Antes de servir, Marcelo e Idjahure vão integrar a turma que se inicia em 2026 e termina em 2028. O curso tem cerca de 60 alunos aprovados no CACD (Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata). Do total, quase metade dos ingressos são de grupos sub-representados na diplomacia brasileira, com 17 pessoas negras, 7 pessoas com deficiência e uma quilombola, além dos 2 indígenas.
O grupo também tem maior participação proporcional feminina da história, com 45% de mulheres.
O concurso que selecionou os novos alunos do Instituto Rio Branco contou com ações afirmativas como uma política estabelecida no Estatuto da Igualdade Racial (2010) e uma reivindicação de anos dos movimentos de defesa dos direitos humanos.
Nesta 5ª feira (5.nov), no evento de posse dos novos diplomatas, a ministra interina das Relações exteriores, Maria Laura da Rocha, destacou a necessidade de o corpo diplomático brasileiro refletir a diversidade do próprio povo.
“Em tempos de ameaças à democracia e aos direitos duramente reconhecidos na Constituição de 1988, celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nessa instituição bicentenária é um ato de resistência” , afirmou Laura da Rocha. “Ao fazer isso, o Itamaraty reafirma com convicção o papel que esses grupos sociais têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo” , declarou.
A ministra citou medidas do ministério para promover essa diversidade, como o aumento do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a apoiar, além de pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.
O Ministério dos Povos Indígenas , representado pelo ministro Eloy Terena, disse que a posse é a materialização do conceito de “Aldear o Estado” , a partir da inserção de lideranças indígenas em espaços técnicos capazes de influenciar decisões dentro e fora do país.
Olhando para trás, ele lembrou que indígenas que chegam hoje ao Itamaraty, há poucos séculos, sequer eram considerados seres humanos. “ É um momento altamente simbólico. Não é apenas um ganho individual ou coletivo, é um ganho de toda a nação e do Estado brasileiro ”, disse Terena.
Convidado de honra da cerimônia, intelectual e escritor indígena, trajando a farda da ABL (Academia Brasileira de Letras), Ailton Krenak também celebrou o momento e destacou que a presença das famílias e das crianças indígenas na solenidade rompe com a frieza institucional. “Que mesmo diante das quase impossibilidades, eles sejam capazes de exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido” , declarou.
Os 2 jovens indígenas que ingressam na carreira diplomática têm destacada trajetória acadêmica e profissional. Marcelo Kariri, natural de Campina Grande (PB), é graduado em engenharia elétrica pela UFCG (Universidade Federal de Campina Grande) e tem MBA em digital business pela USP/Esalq (Universidade de São Paulo/Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Atuou de 2021 a 2025 como engenheiro de Suporte a Produtos e é autor de livro infanto-juvenil.
“Havia uma tradição permeando onde minha família morava de que pessoas como nós enlouqueceriam se estudassem e deveriam ficar apenas nos trabalhos braçais” , contou na cerimônia. “Minha mãe viu na educação uma porta para a vida” .
Idjahure Achkar Terena é doutorando em antropologia social pela USP e mestre em antropologia social pelo Museu Nacional da UFRJ ( Universidade Federal do Rio de Janeiro ). É também bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).
“Estar no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita de exclusão e tutela, batalhando por um futuro ancestral e por um novo presente onde a nossa diversidade étnica finalmente integre o Estado” , avaliou. Idjahure é filho do artista Macsuara Kadiwéu, o 1º ator indígena do cinema brasileiro.
De uma população de 203 milhões de pessoas, o Brasil tem 1,2 milhão de indígenas distribuídos em 391 etnias falantes de 295 línguas distintas, além de 114 grupos isolados ou de recente contato. Já a população negra do país totaliza 92,1 milhões de pessoas, das quais 45,3% são pardas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2022.
Veja fotos da cerimônia:
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Brasil, em 5 de novembro de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360 .

