, conta.

A indicação de conhecidos o levou a Robert Machado , analista CNPI-T da Clear Corretora, com quem fez uma mentoria após participar do ChurrasKyn . Seu objetivo era encontrar uma estratégia que pudesse aplicar com mais clareza, sem acumular diferentes métodos. “Falei até com meus conhecidos: ‘Preciso de um operacional simples, mas funcional’. Foi aí que me indicaram o Robert”, explica.

Nesse processo, Fábio passou a concentrar sua análise no Fibonacci , ferramenta de análise técnica utilizada para identificar possíveis regiões de suporte, resistência e objetivos de preço. Segundo ele, o recurso se tornou fundamental para suas operações com mini-índice. “O Fibonacci é uma ferramenta crucial e fundamental, pelo menos no meu operacional, que hoje é focado no mini-índice”, pontua.

A mudança também envolveu reduzir a exposição ao risco e esperar por oportunidades alinhadas à estratégia. Segundo ele, operar com menos contratos tem proporcionado resultados melhores do que os obtidos quando assumia posições maiores.

“Dei uns 10, 15 passos para trás e hoje, com muito menos contratos, faço um valor muito maior do que antes, quando operava com uma quantidade enorme de contratos”, afirma.

O papel da psicanálise

Além de simplificar sua estratégia, Fábio percebeu que precisava dedicar mais atenção ao próprio comportamento. Durante a Casa Clear, uma conversa individual com a psicanalista Marci Delgado reforçou essa preocupação. “Depois, tive uma sessão particular com ela. E o que ela falou para mim? É o meu emocional”, conta.

Uma das orientações foi planejar o pregão antes de iniciar as operações, estabelecendo critérios claros para as decisões. Fábio destacou a recomendação de utilizar um checklist. “Ela me deu algumas dicas: quando você for operar, faça seu checklist, defina seus operacionais, o que vai fazer e como vai fazer”, relata.

A conversa também abordou a importância de respeitar as etapas do aprendizado, sem buscar atalhos para acelerar os resultados. Para quem já havia tentado compensar prejuízos aumentando posições, a orientação trouxe uma reflexão sobre o próprio comportamento. “Tudo é um processo. Você precisa seguir as etapas, do 1 até o 10”, recorda.

Para Fábio, a experiência reforçou a importância do equilíbrio emocional nas decisões, dentro e fora do mercado. “O controle emocional e o psicológico ajudam muito em qualquer tomada de decisão”, considera.

Uma das reflexões que mais chamaram sua atenção foi uma comparação feita pela psicanalista: perder uma oportunidade de entrada seria como ver um ônibus partir. Em vez de correr atrás, o melhor seria aguardar o próximo.

“Se você não conseguir a primeira operação, vai conseguir a segunda, porque o ônibus vai vir de novo. Você vai ter outra operação”, relata.

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