Segundo fontes ouvidas pela CNBC , a empresa pretende acessar os componentes remotamente por serviços de computação em nuvem, modalidade que ainda apresenta brechas na legislação americana.
Provedores de nuvem que compram chips da Nvidia repassam a capacidade de processamento via contratos de aluguel. Propostas comerciais previam pagamento antecipado de 30% a 50% maior para clientes da China. – Imagem: Saulo Ferreira Angelo/Shutterstock
Negociações envolvem milhares de chips Blackwell
Quatro pessoas familiarizadas com o assunto disseram à CNBC que a Moonshot negociou, ao longo deste ano, possíveis contratos com empresas conhecidas como neoclouds. Essas companhias alugam capacidade de processamento em estruturas de computação em nuvem equipadas com GPUs da Nvidia , permitindo que clientes utilizem os chips sem precisar instalá-los em seus próprios data centers.
Nas conversas, a empresa chinesa demonstrou interesse em alugar capacidade de clusters com 8 mil ou mais GPUs Blackwell instaladas na Europa. O objetivo seria ampliar o acesso a poder computacional para operar seus modelos de inteligência artificial . Duas fontes ouvidas pela CNBC mencionaram especificamente o uso dos equipamentos para inferência, etapa em que os modelos processam informações e respondem às solicitações dos usuários. Uma delas também relatou interesse em capacidade destinada ao treinamento de modelos.
A busca por esses recursos foi descrita por uma das fontes como “muito agressiva”. O movimento ocorre após a Casa Branca afirmar, em julho, que a Moonshot havia acessado chips Blackwell remotamente por meio de uma instalação na Tailândia. De acordo com pessoas familiarizadas com o assunto, as conversas sobre o aluguel de capacidade em data centers europeus começaram depois dessa declaração.
O interesse da Moonshot também evidencia uma dificuldade para a política de controle de exportações dos Estados Unidos. As regras americanas restringem o envio dos chips mais avançados da Nvidia diretamente para a China, mas a legislação atual não dá aos órgãos reguladores poderes amplos para controlar o acesso remoto a esses componentes quando eles estão instalados em serviços de computação em nuvem hospedados em outros países.
Demanda pelo Kimi pressiona infraestrutura da empresa
Fundada em 2023 e sediada em Pequim, a Moonshot AI está entre as principais desenvolvedoras chinesas de modelos de inteligência artificial. Em julho, lançou o Kimi K3, modelo que, segundo a própria empresa, reduziu a distância em relação aos sistemas da Anthropic e da OpenAI.
A ferramenta ganhou espaço como alternativa de menor custo às soluções americanas. O aumento da procura pressionou a infraestrutura da companhia, que suspendeu temporariamente novas assinaturas para priorizar os usuários existentes.
Em uma publicação no LinkedIn, a empresa afirmou estar “adicionando capacidade o mais rápido possível e reabriremos as vagas para novas assinaturas em lotes”.
A procura por processamento também aparece nas condições comerciais discutidas. Nesse mercado, os clientes geralmente pagam antecipadamente uma parcela do valor total dos contratos para garantir acesso à infraestrutura.
Uma das fontes ouvidas pela CNBC afirmou que foi proposto que a Moonshot pagasse entre 30% e 50% a mais antecipadamente do que um cliente não chinês. Acordos com empresas chinesas podem gerar pagamentos iniciais maiores porque operadores de nuvem e financiadores procuram se proteger contra uma eventual proibição futura do acesso remoto.
O Congresso dos EUA analisa a lei RASA para barrar o acesso remoto de empresas estrangeiras, principalmente chinesas, a chips na nuvem. – Imagem: wildpixel/iStock
EUA discutem ampliar controles sobre acesso remoto
A possibilidade de empresas chinesas utilizarem chips americanos por meio de estruturas no exterior também está no centro das discussões regulatórias em Washington. Parlamentares propuseram o Remote Access Security Act (RASA), projeto que pretende ampliar os controles de exportação para incluir o acesso remoto, por serviços em nuvem, a equipamentos e softwares estratégicos. A proposta foi aprovada pela Câmara dos Representantes em janeiro, mas ainda não passou pelo Senado.
Outras movimentações ajudam a dimensionar a pressão sobre o setor:
O Financial Times informou que a Nvidia comunicou a provedores de nuvem que pelo menos 51% dos serviços deveriam ser destinados a clientes não chineses.
A fabricante defendeu que a infraestrutura americana de inteligência artificial precisa manter presença competitiva no mercado mundial.
Em agosto, Washington autorizou algumas vendas dos chips H200, de uma geração anterior, mas as operações ficaram sujeitas a restrições do governo chinês, interessado em fortalecer os fabricantes nacionais de semicondutores.
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