A soma dos investimentos previstos ultrapassa R$ 474 bilhões, levando em conta projetos de concessões de rodovias, ferrovias, terminais portuários, aeroportos, hidrovias e ativos de transmissão de energia elétrica, além de outras modalidades de investimento previstas pelos ministérios.
Há ainda no planejamento os leilões de potência elétrica, que não têm estimativas de investimento divulgadas. O último dessa modalidade, realizado em março, movimentou R$ 515 bilhões em contratos para os vencedores.
No setor de transportes terrestres, o ministério comandado por George Santoro divulgou uma carteira com 36 leilões de rodovias e 18 de ferrovias. Para 2027, o objetivo é atrair R$ 102,68 bilhões em investimentos com 11 leilões rodoviários e R$ 160 bilhões para a malha ferroviária, por meio de chamamentos públicos ou concessões.
Na pasta de Portos e Aeroportos, a carteira lançada pelo ministro Tomé Franca projeta investimentos de até R$ 161,5 bilhões em terminais portuários, aeroportos e hidrovias para o ciclo de 2027 a 2030, considerando obras públicas, concessões, autorizações, linhas de crédito e financiamentos.
A carteira portuária prevê 34 leilões para o ciclo 2027-2030, com investimentos estimados de R$ 20,6 bilhões , além de 70 empreendimentos de autorizações portuárias que devem atrair R$ 33 bilhões . Para as hidrovias, uma das bandeiras da atual gestão, a meta é realizar até 6 concessões em 2027. Seriam as primeiras da história do setor.
O cronograma do MME (Ministério de Minas e Energia) inclui 7 leilões de ativos de transmissão de energia elétrica de 2027 a 2029. Para o ano que vem, serão 3 certames, com investimentos estimados em R$ 50 bilhões , segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).
As disputas para contratação de potência elétrica são feitas por meio dos LRCaps (Leilões para Contratação de Reserva de Capacidade), divididos pelo governo por modalidade de geração. Serão 11 no período de 2027 a 2029 , sendo 3 com possibilidade de uso de baterias, uma novidade no sistema elétrico. Os preços-teto serão definidos posteriormente pelo MME e pela EPE (Empresa de Pesquisa Energética) com base nas necessidades do sistema.
JUROS E PANORAMA FISCAL SÃO DESAFIOS
Para o Head de Infraestrutura da A&M (Alvarez & Marsal), Marcos Ganut , a taxa de juros e o cenário macroeconômico são fatores que devem pesar para as decisões de investimento no Brasil nos próximos 4 anos.
Esses indicadores influenciam diretamente a capacidade de captação das empresas que disputam projetos no mercado brasileiro e podem limitar a contratação de crédito, o endividamento e os investimentos necessários à execução dos empreendimentos.
Na avaliação de Ganut, há “um pouco de ansiedade” no setor sobre o direcionamento que o governo tomará na questão fiscal. “Tem um bom passo de espera para saber como isso vai aterrissar, de fato, para dizer qual vai ser a capacidade de captação desses players” , disse ao Poder360 .
Independentemente do cenário econômico, o executivo defende que o setor de infraestrutura não deveria ter mudanças de rota substanciais nas transições de governo. Embora Lula tenha sido reeleito, haverá trocas relevantes no comando das pastas responsáveis pelos projetos.
“É um negócio que deve ser pensado em longo prazo. O governo deve pensar em longo prazo e o investidor sempre pensa em longo prazo. Quase nenhum ativo traz retorno em 4 anos. Na prática, quem decide entrar em um negócio desse já sabe que naturalmente vai passar por 30 anos, por vários ciclos de governo, com eventual troca de poder” , declarou.
SETORES EM MOMENTOS DISTINTOS
Enquanto rodovias e transmissão de energia são segmentos consolidados no país, o governo tenta avançar em áreas como ferrovias e hidrovias, que enfrentam obstáculos ambientais, sociais, financeiros e logísticos.
O setor rodoviário é considerado um dos mais maduros por representantes do mercado. Há atualmente de 4 a 5 empresas bem estabelecidas, com uma extensa carteira de projetos previstos para os próximos anos. A dúvida, segundo especialistas ouvidos pelo Poder360 , é quanto essas companhias ainda conseguem absorver em novos ativos, caso outros concorrentes não ampliem sua participação.
Já o setor de transmissão é considerado um dos mais seguros para investidores. Ao Poder360, a presidente da Abrate (Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica), , disse que o segmento transmite confiança ao mercado pela resiliência e pela previsibilidade das receitas, com mecanismos como a RAP (Receita Anual Permitida), estabelecida em leilão.
Na última disputa do ano no setor, o governo contratou R$ 8,9 bilhões em investimentos em linhas de transmissão na 6ª feira (30.out), mesmo depois do choque eleitoral no dólar e nos juros futuros. Para 2027, a projeção é de R$ 50 bilhões em 3 certames. As concessões são de 30 anos. O leilão teve como vencedores 4 grupos espanhóis e 1 portugês . Segundo Talita, companhias de outros países devem participar das próximas disputas.
O setor ferroviário apresenta o cenário mais complexo. O governo tenta avançar inicialmente com uma carteira de 8 projetos que não saiu do papel em 2026. Projetos ferroviários exigem investimentos elevados na construção e têm longo prazo de retorno financeiro, o que reduz a atratividade para investidores e dificulta a viabilização dos empreendimentos.
O Ministério dos Transportes fez apresentações a investidores na China e em Londres ao longo do ano e espera atrair capital estrangeiro para as concessões. Em paralelo, anunciou uma série de mecanismos de financiamento para dividir os custos dos projetos com a iniciativa privada. A iniciativa parte de um diagnóstico de que a combinação de recursos públicos e privados será necessária para viabilizar empreendimentos desse porte.
Segundo Ganut, da A&M Infra, trechos menores e com cargas mais pontuais são modalidades de concessão que funcionam com mais eficácia. Ele avalia que o governo terá dificuldade para leiloar trechos mais longos.
Para as hidrovias, o governo quer fazer as primeiras concessões do setor em 2027. Seriam as primeiras da história do setor, mas o avanço dos projetos ainda depende de consultas e audiências públicas, além dos demais procedimentos dentro da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) e do TCU.
Esses empreendimentos enfrentam questionamentos de populações locais relacionados a impactos ambientais e sociais, que chegaram a fazer o governo recuar em um projeto no Rio Tapajós em 2026. Além disso, há a variável do risco ligado ao nível das águas em épocas de seca , que impactam diretamente a navegabilidade dos rios.
No setor aeroportuário, o projeto de maior impacto para o próximo ciclo é o acordo de repactuação do Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), que tem potencial de destravar R$ 1,5 bilhão em investimentos. O governo atua junto ao TCU (Tribunal de Contas da União) para solucionar o passivo de litígios relacionados ao terminal, da mesma forma que fez com outros ativos provenientes das primeiras rodadas de concessões de aeroportos do país, como Guarulhos, Galeão e Brasília –que será oferecido novamente ao mercado em 17 de dezembro .
No governo, a avaliação é que o segmento aeroportuário já está mais avançado e que Viracopos é o último grande projeto pendente de solução. O desafio agora é encontrar saída para uma carteira de 59 aeroportos regionais.

